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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/03/2004 19/09/2003 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Duração do filme
108 minuto(s)

Igual a Tudo na Vida
Anything Else

Dirigido por Woody Allen. Com: Jason Biggs, Christina Ricci, Woody Allen, Stockard Channing, Danny DeVito, Jimmy Fallon, Fisher Stevens, William Hill.

Woody Allen sempre foi um cineasta prolífico: até hoje, ele já dirigiu mais de 30 longas-metragens e, durante certos períodos, conseguiu manter a incrível média de um novo filme a cada ano. E que filmes! Entre 1982 e 1987, por exemplo, ele realizou Sonhos Eróticos Numa Noite de Verão, Zelig, Broadway Danny Rose, A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs e Setembro; e, entre 93 e 97, ele lançou Um Misterioso Assassinato em Manhattan, Tiros Sobre a Broadway, Poderosa Afrodite, Todos Dizem Eu Te Amo e Desconstruindo Harry. Ou seja: enquanto os diretores, em sua maioria, atravessam suas carreiras sem realizar um único projeto memorável, Woody Allen produziu onze ótimos projetos num espaço de dez anos. E percebam que sequer mencionei Noivo Neurótico, Noiva Nervosa ou Manhattan.

Infelizmente, apesar de vir mantendo a média de um lançamento anual, o talentoso diretor e roteirista experimentou uma queda colossal na qualidade destas produções – seus três últimos filmes, em especial, encontram-se bem abaixo do que nos acostumamos a esperar de um `filme de Woody Allen`. Não que sua criatividade tenha se esgotado: suas idéias são boas; o problema reside na execução das mesmas. Ao que parece, Allen não possui (compreensivelmente) o mesmo ritmo de antigamente e, com isso, seus projetos estão chegando às telas antes de amadurecerem, como se a primeira versão do roteiro fosse aceita como a definitiva.

Tomemos, como exemplo, este novo Igual a Tudo na Vida, que possui um protagonista tipicamente woodyniano: neurótico e inseguro, o escritor Jerry Falk tem tantos problemas que `nem mesmo o suicídio solucionaria todos`. Como se não bastasse, ele acaba se envolvendo com Amanda, uma garota complicada e volúvel que, nos últimos meses, tem evitado ir para a cama com o pobre sujeito, que procura descobrir o que há de errado com o relacionamento. Se eu acrescentar que Jerry é judeu, fanático por jazz (especialmente Billie Holiday), adora Godard e trabalha criando piadas para comediantes, você certamente deduzirá que ele é vivido pelo próprio Allen – e estará enganado. Por incrível que possa parecer, seu intérprete é o jovem Jason Biggs, da série American Pie.

Concentrando-se na relação entre Jerry e Amanda (e a amizade do primeiro com um homem mais velho – este, sim, interpretado pelo cineasta), Igual a Tudo na Vida possui sua cota de diálogos inspirados, como qualquer outro trabalho de Allen (até mesmo os mais irregulares): em certo momento, por exemplo, a namorada do protagonista protesta: `Estas marcas nas suas costas são de dentes! Você acha que eu vou acreditar que você caiu em cima de um pente?`, e, mais tarde, Amanda procura tranqüilizar Jerry da seguinte maneira: `Por que você acha que eu não te amo? Só porque me afasto quando você me toca?`. Por outro lado, é preciso reconhecer que estes são exemplos isolados, ao contrário de obras como Um Assaltante Bem Trapalhão, que era recheado de diálogos hilários do início ao fim.

Da mesma forma, a maior parte dos personagens deste filme não possui aquele `charme especial`: há, obviamente, o empresário que insiste em utilizar analogias relacionadas ao mercado de roupas e o psiquiatra obcecado pelos sonhos de seus pacientes, mas nem mesmo estes salvam o dia, já que são desperdiçados pelo roteiro. Aliás, o único elemento realmente eficaz de Igual a Tudo na Vida é o paranóico David Dobel, interpretado pelo próprio Woody Allen, que prega máximas como `Nunca confie em um motorista de ônibus nu` e `O certo não é in vino veritas, e sim in eros veritas!`. Além disso, o diretor ainda cria uma cena na qual explora seu grande talento para o humor físico, ao retratar Dobel quebrando os vidros de um carro.

Mas a grande pergunta referente a Igual a Tudo na Vida é: por que utilizar protagonistas tão jovens? Provavelmente, para atrair um público maior. Porém, não há como esconder o desconforto do veterano cineasta com relação aos personagens: podemos até aceitar que um casal recém-saído da adolescência resolva assistir a O Anjo Exterminador, de Buñuel, numa sexta-feira à noite, mas, com o transcorrer da projeção, fica cada vez mais claro que Allen escrevera o roteiro com atores mais velhos em mente. E o que dizer da cena em que Amanda explica para Jerry que é capaz de ter orgasmos com outros homens? A conversa flui de forma dinâmica e engraçada até o instante em que o rapaz diz que `vai ter um derrame`. Ora, ele tem 21 anos de idade! Caso o próprio Woody Allen dissesse esta fala, a piada soaria de forma natural e, conseqüentemente, engraçada, mas ouvi-la sair da boca de Jason Biggs é algo tão artificial que acaba por arruinar o momento.

E mais: Jerry é, supostamente, um roteirista cômico de sucesso, mas, ao longo da projeção, jamais percebemos algum indício de que isto seja verdade, já que ele parece incapaz de enxergar o mundo de forma irônica ou, no mínimo, com o cinismo apropriado – e o recurso de mostrá-lo conversando com a câmera soa de maneira forçada, nunca engraçada. Para completar, a talentosa Christina Ricci transforma Amanda em uma criatura tão aborrecida (culpa do roteiro) que o espectador não consegue deixar de torcer para que ela suma logo da vida de Jerry. (Curiosamente, Ricci e Biggs interpretaram outro casal pouco funcional no ótimo drama Prozac Nation, de 2001).

Possuindo elementos em comum com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (embora Amanda esteja longe de ser Annie Hall), Igual a Tudo na Vida é um filme moderadamente divertido – graças, especialmente, ao complicado Dobel, que deveria ter sido melhor aproveitado. De todo modo, seria ótimo se Woody Allen passasse a dedicar mais tempo ao desenvolvimento de suas idéias. É melhor ver um bom filme a cada dois ou três anos do que sempre sofrer uma decepção anual.
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6 de Janeiro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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