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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
21/01/2005 14/01/2005 1 / 5 1 / 5
Distribuidora

Elektra
Elektra

Dirigido por Rob Bowman. Com: Jennifer Garner, Goran Visnjic, Kirsten Prout, Will Yun Lee, Natassia Malthe, Bob Sapp, Chris Ackerman, Edson T. Ribeiro, Colin Cunningham, Terence Stamp, Jason Isaacs.

- Elektra. Como a tragédia.

É com esta constatação `brilhante` que Mark, interesse amoroso da personagem-título deste longa, responde ao descobrir o nome da garota. É uma fala incrivelmente estúpida, ofensiva (já que subestima a inteligência do espectador) e óbvia, mas que quase passa desapercebida por ser apenas mais um exemplo de mediocridade entre inúmeros outros oferecidos pelo time de roteiristas responsável por esta `continuação` (na realidade, um spin off, um `derivado` de outro trabalho).

Dirigido por Rob Bowman, Elektra é apenas mais um item da linha de produção de Hollywood, que se especializa em criar franquias de forma rápida e descuidada, com o único objetivo de capitalizar o sucesso (mesmo moderado) dos longas originais (no caso, o apenas correto Demolidor). Contando com um roteiro fraquíssimo que tem, em seu centro, um fiapo de história, Elektra é um daqueles filmes com mentalidade puramente comercial – o importante, aqui, é incluir o maior número de elementos que possam atrair seu público-alvo: adolescentes do sexo masculino. Assim, os roteiristas logo dão um jeito, por exemplo, de incluir um beijo lésbico entre a heroína e uma vilã, satisfazendo um dos fetiches mais óbvios dos garotões (aliás, de homens de todas as idades). E por que gastar tempo criando diálogos inteligentes se, no final das contas, todos vão estar tão distraídos pelas roupas mínimas da protagonista que sequer perceberão que, ao encontrar sua oponente, o vilão não consegue pensar em algo melhor para dizer do que o bom e velho `Nos encontramos novamente!`?

Da mesma forma, a trama utiliza o lugar-comum dos `exércitos do bem e do mal` que, prestes a se enfrentarem, buscam uma arma especial que lhes garanta a vitória – desta vez, uma garota que detém algum tipo de poder rapidamente explicado durante a narração que abre o filme. Atirada no meio do conflito, Elektra (que, morta pelo Mercenário em Demolidor, foi literalmente ressuscitada para estrelar seu próprio longa) torna-se protetora de uma menina de 12 anos e seu pai, o autor da fabulosa frase que abre este texto e que logo se torna namoradinho da assassina profissional – um relacionamento jogado de qualquer jeito no roteiro, apenas porque é isso que o público espera ao ver um homem e uma mulher em um longa-metragem de Hollywood.

Ao contrário do que ocorria na aventura estrelada por Ben Affleck, que trazia personagens extravagantes, mas supostamente assentados no mundo `real`, desta vez os bandidos apresentam natureza sobrenatural, sendo liderados pelo poderoso Kirigi (seguindo a tendência, iniciada na última década, de utilizar orientais nos papéis de vilões) – e é hilário como, em certo momento, ele cita os nomes de todos os seus capangas apenas para apresentá-los ao espectador (aliás, Tifóide é um dos codinomes mais ridículos que já ouvi). Como se não bastasse, o roteiro ainda traz Terence Stamp como um mestre `jedi` (ou algo no gênero) cego, plagiando descaradamente a velha lenda de Zatoichi (Stamp, aliás, oferece aqui uma das piores atuações de sua carreira). E se Goran Visnjic se apaga como Mark, a jovem Kirsten Prout torna-se absolutamente irritante como Abby, que, ao longo da narrativa, torna-se uma espécie de Mini-me de Elektra.

Infelizmente, o descaso dos roteiristas para com o projeto se reflete também na composição desastrosa da heroína: embora seja estabelecida como uma figura durona e impiedosa, Elektra logo ganha contornos mais suaves que a aproximem do público (que, aparentemente, perdeu a capacidade de se envolver com os anti-heróis tão populares no Cinema da década de 70). Com isso, a moça torna-se um fantoche a ser manipulado de acordo com os interesses imediatos da narrativa: aqui ela pode ser sensível e doce, somente para tornar-se fria e amarga no instante seguinte. O problema é que poucas atrizes conseguiriam conferir verossimilhança a uma personagem assim, e Jennifer Garner não é uma delas. Além disso, aparentemente alguém achou que seria uma boa idéia fazer com que Elektra apresentasse um transtorno obsessivo-compulsivo, mas o que poderia se revelar um elemento interessante acaba se transformando em uma tentativa falha de tornar a heroína mais complexa (há uma linha tênue entre uma personagem complexa e outra mal-construída – e Elektra se encaixa nesta última categoria): basta dizer que os tais transtornos só surgem quando exigidos por alguma cena, voltando a desaparecer no instante seguinte.

Mas tem mais: cientes de que a história que tinham em mãos não seria suficiente para preencher 90 minutos de projeção, os roteiristas introduzem uma série de flashbacks ao longo da trama – um sinal clássico de falta de imaginação. Interrompendo freqüentemente o fluxo da narrativa, os tais flashbacks não servem sequer para esclarecer detalhes do passado da protagonista, já que jamais explicam as atitudes do pai de Elektra ou mesmo a morte traumatizante de sua mãe.

Enquanto isso, o diretor Rob Bowman transforma as seqüências de ação em uma bagunça generalizada, abusando dos cortes rápidos que tornam as lutas confusas e, conseqüentemente, aborrecidas – e chega a ser constrangedor vê-lo tentando imitar uma das seqüências mais belas de Herói, quando ambienta o confronto entre Elektra e Kirigi em uma sala repleta de lençóis flutuantes. Da mesma maneira, os efeitos visuais (apenas corretos) também apresentam seus momentos embaraçosos: quando as mocinhas são perseguidas por centenas de cobras voadoras em um labirinto, tive a impressão de estar assistindo à seqüência inicial de Olha Quem Está Falando, com seu bando de espermatozóides tagarelas flutuando em direção ao óvulo de Kirstie Alley.

Em uma de suas conversas com sua discípula, o mestre vivido por Terence Stamp explica que, muitas vezes, a `segunda vida de uma pessoa é a mais interessante` – referindo-se, claro, à própria Elektra.

Peço licença para discordar.
``

22 de Janeiro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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