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Happy Feet: O Pingüim

Crítico★★★★★5/5
06 min
Happy Feet: O Pingüim
Happy Feet: O Pingüim
Dirigido por George Miller. Com as vozes de Elijah Wood, Robin Williams, Hugh Jackman, Nicole Kidman, Brittany Murphy, Hugo Weaving, Steve Irwin, Anthony LaPaglia.

 Dono de uma filmografia eclética - ainda que relativamente curta – que começou com a trilogia Mad Max e inclui o irregular As Bruxas de Eastwick e o excepcional O Óleo de Lorenzo, o cineasta australiano George Miller retorna à cadeira de diretor com a animação Happy Feet depois de seis anos de ausência, já que seu último longa foi o maravilhoso (e injustamente pouco apreciado) Babe: Um Porquinho na Cidade, lançado em 1998. Responsável também pelo roteiro de Babe: Um Porquinho Atrapalhado, Miller é um dos raros autores que trabalham com segurança tanto em produções adultas quanto infantis – e que, mais do que isso, reconhece a eficácia de se acrescentar toques sombrios a histórias voltadas para públicos mais jovens, conferindo peso dramático a tramas aparentemente inconseqüentes.

Trabalhando a partir de um roteiro que escreveu ao lado de Warren Coleman, John Collee (Mestre dos Mares) e Judy Morris (sua parceira em Um Porquinho na Cidade), Miller se beneficia, em Happy Feet, do sucesso do recente A Marcha dos Pingüins, que se encarregou de apresentar ao público o curioso ciclo reprodutivo dos animais que protagonizam a animação. Assim, quando vemos os pingüins-imperador se agrupando numa tentativa de se protegerem do frio enquanto chocam os ovos deixados pelas fêmeas, imediatamente compreendemos o que está em jogo sem que o filme precise fornecer informações adicionais sobre o que está ocorrendo. Da mesma forma, justamente por conhecermos um pouco melhor os hábitos daquela espécie, torna-se infinitamente mais divertido perceber como Miller e seus co-roteiristas exploram a monogamia temporária dos animais para conceber uma trama na qual o canto dos pingüins desempenha papel fundamental no acasalamento – algo que representa um grave problema para o protagonista, o jovem Mano, que, incapaz de cantar, é discriminado por sua predileção pelo sapateado.

Retratados em Happy Feet como uma espécie fundamentalmente musical, os pingüins desta animação se comunicam principalmente através de canções – e é por muito pouco que o filme não se transforma em uma versão digital e estrelada por animais do belo Os Guarda-Chuvas do Amor, dirigido por Jacques Demy em 1964 e que não traz um único diálogo que não seja cantado por seus atores. Repleto de números contagiantes, Happy Feet presenteia o espectador com coreografias grandiosas (realizadas através de motion capture) que exploram com talento as próprias cores de seus protagonistas, criando ondas de preto e branco que atravessam a tela com harmonia invejável. Além disso, Miller extrai o máximo dos fantásticos cenários “naturais”, culminando numa dança embalada pela aurora austral, que aqui assume ares de luzes de boate.

Tecnicamente brilhante, o longa demonstra imenso cuidado na concepção visual e na animação de seus personagens, que se mostram incrivelmente expressivos - reparem, por exemplo, na riqueza de significados no olhar de Memphis, pai do protagonista, quando se coloca ao lado daqueles que condenam a dança de seu filho: visivelmente inseguro acerca do que acaba de fazer, o pingüim parece tentar esconder a vergonha que sente de si mesmo por trás de uma fachada de falsa convicção, o que é espantoso se considerarmos que aquela “atuação” foi construída em computador. Aliás, também é divertido observar como Memphis (um nome perfeito para um personagem visivelmente inspirado em Elvis Presley) exibe vários maneirismos do “rei do rock” – e é uma sacada genial dos realizadores levá-lo a se casar com uma fêmea chamada Norma Jean, que traz uma pinta sedutora no corpo (Norma Jean era o nome verdadeiro de Marilyn Monroe).

Mas o destaque fica mesmo por conta de Mano, que encanta a partir do segundo em que sai do ovo: absurdamente engraçadinho, o pingüinzinho mal consegue manter seus pés imóveis, caminhando numa dança desajeitada que gradualmente se transforma num alegre sapateado (e a manchinha em seu peito, que remete a uma gravata-borboleta, é um detalhe inspirado) – e sua simpatia permanece intacta depois que ele se torna um jovem adulto, já que seu olhar mantém um ar de inocência contagiante. Enquanto isso, os pingüins “latinos” que se unem a Mano depois de algum tempo acabam se transformando na principal fonte de humor do filme com sua espontaneidade e irreverência.

Compreendendo perfeitamente a liberdade proporcionada pela animação digital, George Miller exibe uma inventividade em seus movimentos de “câmera” que ultrapassa até mesmo o virtuosismo de Robert Zemeckis e Gil Kenan em O Expresso Polar e A Casa Monstro, respectivamente. Assim, durante as seqüências de ação de Happy Feet, acompanhamos os personagens em vôos impressionantes, quando a perspectiva oferecida pelo cineasta muda constante e rapidamente (há até mesmo uma brincadeira metalingüística, quando um pingüim aparentemente tromba na câmera, derrubando-a). Finalmente, Miller faz uma opção inesperada e genial ao incluir, no terço final da projeção, atores de carne-e-osso, criando um estranhamento que contribui para a mudança de tom no ato final.

Esta alteração na atmosfera do filme, aliás, representa uma escolha característica de George Miller – o que não significa que agradará a todos. Ao contrário: é bastante provável que algumas pessoas estranhem o rumo sombrio tomado pela narrativa, o que é uma pena, já que, tematicamente, este é necessário para a lógica da trama, posto que o surgimento dos humanos deve representar, para Mano, uma experiência assustadora. Aliás, descritos como “alienígenas” por vários animais, os humanos são retratados pelo cineasta como se de fato o fossem: parcialmente ocultos por sombras ou desfocados pela presença de paredes de vidro, os homens, mulheres e crianças vistos pelo protagonista são realmente figuras inquietantes – e quando os pingüins usam a dança numa tentativa de comunicação, confesso que me lembrei da utilização de notas musicais como intermediárias em um diálogo entre extraterrestres e terráqueos, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

Abordando uma série de temas que podem servir como base para várias conversas entre pais e filhos após a projeção, Happy Feet discute, de maneira alegórica (e, às vezes, quase literal), questões como o fundamentalismo religioso, o preconceito contra minorias (e contra o que é diferente, de modo geral) e até mesmo o constante conflito de gerações (e a proibição da dança pelos anciões funciona como referência curiosa a Footlose). Até mesmo a mensagem ecológica, que peca por ser carregada e óbvia demais, pode ser servir como base para debates mais cuidadosos com as crianças, o que é louvável.

Embora traga uma resolução artificial demais para um filme tão bem realizado, Happy Feet jamais deixa de ser encantador e divertido – e, ao lado de A Casa Monstro e Carros, é certamente uma das melhores animações de 2006.

23 de Novembro de 2006

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Na Antártica, cada um dos pingüins imperadores expressa seu verdadeiro amor através da música. No entanto, o jovem Mano não consegue cantar. Seu talento, na verdade, é sapatear. Rejeitado pelos líderes da colônia simplesmente por ser diferente, Mano é culpado pela escassez de peixes da temporada. Ele e seus verdadeiros amigos partem, então, em busca da verdadeira causa do problema que ameaça sua espécie. Para isso, precisam viver várias aventuras e enfrentar diversos perigos.

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