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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/05/2006 13/01/2006 4 / 5 / 5
Distribuidora

Tristão e Isolda
Tristan and Isolde

Dirigido por Kevin Reynolds. Com: James Franco, Sophia Myles, Rufus Sewell, David O’Hara, Mark Strong, Henry Cavill, Bronagh Gallagher, Graham Mullins, Isobel Scott Moynihan, Thomas Sangster.

 

Quando escrevi sobre O Segredo de Brokeback Mountain, comparei o amor trágico de Ennis e Jack a outros grandes romances impossibilitados por convenções sociais e por rixas familiares ou políticas – entre eles, o de Tristão e Isolda. Precedendo em alguns séculos o clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare, a lenda de Tristão e Isolda originou diversas versões compostas por poetas franceses, ingleses e alemães, ganhando sua versão definitiva no século 19, na ópera homônima de Wagner. Dividindo vários aspectos com o romance proibido de Lancelot e Guinevere (Tristão e Lancelot eram Cavaleiros do Rei Arthur), a história do amor proibido do guerreiro britânico e da princesa irlandesa normalmente é recheada de elementos fantasiosos que, nesta nova versão para o Cinema, são descartados pelo roteiro de Dean Georgaris, com resultados interessantes.

           

A base da trama permanece a mesma: em uma Inglaterra dividida depois da partida dos romanos, Tristão é o principal guerreiro (e sobrinho) do rei Marke, que tenta unificar as várias tribos rivais a fim de que, juntos, possam enfrentar a tirania do monarca irlandês. Certo dia, ao lutar com um dos mais temidos oficiais irlandeses, Tristão é ferido por uma espada envenenada e dado como morto por seus companheiros. Felizmente, depois de um funeral marítimo, Tristão é encontrado por Isolda, que o cura. Eventualmente, eles se apaixonam (na lenda original, depois de tomarem, por engano, uma poção do amor) – algo que cria uma situação trágica, já que a moça é oferecida como prêmio em um torneio e Tristão, sem saber que se trata de sua amada, a “ganha” para seu tio Marke, que se casa com a princesa.

           

Trazendo todos os elementos de um grande romance (coincidências, traições, reviravoltas, complicações de última hora, uma aia que ajuda a patroa em suas indiscrições, e assim por diante), Tristão e Isolda é, como se pode ver, a história de um amor proibido – mas, em seu centro, adota uma postura completamente diferente da utilizada por Shakespeare em Romeu e Julieta: para o bardo inglês, nada era mais importante que o amor de seu jovem casal, que se revela capaz até mesmo de encerrar antigas rixas de família; já a lenda céltica discorda veementemente, já que o romance de Tristão e Isolda, real ou inspirado por uma poção, mostra-se uma grave ameaça à estabilidade da recém-unificada Inglaterra (a vantagem de não incluir a poção reside na responsabilidade que o casal agora tem que assumir com relação às conseqüências de seu envolvimento. Sem a `desculpa` do feitiço, eles são obrigados a decidir o que fazer: manter o romance proibido ou arriscar o trono de Marke?).

           

É este dilema, aliás, que torna a história tão fascinante, ganhando ainda mais complexidade graças ao bom caráter do rei Marke: caso este fosse retratado como um homem indigno ou cruel, o amor dos dois jovens certamente se tornaria automaticamente justo aos olhos do espectador. Porém, o monarca é um indivíduo íntegro e de bom coração, além de amar sinceramente sua esposa e seu “sobrinho” (no filme, ele não é realmente tio do rapaz), e isto torna o triângulo amoroso algo de difícil resolução do ponto de vista dramático - outra característica dividida com o romance Arthur-Guinevere-Lancelot. Como se não bastasse, foi justamente Marke quem salvou a vida de Tristão, na mesma ocasião em que este testemunhou o assassinato do pai, o valoroso Aragon (atenção, tolkenmaníacos: antes que tenham um orgasmo, reparem que não há `r` antes do `n`).

           

Dirigido por Kevin Reynolds, cujo último trabalho foi uma razoável adaptação de O Conde de Monte Cristo, este Tristão e Isolda funciona principalmente graças à maneira eficaz com que o cineasta retrata o amor do casal-título, que jamais deixa de soar convincente: quando Tristão vê a amada sorrindo ao lado de Marke, por exemplo, fica ressentido com aquela aparente felicidade - e esta prova de egoísmo é algo típico de um amante magoado. Além disso, James Franco retrata com competência a melancolia de seu personagem, cuja fisionomia trai escancaradamente seu sofrimento (e a bela Sophia Myles também faz um belo trabalho com sua Isolda, mesclando a vulnerabilidade da princesa com uma firme determinação de não abrir mão de seu amado). Enquanto isso, Rufus Sewell aproveita a rara oportunidade de viver uma figura bondosa e demonstra seu talento ao criar um rei dividido entre o ciúme e própria honra - e o ator se destaca especialmente na cena em que Marke descobre há quanto tempo Tristão e Isolda se conhecem: observem como ele parece engolir o ar, como se o choque o impedisse momentaneamente de respirar. Por outro lado, David O`Hara, como o rei irlandês Donnchadh, cria um vilão absolutamente caricato, limitando-se, inclusive, a falar apenas através de sussurros ameaçadores (e até mesmo a equipe de maquiagem contribui para a caricatura, penteando seu cabelo de forma a criar dois pequenos chifres que acentuam sua natureza `diabólica`).

           

Evitando a tentação de criar um visual glamouroso, com cores marcadas, o diretor de fotografia polonês Artur Reinhart adota um estilo mais realista, procurando ressaltar a precariedade das condições de vida da época em que a história se passa (por volta do século 6), o que torna o drama do casal ainda mais urgente, já que o afasta de vez de qualquer tom fantasioso que pudesse ter sobrevivido da lenda original. Em contrapartida, Reynolds acaba se entregando às convenções e aos interesses comerciais ao incluir um flashback totalmente desnecessário nos momentos finais da projeção, com o intuito claro de tentar mandar o espectador com uma sensação `agradável` para fora da sala. Um equívoco que, infelizmente, acaba comprometendo em parte a eficiência do drama envolvendo o amor trágico e inesquecível de Tristão e Isolda.
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23 de Junho de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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