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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/02/2004 16/01/2004 2 / 5 / 5
Distribuidora

Fúria em Duas Rodas
Torque

Dirigido por Joseph Kahn. Com: Martin Henderson, Ice Cube, Monet Mazur, Jay Hernandez, Faizon Love, Adam Scott, Matt Schulze, Jaime Pressly, Justina Machado.

Um dos trailers de Fúria em Duas Rodas afirmava, orgulhoso: `Dos mesmos produtores de +Velozes e +Furiosos!` – uma frase que considerei como uma verdadeira ameaça. E, de fato, logo nos minutos iniciais de projeção é perfeitamente possível identificar as marcas registradas da equipe ao acompanharmos uma seqüência em que dois carros disputam corrida com uma moto: abusando dos cortes rápidos e de tomadas que mostram as mudanças de marcha, o ponteiro do velocímetro se movendo e os pedais do acelerador sendo afundados pelos motoristas, o diretor estreante Joseph Kahn demonstra ter estudado com afinco os projetos anteriores de seus patrocinadores. Aliás, nesta seqüência pré-créditos, não conseguimos sequer enxergar os rostos dos participantes da disputa. E por que deveríamos? Afinal, este é um filme sobre motos, e não pessoas, não é mesmo?

Por outro lado, embora não seja uma obra-prima (fico até constrangido em citar o termo ao discutir um longa como este), Fúria em Duas Rodas ganha alguns pontos preciosos por demonstrar claramente que jamais se leva a sério, como podemos observar na cena em que dezenas de motoqueiros são vistos urinando lado a lado, e também no momento em que um personagem consulta um mapa enquanto conduz sua moto em alta velocidade. E se Paul Walker parecia acreditar nos absurdos que seu personagem dizia em +Velozes +Furiosos, desta vez o protagonista não escapa da ironia de sua namorada: ao ouvir o rapaz dizer `Eu vivo minha vida um quarto de milha de cada vez`, a moça dispara: `Esta é a coisa mais estúpida que já ouvi`.

Enquanto isso, o diretor intercala imagens de garotas usando biquínis fio dental e blusas molhadas com outras tomadas em que vemos motocicletas sendo ensaboadas, demonstrando conhecer as preferências de seu público-alvo. É quase como se ele estivesse dizendo: `Vocês podem ficar excitados com as garotas e/ou com as motos. A escolha é de vocês!`. Por incrível que pareça, acredito que muitos rapazes escolherão a segunda opção.

Já as seqüências de ação são eficientes, revelando-se melhores do que aquelas vistas nos dois filmes `primos` deste: Velozes e Furiosos e, é claro, +Velozes +Furiosos – e, embora eu não seja fã de motos, acredito que estas se revelam muito mais apropriadas para um longa de ação do que os carros, já que seus donos estão mais sujeitos a acidentes, tornando a coisa mais interessante. Além disso, é bem melhor ver alguém tentando se equilibrar sobre uma moto a 200 km/h do que acompanhar alguém passando marchas e pisando em pedais. Aliás, Fúria em Duas Rodas possui algumas seqüências memoráveis (embora absurdas), merecendo destaque aquela que se passa sobre um trem em movimento (quando um dos personagens consegue até mesmo se desviar de vários tiros, ignorando o pouco espaço para manobras) e, é claro, aquela em que duas belas garotas (apropriadamente usando apertadas roupas de couro) duelam utilizando facas e golpes de caratê enquanto correm em suas motos, num estilo de luta que resolvi batizar como moto-fú (se o termo colar, quero receber royalties). Em ambos os casos, o espectador é levado a rir ao constatar o disparate do que está vendo.

Por outro lado, o roteiro do também estreante Matt Johnson abusa da boa vontade do público ao transformar seus personagens em seres indestrutíveis: mesmo depois de atirados de suas velozes motos ou arremessados a metros de distância por explosões enormes, os heróis de Fúria em Duas Rodas jamais se machucam – e até mesmo os vilões parecem invulneráveis (até o momento em que devem ser punidos por suas más ações, é claro). Da mesma forma, em certo momento alguém arranca o colar de um cadáver bem em frente ao policial que conduzia o corpo para o necrotério – e o `homem da lei` nada faz, embora o objeto possa representar uma evidência importante. E o que dizer dos péssimos diálogos, que, quando se levam a sério, são piores do que os dos filmes estrelados por Paul Walker? Você não acredita? Então veja o que o herói diz para um de seus inimigos em determinado instante da história:

- Já ouviu falar da filosofia que diz que tudo o que você faz volta para você de maneira 10 vezes pior?

Para piorar, a resposta do bandido é a seguinte:

- O que quer dizer com isso?

E se Velozes e Furiosos podia, ao menos, contar com o carisma de Vin Diesel, Fúria em Duas Rodas torna-se vítima de seu elenco homogeneamente ruim: Martin Henderson, que demonstrara boa presença em O Chamado, transforma-se em um protagonista apagado, sem charme algum, enquanto Ice Cube oferece a pior atuação de sua carreira, em nada lembrando o bom intérprete visto em Barbershop e Três Reis. Já a maravilhosa Monet Mazur parece satisfeita em ser apenas bela, enquanto Jaime Pressly, embora igualmente bonita, irrita ao atravessar todo o filme passando a língua sobre os lábios. O único que consegue um certo destaque é Adam Scott, que arranca algumas poucas risadas com seu confuso policial.

Prejudicada ainda mais pelos péssimos efeitos visuais, que em certos momentos transformam o longa em um videogame mal realizado, esta produção pode até não ser tão horrorosa quanto +Velozes +Furiosos, mas, de todo modo, confesso que também sentirei medo quando, no futuro, escutar a frase `Dos mesmos produtores de Fúria em Duas Rodas...`.
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10 de Fevereiro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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