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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/08/2003 29/08/2003 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

O Homem do Ano
O Homem do Ano

Dirigido por José Henrique Fonseca. Com: Murilo Benício, Cláudia Abreu, Natália Lage, Jorge Dória, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Agildo Ribeiro, José Wilker, Mariana Ximenes, Carlo Mossy, André Gonçalves, Marilu Bueno, José Henrique Fonseca e Paulo César Pereio.

Quando escrevi sobre Profissão de Risco, em maio de 2001, observei que o filme me fizera sentir culpa por torcer, em certo momento, para que o protagonista conseguisse traficar drogas para seu país. Em O Homem do Ano, algo parecido acontece: como herói (ou melhor: anti-herói) da história, Máiquel, personagem de Murilo Benício, é a figura com a qual nos `identificamos` – mesmo sabendo que o sujeito é um assassino cruel e sem escrúpulos. Numa tentativa de `redimir` o personagem, o roteiro de Rubem Fonseca (inspirado em livro de Patrícia Melo) busca argumentar que suas vítimas são, na realidade, piores do que o próprio matador – o que acaba resgatando o perigoso conceito de `justiceiro`, que encontra reflexo no medo que todos nós, cidadãos de um país cada vez mais violento, sentimos atualmente. Aliás, justamente em função deste medo (e do desejo de ver os bandidos sendo punidos), é possível que nem todos consigam perceber que, no final das contas, Máiquel se transforma em um marginal tão perigoso quanto suas vítimas.

Inicialmente retratado como um sujeito pacato e introspectivo, Máiquel vê sua vida mudar quando, depois de pintar os cabelos de loiro em função de uma aposta perdida, é ofendido por Suel (Wagner Moura, em uma participação breve, mas marcante) e, num acesso de raiva, acaba matando o sujeito. Temendo ser preso por seu crime, o rapaz descobre, com surpresa, que se transformou em um herói, já que Suel era um bandido odiado por todos – e até mesmo a polícia parece satisfeita com sua atitude: `Você é um herói por ter alijado do convívio social um monstro!`, explica o Dr. Carvalho, um dentista que assume a tarefa de agenciar os `serviços` seguintes do novo `matador profissional`. A partir daí, Máiquel mergulha em um universo de violência e corrupção, tornando-se sócio de um delegado em uma empresa que oferece segurança particular para pequenos e médios negociantes – ao mesmo tempo em que tem que lidar com os criminosos que querem vê-lo fora do negócio.

Interpretado por Jorge Dória, o Dr. Carvalho é o personagem que acaba servindo de porta-voz para as frustrações de boa parte da população com relação à violência crescente no Brasil (especialmente os integrantes da classe média): em discursos que beiram o fascismo, o dentista mistura argumentos válidos (ou, pelo menos, freqüentemente ouvidos) com perigosas peças de retórica, protestando, por exemplo, que a polícia não faz nada contra os bandidos (leia-se: executar suspeitos) por temer a imprensa e as ONGs, que `defendem moleques de 14, 15 anos de idade`. E, apesar do roteiro tomar o cuidado de evidenciar o caráter ambíguo do personagem (que, entre outras coisas, assume seu racismo com orgulho), o fato é que parte de suas reclamações acaba inflamando espectadores mais `susceptíveis` (um sujeito que se encontrava atrás de mim, no cinema, exclamou: `O pior é que é assim mesmo!`, vibrando com os terríveis argumentos de Carvalho). No entanto, não vou cometer a injustiça de culpar o filme pela falta de senso crítico de certos espectadores, já que o roteiro procura ilustrar que as desigualdades sociais podem levar até mesmo honestos pais de família ao crime.

Além disso, os pequenos tropeços morais da história são compensados pelo bom humor dos diálogos (`Aqui é uma revendedora desautorizada`) e das situações desenvolvidas por Rubem Fonseca, que transforma O Homem do Ano em um filme infinitamente mais engraçado do que poderíamos esperar (e é uma pena que o editor Sérgio Mekler não tenha criado pequenas pausas em momentos específicos para evitar que o riso da platéia encubra algumas falas – problema que poderia ter sido detectado caso nosso Cinema tivesse recursos para realizar exibições-teste). Beneficiando-se do bom timing cômico de Benício e seus colegas de elenco (como o veterano Paulo César Pereio, que protagoniza um ótimo monólogo sobre o casamento), o roteiro abusa do humor negro – algo que o diretor José Henrique Fonseca já havia explorado no média-metragem Cachorro!, que faz parte da ótima antologia Traição. Infelizmente, a partir do terceiro ato da trama, um certo acontecimento (referente à personagem de Cláudia Abreu) leva o tom da produção a se tornar pesado demais, tornado o riso mais difícil para o espectador.

Compondo seu personagem como um sujeito facilmente manipulável e passivo (um paradoxo diante de sua `profissão` de matador), Murilo Benício emprega um tom de voz baixo e rouco, fazendo com que Máiquel soe `apagado` diante dos demais personagens – uma opção perigosa (já que ele é o centro da história), mas que acaba funcionando. Enquanto isso, Cláudia Abreu e Natália Lage brilham ao retratar as radicais mudanças de comportamento de suas personagens – e o fato de ambas serem mulheres atraentes só contribui para o filme. E se os experientes Pereio e Dória exploram ao máximo o tempo em que aparecem na tela, Mariana Ximenes encarna uma personagem completamente dispensável, e que, normalmente, deveria ter ido parar no chão da sala de edição.

Apesar de possuir alguns problemas de ritmo (algo natural, já que este é o primeiro longa-metragem de Fonseca), O Homem do Ano comprova o talento que seu diretor já havia demonstrado em Cachorro!, prendendo a atenção do espectador, que oscila entre o riso e a tensão com a mesma facilidade. Ainda assim, devo ressaltar que a cronologia da história é confusa, já que, em certo momento, descobrimos que uma infinidade de eventos importantes aconteceram em apenas um mês, quando, na realidade, o filme havia nos levado a acreditar que bastante tempo já havia se passado.

Contando com uma eficaz trilha sonora (obra de Dado Villa-Lobos, ex-Legião Urbana), O Homem do Ano possui uma resolução fraca e que deixa algumas pontas soltas (o destino de alguns personagens importantes jamais é explicado) – algo que pode prejudicar a performance do filme nas bilheterias. Isso, no entanto, seria uma pena, já que esta produção possui muito mais qualidades do que defeitos.

Mas que fique claro: Máiquel é um canalha.
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29 de Julho de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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