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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/07/2003 29/08/2003 4 / 5 / 5
Distribuidora

Morte Densa
Morte Densa

Dirigido por Jurandir Müller e Kiko Goifman.

A idéia por trás de Morte Densa, documentário dirigido pelos videomakers Kiko Goifman e Jurandir Müller, é fascinante: em uma série de entrevistas, os dois diretores colhem relatos feitos por indivíduos que, por algum motivo, cometeram assassinato. São pessoas normais, que nada têm a ver com os serial killers do Cinema ou da vida real, mas que, em um acesso de raiva, tiraram a vida de alguém. Chocantes e ricos em detalhes, os depoimentos prendem a atenção do espectador por razões óbvias – não é sempre que ouvimos histórias como essas (e mais raro ainda é que o próprio criminoso narre o que fez). Porém, se Goifman e Müller merecem créditos pela interessante (embora mórbida) idéia e pelo bom trabalho de pesquisa, é preciso reconhecer, também, que Morte Densa peca pela omissão, já que perde a oportunidade de explorar o tema com a profundidade apropriada.

Antes de mais nada, no entanto, é revelador observar que os entrevistados são, em sua maioria, pessoas humildes e sem sólida formação intelectual. Além disso, todos os casos citados envolvem vítimas que mantinham estreitas relações com seus assassinos, o que torna os depoimentos ainda mais assustadores: há o sujeito que matou um velho amigo; a esposa que baleou o marido; a filha que tirou a vida do pai; e até mesmo o pai de família que enfiou um espeto no coração do próprio irmão gêmeo. E o curioso: logo no início da projeção, surge um letreiro revelando que boa parte destes crimes aconteceu no domingo. Infelizmente, o documentário jamais explica esta estranha estatística (quando conversei com Goifman, há alguns meses, ele revelou a razão: domingo é o dia em que as famílias costumam se reunir, o que, naturalmente, possibilita maior ocorrência de discussões).

Aliás, este é o ponto fraco de Morte Densa: a produção é hábil ao apresentar fatos, mas jamais procura analisar seus significados. As descrições dos crimes são vívidas, é verdade, mas por que a dupla de diretores não tenta descobrir como as tragédias alteraram a vida dos envolvidos? Matar alguém é certamente uma experiência perturbadora, mas, infelizmente, o documentário não investiga os traumas psicológicos sofridos pelos criminosos e sequer indaga como estes são tratados pelas demais pessoas (sofrem preconceitos? São temidos? São vistos como aberrações?).

Em certo momento, ao falar sobre seus atos, um dos entrevistados explica: `Meu lado mau se sobrepôs e eu agi como uma pessoa perversa` – porém, esta visão autocrítica não é a mais comum entre os assassinos vistos em Morte Densa, já que, em sua maioria, estes parecem depositar a culpa nos ombros (acreditem ou não) das próprias vítimas. Como o filme traz apenas o relato (nada objetivo) dos autores dos crimes, os mortos acabam sendo retratados como indivíduos violentos e sem moral que praticamente obrigaram seus inimigos a puxar o gatilho. Com isso, a credibilidade do projeto é parcialmente comprometida, já que não podemos confiar nas frágeis explicações fornecidas pelos criminosos (um deles chega a gaguejar e a diminuir o tom de voz ao falar sobre o que fez, fornecendo claros indícios de estar ocultando – ou alterando - a verdade).

Outro aspecto negativo de Morte Densa é o fato de que todos os assassinatos enfocados foram cometidos no calor do momento – e muitos são classificados como `legítima defesa`, o que fornece o cenário ideal para que os entrevistados se eximam de qualquer culpa. Por que não conversar com alguém que premeditou o crime? Aparentemente, a estudante de odontologia que matou o pai planejou o ato (ao lado da mãe), mas, infelizmente, os cineastas fogem das perguntas mais difíceis: como a moça se sentiu ao premeditar a morte de seu próprio pai? Ela pensou em desistir? Ela compreendia o pleno significado do que iria fazer? Além disso, o filme erra ao não revelar o destino dos criminosos: quais deles foram condenados? Quais foram as penas? Quem já se encontra em liberdade? Esta informação pode parecer irrelevante, mas não é – principalmente se considerarmos que o único sinal de arrependimento exibido pelos assassinos diz respeito ao fato de terem sido presos, como se a impunidade justificasse seus atos.

Intercalando os depoimentos com sombrias vinhetas embaladas por canções melancólicas, Kiko Goifman e Jurandir Müller conferem um clima ainda mais pesado e sufocante ao projeto – algo que é realçado pela penumbra que envolve os entrevistados. Por outro lado, Morte Densa possui momentos inesperadamente engraçados, como no instante em que um dos assassinos explica que foi a própria vítima quem lhe entregou a arma do crime: `Ele me deu o revólver e perguntou se eu teria coragem de matá-lo. Infelizmente, eu tive. Dei quatro tiros nele`.

Como bons artistas que são, os diretores guardam o depoimento mais forte de Morte Densa para o final, quando entrevistam a única pessoa que parece genuinamente arrependida do que fez: emocionando-se ao narrar como matou o namorado, a comovente Helenice (vítima constante dos maus-tratos do parceiro) declara estar ansiosa para ir logo a julgamento – e sua explicação evidencia toda a complexidade de uma mente perturbada pela intensidade de seu ato: `Eu quero saber se sou culpada ou inocente`. Para a garota, suas motivações para o crime são o que menos importam: a única coisa que pode lhe conceder algum tipo de redenção é o veredicto da Sociedade. E é justamente por revelar detalhes como este sobre pessoas como Helenice que Morte Densa, apesar de suas omissões, é um projeto inovador e interessante.
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29 de Agosto de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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