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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/07/2004 02/04/2004 2 / 5 / 5
Distribuidora

Nem que a Vaca Tussa
Home on the Range

Dirigido por Will Finn e John Sanford. Com: Roseanne Barr, Judi Dench, Jennifer Tilly, Cuba Gooding Jr., Steve Buscemi, Dennis Weaver, Charles Dennis, Joe Flaherty, Charles Haid, Estelle Harris, Lance LeGault, Sam J. Levine, Patrick Warburton, Randy Quaid.

Depois de amargar consecutivos fracassos de crítica e/ou público com seus últimos projetos de animação tradicional (como Planeta do Tesouro, Atlantis: O Reino Perdido, Peter Pan – De Volta à Terra do Nunca e Leitão – O Filme), a Walt Disney Pictures decidiu pôr fim naquele que é seu setor mais tradicional e encerrar definitivamente a produção de filmes que não sejam animados em computador. Como se já não bastasse o fato da decisão do estúdio ser estúpida e equivocada, ignorando o fato de que não é a técnica que define o sucesso ou fracasso de um longa, mas sua qualidade, os fãs do gênero ainda terão que amargar o fato de que o canto de cisne da Disney é um filme medíocre que narra uma história batida e que merecia ter sido lançado diretamente em vídeo.

Ambientada no Velho Oeste, a trama gira em torno da vaca Maggie, cujo dono perde a fazenda depois que todo o seu rebanho é roubado pelo terrível Alameda Slim. Sem dinheiro para sustentá-la, o fazendeiro deixa Maggie sob os cuidados de uma vizinha que também está sendo ameaçada pelo banco de ter sua propriedade leiloada. Decidida a salvar o lugar, a corajosa vaca resolve capturar Alameda Slim e entregá-lo ao xerife, utilizando o dinheiro da recompensa para pagar as dívidas de sua nova dona – e, para isso, parte em uma longa jornada ao lado de suas duas novas companheiras bovinas: a esotérica Grace e a recatada Sra. Calloway.

Escrito e dirigido por Will Finn (do irregular A Estrada para El Dorado, produzido pela DreamWorks) e pelo estreante John Sanford, Nem que a Vaca Tussa adota um estilo de animação que lembra bastante os curtas de Chuck Jones – o que, por si só, não é mau sinal. Infelizmente, as semelhanças param no estilo, já que o longa jamais consegue recriar o ritmo enérgico e o clima enlouquecido dos trabalhos de Jones, preferindo apostar em gags físicas óbvias e sem imaginação que se concentram em mostrar os personagens sendo atingidos por todo tipo de objetos e trombando em cactos e rochas (e nem preciso dizer que boa parte das `piadas` envolve `arrotos` e outros exemplos deste tipo de humor `sofisticado`).

Preso por uma história obviamente sem alcance, o roteiro se entrega ao velho e confiável recurso de transformar o filme em um road movie – uma maneira quase infalível de levar o espectador a pensar que algo está realmente acontecendo, quando, na realidade, é apenas o cenário que está mudando. Assim, em certo momento, uma forte chuva começa e, em questão de segundos, provoca uma inundação sem a menor explicação – a não ser, é claro, a de que os cineastas precisavam fazer algo acontecer para evitar que o público dormisse ou abandonasse a sala de projeção. Ainda assim, Nem que a Vaca Tussa parece longo para seus míseros 76 minutos de duração – o que já representa um indício claro de sua falta de conteúdo.

Incluindo alguns dos piores números musicais já realizados pela Disney, o filme tortura o espectador com coreografias nada inspiradas e canções aborrecidas e medíocres – e chega a ser difícil acreditar que estas tenham sido compostas pelo mesmo Alan Menken que criou momentos inesquecíveis em filmes como A Pequena Loja dos Horrores (1986), A Bela e a Fera e O Corcunda de Notre Dame. Como se não bastasse, Finn e Sanford tentam incluir piadas voltadas para o público adulto, mas, ignorando a sutileza de longas como Shrek e Mulan (que jamais permitiam que as crianças na platéia percebessem o que provocara o riso de seus pais), acabam bombardeando os pequenos espectadores com um tipo de humor óbvio e nada apropriado, como o assédio de um rebanho de touros às três vacas (que sugerem um `banho frio` aos mais afoitos) e o travesti que cai no colo do próprio filho.

Inexplicável, também, é a atitude apaixonada de Maggie com relação a uma fazenda que acaba de conhecer – e a reação confiante dos demais animais, que agem como se a vaca fosse uma velha amiga. E se você já assistiu a dois ou três filmes protagonizados por um personagem confiante que parte em uma missão difícil, já sabe que haverá um momento em que o herói demonstrará desânimo e pouca fé em seus próprios atributos, recobrando a força depois de ouvir um discurso `inspirador` de algum companheiro – um momento que, além de entregar-se totalmente aos clichês, ainda soa extremamente falso em Nem que a Vaca Tussa.

O pior é que os diretores não conseguem acertar sequer no elenco contratado para dublar os personagens: apesar de seu imenso talento, Judi Dench é limitada pela personalidade nada atraente da Sra. Calloway – e é interessante observar que a única figura com sotaque britânico vista na história é justamente a que age de forma esnobe. Enquanto isso, Maggie ganha a voz insuportável de Roseanne Barr, que, resgatada de sua mais do que merecida obscuridade profissional, transforma a heroína do filme em uma criatura abominável e – o mais lamentável – nada engraçada. Para se ter uma idéia do desastre representado pela dublagem de Roseanne, até mesmo a voz irritante de Jennifer Tilly (como Grace) acaba merecendo destaque simplesmente por oferecer uma trégua aos nossos pobres ouvidos. Por outro lado, Cuba Gooding Jr. quase se salva como o cavalo Buck, que diverte com suas lágrimas de emoção sempre que é cavalgado pelo imponente Rico.

Tecnicamente limitado, Nem que a Vaca Tussa concentra-se na animação dos personagens e ignora a paisagem, evitando, sempre que possível, os planos abertos que descortinariam os cenários – e, mesmo nestes poucos momentos, a utilização de efeitos de computador destoa dos demais elementos, chamando atenção sobre sua presença. E, ao contrário de cenas semelhantes em O Rei Leão, Spirit – O Corcel Indomável e Irmão Urso, o longa ignora a oportunidade de brindar o espectador com uma daquelas tomadas aéreas que envolvem a participação de centenas (ou milhares) de elementos em movimento – quando nada menos do que cinco mil touros são libertados de um trem, o filme simplesmente decide não mostrá-los. Aliás, é inexplicável que este projeto tenha custado absurdos 110 milhões de dólares aos cofres da Disney (a título de comparação, os recentes Lilo & Stitch e Sinbad: A Lenda dos Sete Mares custaram, respectivamente, U$ 80 e U$ 60 milhões).

Ao que parece, o estúdio representado por Mickey Mouse não deveria interromper a realização de animações, mas sim demitir seus executivos.
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21 de Abril de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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