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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/04/2003 19/05/2003 2 / 5 4 / 5
Distribuidora

Carandiru
Carandiru

Dirigido por Hector Babenco. Com: Luiz Carlos Vasconcelos, Milton Gonçalves, Ivan de Almeida, Ailton Graça, Maria Luísa Mendonça, Aída Lerner, Rodrigo Santoro, Gero Camilo, Lázaro Ramos, Caio Blat, Wagner Moura, Sabrina Greve, Floriano Peixoto, Ricardo Blat, Milhem Cortaz, Dionísio Neto, Antonio Grassi, Sabotage, Rita Cadillac.

 


Depois de trabalhar como voluntário durante vários anos na penitenciária do Carandiru, em São Paulo, o médico Dráuzio Varella decidiu colocar suas experiências no papel e lançou o ótimo Estação Carandiru, no qual narra muitas das histórias que ouviu dos presos com quem conviveu naquele período – incluindo, obviamente, o trágico episódio do massacre que resultou na morte de 111 condenados. Traçando um amplo painel sobre a vida no interior do presídio, Varella criou um livro interessante, revelador e sensível, evidenciando, sem apelar para o sentimentalismo barato, as graves falhas existentes em nosso sistema penitenciário. Assim, é realmente uma pena que, de posse de um material tão rico, o cineasta Hector Babenco tenha realizado um filme tão frio, maniqueísta e ausente de conteúdo. Seria impossível imaginar que Estação Caradiru pudesse dar origem a um filme tão vazio – mas foi exatamente isso que aconteceu.

Escrito por Victor Navas, Fernando Bonassi e pelo próprio Babenco, o roteiro de Carandiru faz um bom trabalho ao condensar as dezenas de narrativas presentes no livro em um número bem menor de personagens. Infelizmente, ansiosos para aproveitar o maior número possível de histórias, os roteiristas se esqueceram do básico: criar um centro para o filme. Habitado por uma galeria de figuras que entram e saem de cena a todo momento, Carandiru tem, como protagonista, um médico (obviamente representando Varella) interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos, que, ao longo da projeção, atua como representante do espectador na tela: é ele quem faz as perguntas que dão origem às várias narrativas e é através de seus olhos que somos apresentados àquele universo. No entanto, ao contrário do que acontece no livro, no qual percebemos o gradual amadurecimento do narrador, aqui o médico permanece imutável durante todo o filme, como se nada aprendesse com o que testemunha. Uma coisa é `não julgar os presos` (procedimento que ele afirma adotar); outra – completamente diferente - é aceitar tudo o que se vê sem esboçar reação alguma.

Para piorar, o grande número de personagens secundários impede que o espectador estabeleça maiores relações com quem quer que seja. Tomemos, como exemplo, Chico (vivido por Milton Gonçalves): há, ali, uma história comovente e nada gratuita que poderia ilustrar, com eficácia, a forma com que o crime pode desestruturar uma família. Infelizmente, o drama de Chico se perde em meio a uma infinidade de outras narrativas, anulando o impacto sobre o espectador. O mesmo, aliás, quase poderia ser dito sobre o romance entre a travesti Lady Di (Rodrigo Santoro) e o pequeno Sem-Chance (Gero Camilo): a diferença, aqui, é que Carandiru se concentra um pouco mais na dupla – e estes poucos minutos já são o bastante para que, no mínimo, simpatizemos com sua trajetória.

Além disso, Babenco, tomado por um impulso politicamente correto, age de forma exageradamente complacente com seus personagens: não há, ao longo da projeção, um único preso realmente `culpado`. Há sempre atenuantes: um matou um comparsa para evitar ser morto; outro assassinou dois bandidos que estupraram sua irmã; um terceiro atirou na esposa que, além de traí-lo (como se isto justificasse o crime), havia tentado roubar todo o seu dinheiro; e por aí afora. Para justificar este absurdo, o cineasta diz que as histórias ali narradas são contadas a partir do ponto de vista dos presos, que procuram amenizar sua culpa – mas a verdade é que esta explicação não procede: no livro, Varella também nos conta o que ouviu diretamente dos presos, que narram os próprios crimes sem tentar esconder o que fizeram. Assim, de onde Carandiru tirou todas aquelas atenuantes com as quais procura retratar seus personagens em uma luz mais favorável? É claro que a penitenciária abrigava injustiçados – como duvidar disso em um país com um sistema judiciário tão falho como o nosso? Mas acreditar que todos eram inocentes é abusar da inteligência do espectador.

Como se não bastasse, Babenco ainda perde uma grande oportunidade de mostrar como a prisão pode mudar um homem: a subtrama envolvendo o traficante Zico (mais um grande trabalho de Wagner Moura) e seu irmão de criação, Deusdete (Caio Blat), seria perfeita neste sentido. Porém, a fim de evitar chocar a platéia, o cineasta comete um erro grosseiro ao desviar sua câmera no exato momento em que o relacionamento entre os dois homens atinge seu triste fim, o que elimina praticamente todo o impacto da tragédia. (E, mais uma vez, o crime é `justificado` pelo fato de um dos personagens estar sofrendo alucinações provocadas por drogas, o que não ocorre no livro.)

Mas a covardia de Carandiru não pára por aí: depois de mostrar, no início do filme, como a penitenciária estava superlotada e em péssimas condições de higiene, Hector Babenco simplesmente passa a ignorar o assunto até o desfecho da trama – e, enquanto isso, retrata a vida nos pavilhões de tal forma que chegamos a pensar que o presídio não era muito pior do que um cortiço, chegando a ser até mesmo divertido em alguns momentos. Onde estão as conseqüências da epidemia de AIDS? Onde estão os estupros cometidos contra os presos mais vulneráveis? Por que não explorar com mais cuidado o Setor Amarelo, onde vivem os presos jurados de morte? Em vez disso, o filme se mostra muito mais fascinado com o convívio social entre os presos, enfocando seus campeonatos de futebol, as visitas dos parentes (é incrível constatar que estes tinham acesso às celas!) e as comunidades religiosas, entre outros.

E é então que chegamos ao terceiro ato de Carandiru, que enfoca o massacre em si – e onde Babenco comete alguns de seus piores erros. Para início de conversa, o cineasta jamais procura explicar como uma briga entre alguns presos pode ter se espalhado a ponto de se transformar em uma rebelião em larga escala: em certo instante, vemos dois homens lutando; dois minutos depois, a imprensa já está na porta do presídio e a tropa de choque já está se preparando para invadir o pavilhão. E o que ocorreu neste curto, mas importantíssimo, período de tempo? E mais: por que a polícia começou o tiroteio? Foi um tiro ao acaso que deflagrou o massacre? Foi um caso de histeria coletiva? Para justificar o ocorrido, Babenco opta por uma explicação simplista, quando alguém diz: `Era véspera de eleição`. Então foi isso? Então porque o filme não tem coragem sequer de dizer o nome do governador em questão? (Era Luiz Antônio Fleury Filho.)

Mas o mais revoltante é que, para embasar seu raciocínio, Babenco faz a opção maniqueísta de retratar os policiais como monstros de filme de terror. Ora, houve excesso de força e abuso de poder? É claro que sim! A ação da tropa de choque foi justificada? É óbvio que não! Mas um cineasta com o passado de Babenco deveria ser capaz de retratar isto sem apelar para estereótipos (em certo momento, um policial diz para um preso: `Você vai viver para contar a história!`. Pouco depois, ele volta e fuzila o sujeito, dizendo: `Mudei de idéia!` – um diálogo saído diretamente de um filme de Schwarzenegger). E o que dizer da súbita mudança no estilo da narrativa, que assume um caráter documental com alguns personagens se dirigindo à câmera? (Algo que quebra o ritmo da seqüência e jamais soa de forma verossímil.)

Porém, talvez o pior erro narrativo de Carandiru seja o fato de que nenhum dos personagens principais é vitimado pelo massacre. Imaginem um filme-catástrofe que, depois de gastar duas horas apresentando seus protagonistas, passe a se concentrar em um grupo de desconhecidos no momento do grande terremoto (enchente, furacão, incêndio) final? Em vez de criar vilões unidimensionais, Babenco poderia ter ilustrado o terror do massacre ao `matar` alguns dos personagens com os quais o espectador já havia se `identificado`.

Apesar de tudo, Carandiru não é um filme ruim, já que, no mínimo, não cansa o espectador. Contando com ótimas atuações de todo o elenco (sem exceção!) e com uma produção cuidadosa, este trabalho de Babenco é frustrante por nos deixar sair do cinema sem que tenhamos interesse em discutir o que vimos (ao contrário do soberbo Ônibus 174, que merece ser visto e revisto). Funcionando como passatempo descompromissado, Carandiru foge da polêmica e ignora suas obrigações morais e sociais. É um filme feito para ganhar dinheiro, e só. E isto é uma vergonha.
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9 de Abril de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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