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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/05/2005 02/05/2005 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Cruzada
Kingdom of Heaven

Dirigido por Ridley Scott. Com: Orlando Bloom, Jeremy Irons, Liam Neeson, David Thewlis, Eva Green, Marton Csokas, Brendan Gleeson, Ghassan Massoud, Iain Glen.

Os leitores que já acompanham meu trabalho há algum tempo certamente conhecem meu repúdio a Gladiador, que, ao lado de O Maior Espetáculo da Terra e Gigi, certamente representa um dos maiores absurdos da história da Academia no que diz respeito aos vencedores do Oscar de Melhor Filme. O que alguns parecem não compreender, porém, é que as restrições que faço àquele longa não são exatamente de cunho histórico: embora aponte uma série de absurdos factuais do roteiro, chego a dizer, naquele artigo, que seria capaz de perdoar os erros históricos caso o projeto funcionasse como obra de ficção – e, a partir daí, explico por que considero que não funciona. Por ironia do destino, cinco anos depois volto à questão ao escrever justamente sobre outro trabalho do cineasta Ridley Scott.

Pois, assim como Gladiador, este Cruzada conta com sua parcela de tropeços documentais: abordando uma trama que tem início em 1186, o filme logo apresenta seu protagonista, o digno Barão de Ibelin, ao Rei Balduíno IV (o `rei leproso` de Jerusalém) – ignorando que, na realidade, o monarca havia morrido um ano antes. Ao buscar narrar o envolvimento de Balian (o tal Barão) com os tensos incidentes que culminaram no ataque dos muçulmanos à cidade sagrada então controlada pelos cristãos (o que daria origem à Terceira Cruzada), o roteiro de William Monahan apresenta uma visão histórica tristemente simplista dos acontecimentos e das motivações dos principais personagens do período. E como aceitar o relacionamento amoroso entre Balian e Sibylla, irmã do Rei, quando, na verdade, esta era (ao contrário do que mostra o filme) devotadíssima ao marido, Guy de Lusignan, chegando a conspirar com este para, juntos, chegarem ao poder?

Como aceitar? Respondo: reconhecendo que, diferentemente de Gladiador, as mudanças aqui se justificam do ponto de vista dramático. Sim, na realidade, Balian era casado e tinha filhos, mas o fato é que, ao transformá-lo em viúvo, o longa estabelece melhor suas motivações para ir a Jerusalém. Da mesma forma, aplaudo a decisão de Monahan em ignorar que Sibylla tinha um filho recém-nascido que assumiu o trono por alguns meses, até morrer: considerando-se que o filme tem pouco mais de duas horas de duração, um tempo precioso seria perdido para estabelecer um fato que, aqui, não apresenta relevância para o desenrolar da trama.

Não que todas as liberdades criativas tomadas pelo roteirista sejam felizes: ao longo dos quinze primeiros minutos de Cruzada, por exemplo, vemos Balian protagonizar uma série de circunstâncias inacreditáveis, chegando a ponto de ser o único sobrevivente de um naufrágio, tornando-se uma versão medieval do herói de Corpo Fechado. Aliás, todo o primeiro ato da narrativa soa falso, abusando de clichês e estereótipos – e é somente quando o personagem chega a Jerusalém que o filme realmente encontra seu centro emocional e temático. A partir daí, Cruzada surpreende ao retratar como, em uma época na qual muçulmanos e cristãos dividiam Jerusalém em relativa harmonia, os fundamentalistas de cada religião buscavam incendiar as relações entre seus respectivos líderes a fim de provocar uma guerra que atendesse aos seus propósitos sombrios; como ocorre até hoje, muitos dos que se dizem `defensores` de sua fé são justamente os mais interessados no derramamento de sangue, que lhes traz poder e os torna `necessários` no cenário político mundial.

Assim sendo, é reconfortante perceber que, num mundo de brutalidade e selvageria, Balian aparece sempre acompanhado de figuras sensatas que lhe cobrem de conselhos sábios sobre o valor da paz e da tolerância – e é comovente testemunhar o encontro entre o Rei Balduíno IV e o quase mítico Saladino, que liderou os muçulmanos em uma seqüência inigualável de vitórias sobre os cruzados: acompanhados de seus respectivos exércitos, prontos para guerrear, os dois líderes optam por uma saída pacífica para seus desentendimentos, já que, ao contrário do que ocorre hoje, valorizam a vida de seus seguidores e não querem promover confrontos desnecessários. Aliás, uma das grandes virtudes de Cruzada reside na forma imparcial com que retrata os dois lados do conflito, esclarecendo que ambos contavam com `bons` e `maus` representantes (a simplificação da descrição é erro meu, não do filme).

Demonstrando sua fascinação habitual por produções de grande escala, Ridley Scott não se cansa de conduzir seqüências nas quais vemos milhares de soldados marchando por vastas planícies, investindo em constantes planos aéreos que estabelecem a magnitude dos eventos enfocados. Ao mesmo tempo, o cineasta comprova seu talento nas elaboradas batalhas vistas ao longo do filme – especialmente a que ocorre no terceiro ato, quando compreendemos perfeitamente as estratégias adotadas pelos exércitos combatentes sem que, para isso, algum personagem tenha que explicá-las de forma artificial. E se a predileção de Scott pelo uso de grandes angulares ao realizar suas panorâmicas não representa surpresa alguma, tampouco fiquei admirado ao reencontrar outro elemento característico do diretor: sua fascinação por partículas que cruzam a tela, ajudando a preencher o quadro – sejam estas partículas formadas por gotas (ou jorros) de sangue, flocos de neve, grãos de areia ou cinzas originadas por fogueiras, forjas ou explosões.

Por outro lado, Ridley Scott falha na condução de seus atores: Orlando Bloom, em especial, surge com sua inexpressividade habitual, demonstrando-se incapaz de manifestar qualquer tipo de emoção – mas enquanto isto funcionava perfeitamente para o elfo Legolas, o mesmo não se aplica a um cavaleiro que atravessa uma intensa crise espiritual. Já Marton Csokas irrita pela unidimensionalidade de sua performance, já que faz o possível e o impossível para transformar Guy de Lusignan em um vilão detestável, fazendo questão absoluta de exibir um olhar pedante e ameaçador em todas as suas aparições (na verdade, ele se limita a repetir a atuação igualmente caricata que ofereceu em Linha do Tempo). Infelizmente, o mesmo se aplica a Brendan Gleeson, que, nos últimos tempos, vem se especializando em viver personagens desprezíveis que jamais apresentam qualquer tipo de complexidade psicológica.

É fascinante, portanto, constatar que a melhor performance do filme pertence a um ator que em momento algum mostra o rosto ao longo da projeção: com a face sempre coberta por uma máscara (que esconde as feições deformadas pela lepra), o intérprete do Rei Balduíno IV consegue retratar a sabedoria, a sensatez e a bondade do monarca simplesmente através da voz equilibrada e tranqüila e da serenidade transmitida por seus olhos. Aliás, não foi à toa que Scott escalou um ator tão competente para viver o personagem, evitando o erro de julgar que, como o sujeito não mostra o rosto, poderia ser encarnado por qualquer um. Devo dizer, no entanto, que não entendo por que o nome do astro em questão é praticamente mantido em segredo pelo cineasta, sequer sendo listado entre os créditos principais – e como não sei se você quer conhecer a identidade do sujeito antes de assistir ao filme, digo apenas que ele é o brilhante protagonista deste, deste e deste longa.

Espero que agora eu tenha conseguido esclarecer minha posição sobre liberdades históricas nas produções para Cinema: se um cineasta pretende adotá-las, tudo bem. Só peço uma coisa: que as alterações funcionem do ponto de vista dramático.

Tá... e que não fujam muito do bom senso.

P.S. (em 8 de Maio): Acabo de perceber que deixei de citar a performance brilhante de Ghassan Massoud como Saladino, que surge imponente com seu lendário código de honra (era conhecido até mesmo pelos inimigos como um homem justo e cortês). Espero ter reparado a injustiça com esta observação.


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06 de Maio de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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