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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/12/2003 08/10/2003 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Sobre Meninos e Lobos
Mystic River

Dirigido por Clint Eastwood. Com: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Marcia Gay Harden, Laurence Fishburne, Laura Linney, Tom Guiry, Emmy Rossum, Spencer Treat Clark, Andrew Mackin e Eli Wallach.

Escrever sobre uma produção como Simplesmente Amor é relativamente fácil: afinal, como eu disse em minha análise sobre aquele filme, o sentimento ao sair do cinema era de um óbvio `bem-estar`. Por outro lado, trabalhos como Sobre Meninos e Lobos são infinitamente mais complicados de se `dissecar`, já que sugam impiedosamente o espectador, empurrando-o para fora da sala com uma sensação de inquietação e angústia – sensação esta que, muitas vezes, é confundida com o diagnóstico de `não gostei`. Povoado por personagens frios, confusos e tristes, este novo trabalho de Clint Eastwood representa, de fato, uma experiência emocionalmente frustrante – e não foi à toa que precisei assisti-lo três vezes antes de considerar-me apto a escrever este artigo.

Baseado no livro de Dennis Lehane, Sobre Meninos e Lobos gira em torno de três antigos amigos de infância - Jimmy Markum (Penn), Dave Boyle (Robbins) e Sean Devine (Bacon) – que tiveram suas vidas marcadas por um trágico incidente ocorrido há cerca de 30 anos: certo dia, enquanto brincavam na rua, os garotos foram abordados por dois homens que se identificaram como policiais e obrigaram Dave a acompanhá-los. Levado para uma casa abandonada situada no meio de uma floresta, o menino foi violentado durante quatro dias até conseguir escapar. Com o passar dos anos, os três foram se tornando distantes e acabaram por se transformar em meros conhecidos – até que o brutal assassinato da filha adolescente de Jimmy os aproxima novamente.

Depois de comandar o terrível Dívida de Sangue (que, por sua vez, veio depois do ótimo Cowboys do Espaço), Eastwood se redime ao imprimir grande segurança a Sobre Meninos e Lobos, que conta com personagens extremamente bem definidos, nada unidimensionais. Analisando com delicadeza as conseqüências de tragédias como a morte de Katie e o seqüestro de Dave na vida daquelas pessoas, o veterano cineasta demonstra que o impacto provocado por certos acontecimentos podem nos afetar de tal maneira que, na maior parte das vezes, nossas reações se tornam absolutamente imprevisíveis. Aliás, o filme possui uma forte semelhança temática com Os Imperdoáveis, que Eastwood comandou em 92 e que também girava em torno de personagens atormentados (e condenados) por um passado de violência.

Porém, não há como ignorar o fato de que Sobre Meninos e Lobos é uma produção cuja força principal reside nas excepcionais atuações de seu elenco – e, neste caso, é impossível não citar, em primeiro lugar, o desempenho de Sean Penn (que considero o melhor ator de sua geração). Compondo seu personagem a partir de detalhes precisos, Penn ilustra a natureza imprevisível de Jimmy logo nos primeiros minutos de projeção: precisando usar óculos para discar um número de telefone e para fazer contas no escritório situado nos fundos de sua mercearia, ele parece ser um homem comum de meia-idade que leva uma vida consideravelmente enfadonha. No entanto, esta primeira impressão logo se desfaz ao percebermos suas inúmeras tatuagens e ao testemunharmos a firmeza com que ele se dirige aos irmãos Savage, dois criminosos do bairro: somente então percebemos que o passado de Jimmy está longe de ser o de um `comerciante pacato` – e sua explosão de dor e revolta ao descobrir a morte da filha torna-se assustadora por evidenciar a intensidade com que aquele homem pode extravasar suas emoções.

Aliás, não é difícil imaginar o que atraiu o ator para este projeto: em seus trabalhos como diretor, Penn sempre se mostrou obcecado em estudar as relações familiares (especialmente depois de uma grande perda) e também a tragédia representada pela morte de uma criança – dois fortes elementos de Sobre Meninos e Lobos. Assim, por mais que Jimmy tente anestesiar o próprio sofrimento ao se concentrar nos preparativos para o enterro de Katie, podemos perceber que seus esforços estão fadados ao fracasso, já que a simples menção do nome da filha pode disparar uma compreensível crise de choro (e sua determinação em encontrar o assassino é, igualmente, um mero recurso para adiar o momento do luto inevitável). Desta vez, será impossível, para a Academia, negar o Oscar que Penn já deveria ter recebido há oito anos, por seu notável desempenho em Os Últimos Passos de um Homem – no qual interpretou justamente o assassino de um casal de adolescentes, sendo dirigido por Tim Robbins.

E, por falar em Robbins, o ator/diretor causa uma forte impressão no espectador ao retratar com sensibilidade a fragilidade mental e emocional de Dave, que, depois do trauma vivido na juventude, tornou-se um homem inseguro e introspectivo que, compreensivelmente, mantém uma atitude superprotetora com relação ao próprio filho. Incapaz de esquecer o que sofreu, o pobre sujeito é um reflexo vivo da `pichação` feita em cimento há 30 anos, quando pôde escrever apenas metade de seu nome antes de ser interrompido pelos `policiais`: é como se a própria existência de Dave tivesse se encerrado ali, deixando apenas uma triste sombra do que ele poderia ter sido.

Triste, também, é o policial Sean Devine (vivido por Kevin Bacon), que, apesar da atitude determinada, não consegue esconder um traço inegável de melancolia, já que foi abandonado pela esposa recentemente (e é curioso notar, também, que o ator interpretou um pedófilo – coincidentemente chamado Sean - no mediano Sleepers, de 96). Enquanto isso, Laurence Fishburne abandona a impostação de Morpheus e relaxa no papel do parceiro de Devine, com quem estabelece uma ótima química. Fechando o elenco, vêm Laura Linney e Marcia Gay Harden, cujas personagens acabam se revelando mais importantes no destino de seus maridos do que poderíamos imaginar a princípio.

Depois de construir com cuidado a relação entre todos os personagens, Clint Eastwood praticamente deixa que estes conduzam a trama com liberdade, mantendo-se o mais discreto possível. E, nos momentos em que `interfere` na narrativa, o cineasta comprova sua inteligência de forma inequívoca - como, por exemplo, nas três tomadas em que o público é afastado dos personagens através de movimentações semelhantes de câmera: nas duas primeiras vezes, um personagem é visto enquanto é levado de encontro a momentos fundamentais de sua vida; e, na terceira vez, dois outros personagens são `abandonados` em um instante de total desesperança e desilusão. Além disso, Eastwood merece aplausos por não mostrar o rosto da esposa do policial Devine (a não ser em fotos), como se esta também estivesse morta e fosse uma mera lembrança – isto é, até o momento de sua metafórica `ressurreição`.

Mas a grande tragédia de Sobre Meninos e Lobos reside no fato de que nenhuma daquelas pessoas é fundamentalmente má; elas apenas tomam decisões erradas que resultam em uma série de mudanças tristes e inevitáveis em suas vidas. Com isso, a cada tentativa de se fechar uma ferida, duas outras se abrem, eternizando um processo que, compreensivelmente, deixará o espectador amargurado – mesmo que este consiga apreciar a beleza do trabalho de Eastwood e seu ótimo elenco.

Observação (Não leia o parágrafo seguinte caso ainda não tenha assistido ao filme!): Algumas pessoas têm se mostrado confusas com relação à troca de olhares entre os personagens de Penn e Bacon durante o desfile de rua que ocorre em certo momento da projeção. Particularmente, acredito que aquele seja um instante definitivo no relacionamento entre os dois, que agora se encontram claramente em lados opostos da Lei: Devine não pode prender Jimmy pelo crime que este cometeu, já que não há evidências do ocorrido (incluindo o cadáver da vítima; porém, sabe que o amigo agora assumirá o comando de sua antiga quadrilha. Portanto, o gesto que o policial faz representa um aviso, algo como `Estou de olho em você`. E a resposta de Jimmy não poderia ser mais apropriada – e triste: `Não posso fazer nada. O destino me conduziu até aqui`, é o que ele parece dizer. E é justamente este final que engrandece ainda mais Sobre Meninos e Lobos.
``

10 de Dezembro de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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