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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/01/2006 21/12/2005 4 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Dean Parisot

Elenco

Jim Carrey , Téa Leoni , Richard Jenkins , Alec Baldwin , Carlos Jacott , Clint Howard , Angie Harmon

Roteiro

Judd Apatow , Nicholas Stoller

Produção

Jim Carrey

Fotografia

Jerzy Zielinski

Música

Theodore Shapiro

Montagem

Don Zimmerman

Design de Produção

Barry Robison

Figurino

Julie Weiss

Direção de Arte

Greg Hooper

As Loucuras de Dick e Jane
Fun with Dick and Jane

Dirigido por Dean Parisot. Com: Jim Carrey, Téa Leoni, Richard Jenkins, Alec Baldwin, Carlos Jacott, Clint Howard, Angie Harmon, Jeff Garlin.

Há apenas um motivo para que As Loucuras de Dick e Jane seja ambientado no ano 2000: situar a história em um período anterior ao escândalo envolvendo a empresa norte-americana Enron, que, de sétima maior companhia do mundo, subitamente transformou-se em pivô de um dos maiores escândalos financeiros daquele país. Assim, não é surpresa que os primeiros nomes citados nos créditos finais sejam os de alguns dos executivos da Enron (entre outras empresas), que ganham os `agradecimentos` dos realizadores por terem servido de inspiração para o filme (mesmo porque os cineastas americanos, sempre duvidosos da capacidade de compreensão do público, sentem uma necessidade irritante de escancarar todas as referências feitas em seus trabalhos, deixando qualquer sutileza de lado). Aliás, a `Globodyne` retratada nesta comédia, com suas estratégias sombrias para ocultar seus prejuízos, está para a Enron assim como seu presidente (vivido por Alec Baldwin) está para Ken Lay e Jeff Skilling, protagonistas do escândalo.

Escrito pelo estreante Nicholas Stoller e por Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos), As Loucuras de Dick e Jane é uma refilmagem de Adivinhe Quem Vem para Roubar, trazendo Jim Carrey e Téa Leoni nos papéis originalmente interpretados por George Segal e Jane Fonda em 1977. Executivo da poderosa Globodyne, Dick Harper (Carrey) é promovido ao cargo de Vice-Presidente de Comunicações apenas para descobrir que a empresa está falida e que seu chefe, o inescrupuloso Jack McCallister (Baldwin), abandonou o navio com 400 milhões de dólares de lucro (entrevistado por uma repórter, McCallister se diz comovido com as dificuldades enfrentadas por seus ex-empregados, exatamente como Ken Lay declara em um momento capturado pelo excelente documentário Enron: The Smartest Guys in the Room, num dos vários exemplos em que o filme imita/parodia a vida real). Desempregados e com todas as suas economias investidas na Globodyne (outro exemplo), Dick e sua esposa Jane tentam encontrar várias maneiras de manter o padrão de vida que tinham, mas acabam concluindo que a única saída é o crime e, assim, se tornam assaltantes.

Absurdo? Claro que sim. Mas este é exatamente o objetivo de As Loucuras de Dick e Jane, que recorre freqüentemente à sátira para comentar e criticar não apenas o consumismo da sociedade norte-americana, mas também a demagogia irrefreável de George W. Bush – depois de exibir uma imagem na qual este surge fazendo um discurso no qual afirma que o país está vivendo uma `era de prosperidade`, o filme mostra diversos executivos lutando como animais por um emprego, o que expõe de forma inequívoca a falsidade do que Bush está dizendo. Além disso, o próprio personagem de Baldwin pode ser visto como um amálgama não só de Ken Lay e Jeff Skilling, mas também de George Bush – ou você acha que é mera coincidência o fato do personagem manifestar sua dor pelo sofrimento dos desempregados para, em seguida, voltar despreocupadamente à sua caçada e soltar um `Olha só esse tiro!`, exatamente como Bush diz `Agora observem essa tacada!` depois de falar sobre a `ameaça do terrorismo` em Fahrenheit 11 de Setembro?

É preciso compreender, portanto, que As Loucuras de Dick e Jane não pretende ser uma comédia de situações nem tenta soar plausível; os golpes dados pelos protagonistas são totalmente absurdos e jamais dariam certo na vida real. Porém, através do exagero (que, às vezes, beira o besteirol, no melhor sentido do termo), o filme faz rir ao mesmo tempo em que funciona como contundente comentário social. É claro que a família Harper poderia tomar banho na casa de amigos ou parentes, mas é mais eficaz (dos pontos de vista humorístico e satírico) mostrá-los utilizando os regadores de jardim dos vizinhos ricos para este fim. E como evitar o riso ao ver a elegante Jane lembrando o marido de que `o sopão só é servido até às 8`?

Sempre um comediante talentoso, Jim Carrey confere a Dick Harper sua energia habitual, utilizando toda a sua elasticidade facial e corporal para compor o personagem. Porém, assim como Robin Williams e Mike Myers, Carrey é um ator que precisa de um diretor com mão firme que o impeça de ir longe demais – algo que o cineasta Dean Parisot (do excelente Heróis Fora de Órbita) faz apenas parcialmente: há alguns momentos no longa em que Carrey está visivelmente em um exercício incontrolável de improvisação, o que resulta em boas gargalhadas (como na cena em que `ameaça` um sujeito que rira dele), mas também em momentos sem a menor graça (como na montagem que traz Dick, já desempregado, procurando o que fazer em casa).

Enquanto isso, Téa Leoni cria um contraponto importante ao jeitão elétrico de Carrey, fazendo de Jane uma mulher mais contida, mas não menos engraçada: quando Dick anuncia que vai virar assaltante, por exemplo, a esposa o acompanha apenas para debochar de seus esforços, o que soa real e, por isso mesmo, divertido. Além disso, os disfarces utilizados pelo casal funcionam como boas e instantâneas gags visuais (minha favorita é a de Sonny Bono e Cher). Completando o elenco, além de um Alec Baldwin perfeitamente desprezível, há também Richard Jenkins como um ex-executivo corrupto e alcoólatra, no seu segundo grande desempenho de 2005 (o primeiro pode ser visto no mediano Terra Fria).

Divertido e com uma boa mensagem política, As Loucuras de Dick e Jane é um exemplo raro em Hollywood: uma comédia que, sem pregações, tem algo importante a dizer.

Observação: Em certo momento, a trama se concentra em um formulário de banco classificado como `CRM-114`. Esta é uma referência sutil à filmografia de Stanley Kubrick, cujos filmes freqüentemente traziam esta mesma expressão: o decodificador de Dr. Fantástico; a licença do explorador espacial de 2001 – Uma Odisséia no Espaço; o `remédio` dado a Malcolm McDowell em Laranja Mecânica e o número do corredor, da sala e da gaveta em que se encontra o corpo da mulher misteriosa em De Olhos Bem Fechados.
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20 de Janeiro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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