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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/05/2003 10/01/2003 4 / 5 / 5
Distribuidora

Voltando a Viver
Antwone Fisher

Dirigido por Denzel Washington. Com: Derek Luke, Denzel Washington, Malcolm David Kelley, Joy Bryant, Novella Nelson, Salli Richardson, James Brolin e Viola Davis.

Voltando a Viver é um filme agradavelmente simples sobre um jovem que comete o erro de permitir que sua triste infância o impeça de ser um adulto feliz. Traumatizado pelos abusos sofridos no passado, Antwone Fisher descarrega sua ira em brigas constantes com seus companheiros da Marinha até ser obrigado por seu comandante a procurar um psiquiatra das Forças Armadas. Porém, ao contrário de filmes como Gênio Indomável, Don Juan DeMarco ou K-Pax, que também giram em torno de premissas parecidas, Fisher não é um gênio revoltado nem acredita ser um personagem lendário ou um alienígena. Da mesma forma, a história não traz grandes revelações ou momentos especialmente dramáticos, optando por concentrar-se apenas na jornada de auto-descobrimento de seu protagonista.

Escrito pelo próprio Antwone Fisher a partir de seu livro autobiográfico, Voltando a Viver é, obviamente, um projeto incrivelmente pessoal – do qual, portanto, não podemos exigir grau algum de objetividade. Nascido em uma prisão, Fisher passou seus dois primeiros anos de vida em um orfanato, sendo posteriormente adotado pela esposa de um pastor protestante. Porém, em vez de conseguir uma família, o garoto encontrou verdadeiros torturadores, já que era freqüentemente espancado por sua mãe adotiva (e, como se não bastasse, a filha desta abusava sexualmente do menino, que tinha apenas 6 anos de idade). Assim, é realmente espantoso que ele tenha conseguido se tornar um adulto funcional (embora agressivo) e – o que é mais incrível – com tanta consciência sobre seu próprio processo de cura emocional.

Abordando temas pouco vistos em produções americanas (que sempre temem chocar seu público), como pedofilia e outros tipos de violência contra crianças, o filme revela (entre outras coisas) um dado triste sobre as conseqüências práticas do racismo velado que ainda existe em boa parte do mundo (incluindo o Brasil): estatisticamente, as crianças com piores chances de encontrar pais adotivos são os meninos negros com tom de pele mais escuro, seguidos por meninas negras com este tipo de tom de pele – que, por sua vez, tem menores chances do que meninos e meninas (nesta ordem) negros com tons de pele mais claros. A tragédia, no caso de crianças como Antwone, reside no dilema sobre o que seria `menos ruim`: passar a vida em orfanatos ou viver com famílias completamente desestruturadas?

Infelizmente, nem todos os temas de Voltando a Viver são tão bem desenvolvidos quanto a história de seu protagonista: a subtrama envolvendo os problemas particulares do psiquiatra (recurso dramático extremamente comum em filmes do gênero) soam artificiais e jamais são desenvolvidos com cuidado pelo roteiro. E, por mais que Denzel Washington interprete o médico com firmeza e carisma, o personagem eventualmente se transforma em uma mera desculpa para que vejamos a influência de Antwone sobre as pessoas à sua volta - algo que é realçado pelo fraquíssimo discurso feito pelo psiquiatra no ato final (você certamente reconhecerá o monólogo: é aquele que começa com a frase `Isto deve ficar entre nós dois...`). A explicação para a falha é óbvia: este é o único elemento do roteiro de Fisher que não é totalmente autobiográfico.

Na maior parte do tempo, porém, Voltando a Viver é um drama eficiente que comprova o potencial de Denzel Washington em sua estréia na direção: concentrando-se na história e nas atuações do elenco, Washington evita um dos erros mais comuns cometidos por cineastas novatos e não procura criar movimentos de câmera que chamem a atenção para si mesmos. Em vez disso, ele se apega às regras básicas da linguagem cinematográfica ao enquadrar, por exemplo, a mãe adotiva de Fisher a partir de um ângulo inferior – o que confere à personagem uma estatura corretamente ameaçadora. Além disso, o diretor explora sua própria experiência como ator ao arrancar desempenhos brilhantes de seus intérpretes – especialmente do (também) estreante Derek Luke, que transforma Antwone em jovem complexo e repleto de contradições: apesar de sensível, o rapaz é capaz de explosões assustadoras; e sua amargura freqüentemente cede espaço a um lado doce e comovente. Da mesma forma, a atriz Viola Davis (que já havia impressionado na refilmagem de Solaris) se destaca em uma pequena participação na qual, sem praticamente abrir a boca, retrata com enorme talento toda a amargura de uma mulher surrada pela vida.

Escritor talentoso (um de seus poemas, o belíssimo Quem Chora Pelo Menino?, é lido durante a projeção), Antwone Fisher transforma sua própria história em uma lição de resistência e humanidade. E sua grande conquista nada tem a ver com seu retorno para o `planeta natal` ou algo no gênero. Sua paz interior é alcançada simplesmente graças à felicidade ser aceito; de pertencer a alguém. Uma vitória extraordinária para alguém tão comum.
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16 de Junho de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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