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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/03/2004 21/11/2003 2 / 5 / 5
Distribuidora

Na Companhia do Medo
Gothika

Dirigido por Mathieu Kassovitz. Com: Halle Berry, Robert Downey Jr., Penélope Cruz, Charles S. Dutton, John Carroll Lynch, Bernard Hill, Kathleen Mackey.

Na Companhia do Medo é um filme sem uma gota de originalidade. E não me refiro apenas à utilização desenfreada de todos os clichês do gênero `protagonista perseguido(a) por fantasmas`, mas ao fato de que o roteiro escrito por Sebastian Gutierrez simplesmente reaproveita diversos elementos do recente Revelação, de Robert Zemeckis (que é justamente um dos produtores do projeto): estão lá a seqüência que se passa em uma banheira, a informação importante retirada da Internet e, é claro, o fantasma de uma jovem assassinada (neste aspecto, o filme também se `inspira` em O Chamado, já que é impossível deixar de pensar na ameaçadora Samara). Como se não bastasse, à falta de inspiração do roteirista junta-se uma coleção de absurdos e de buracos na história.

Protagonizado por Halle Berry, o longa gira em torno da psiquiatra forense Miranda Grey, que trabalha em uma penitenciária exclusiva para criminosos insanos – um lugar que, como não poderia deixar de ser, parece uma mansão mal-assombrada e é cercado por um bosque fechado. Casada com o diretor do presídio, Miranda encontra-se preocupada com uma de suas prisioneiras/pacientes, Chloe (Penélope Cruz), que matou o padrasto e que alega estar sendo estuprada por um espírito. Certa noite, enquanto volta para casa, a médica se depara com uma jovem nua no meio da estrada e tenta socorrê-la, mas algo sai errado e, três dias depois, Miranda acorda em uma cela e é informada por seu colega Pete Graham (Downey Jr.) que está sendo acusada de assassinar o marido. Sem conseguir lembrar-se do que realmente ocorreu, a garota passa a ter visões assustadoras e descobre que Chloe estava falando a verdade.

Antes de mais nada, vamos ao óbvio: é extremamente implausível que uma profissional como Miranda fosse detida (mesmo provisoriamente) justamente no presídio em que trabalhava e, ainda por cima, colocada sob custódia de seus ex-colegas – e, mesmo que isto ocorresse, ela jamais teria permissão de circular em ambientes nos quais outros prisioneiros se encontrassem, já que: 1) ela ainda não havia sido julgada; e 2) a maior parte daquelas pessoas era formada por ex-pacientes da psiquiatra. Isto pode parecer uma implicância boba de minha parte, mas o fato é que este absurdo constitui a base do roteiro de Gutierrez; e se não consigo acreditar na premissa, como posso me envolver com a história? Além disso, ao escalar-se como médico de sua ex-colega, o personagem de Robert Downey Jr. fere terrivelmente a ética profissional – algo recorrente no filme, já que o assassinato do Dr. Douglas Grey é investigado pelo melhor amigo deste.

Interpretando Miranda de forma burocrática, Halle Berry limita-se a emprestar apenas duas emoções à personagem: medo e histeria. Além disso, para alguém que até alguns dias atrás era considerada uma ótima psiquiatra, Miranda parece não perceber que seu comportamento descontrolado serve apenas para reforçar a idéia de que está louca – e não podemos sequer `desculpá-la` em função do choque com a morte do marido, já que, durante sua primeira sessão com Pete, a moça mostra-se perfeitamente capaz de manter uma conversa normal. E se você ainda sente calafrios ao se lembrar da terrível fala de Berry em X-Men (`Sabe o que acontece com um sapo que é atingido por um raio? O mesmo que acontece com todo mundo.`), prepare-se para ouvir outra `pérola` inacreditável: quando alguém lhe diz, ao longo do filme, que não acredita em fantasmas, Miranda responde: `Nem eu, mas eles acreditam em mim!`.

Mas a protagonista de Na Companhia do Medo não é a figura que se comporta de forma menos coerente ao longo da projeção; este título cabe ao fantasma que a perturba: para início de conversa, o tal espírito jamais se decide se é `amigo` ou `inimigo` (o que podemos atribuir ao desejo do roteiro de mantê-lo como um elemento ameaçador). Assim, em certos momentos a aparição parece ajudar Miranda, libertando-a de sua cela, mas, pouco depois, tortura a moça atirando-a de um lado para outro. Da mesma forma, é curioso perceber que o fantasma é capaz de atravessar paredes, mas, ainda assim, deixa pegadas ao se movimentar (sim, é claro que o propósito do diretor era criar tensão no espectador, mas não deixa de ser engraçado). Para completar, pergunto: já que o espírito é capaz de machucar Miranda, por que não usa seus `poderes` para alcançar seus objetivos sem envolver a moça? E mais: quem era o tal `fantasma estuprador` cuja natureza jamais é esclarecida pelo roteiro?

Ciente de que está lidando com um roteiro medíocre, o cineasta francês Mathieu Kassovitz procura equilibrar a equação utilizando todos os truques do `manual do filme de terror`: praticamente todas as cenas se passam durante a noite; o ambiente está sempre mergulhado na escuridão (por que acender a luz se podemos ler com o auxílio de um fraco abajur?; e uma forte chuva acompanha com determinação os personagens. Além disso, Kassovitz apela para todo tipo de trucagem, fazendo com que sua câmera atravesse vidraças, paredes e grades – algo que se torna repetitivo depois de algum tempo. Chega a ser espantoso que este seja o mesmo diretor responsável pelo forte O Ódio, o que comprova a inesgotável capacidade que Hollywood tem de minar o talento dos cineastas que `importa` da Europa.

Representando mais um fracasso na curta história da produtora Dark Castle, Na Companhia do Medo só é capaz de provocar alguns sustos quando apela para os altos e súbitos acordes na trilha sonora. Há algum mérito nisso? Depende. Quando alguém chega por trás de você e o(a) assusta com um grito, você parabeniza o brincalhão por sua inteligência e por seu senso artístico? Se a resposta é `sim`, ótimo: você pode considerar este filme um verdadeiro clássico.
``

5 de Março de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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