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Capitão Sky e o Mundo de Amanhã

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Kerry Conran. Com: Jude Law, Gwyneth Paltrow, Giovanni Ribisi, Angelina Jolie, Bai Ling, Michael Gambon, Laurence Olivier.

Capitão Sky e o Mundo de Amanhã custou setenta milhões de dólares. Porém, considerando-se a dimensão grandiosa de tudo o que surge na tela durante a projeção, seria fácil supor que seu orçamento tivesse custado no mínimo três vezes este valor. O segredo da economia feita pelo diretor estreante Kerry Conran? Simples: o filme foi praticamente todo rodado em frente ao blue screen, e os cenários (e vários personagens) foram adicionados com o uso de computadores.

Radicalizando um processo que Steven Spielberg já utilizara em A.I. – Inteligência Artificial, esta produção não foi sequer a primeira a empregar a técnica em escala tão extensa: há alguns meses, assisti ao francês Immortel (ad vitam), dirigido pelo iugoslavo Enki Bilal, que reivindica esta posição. Porém, há uma diferença básica entre os dois longas: enquanto Immortel narrava uma história ambientada no futuro, Capitão Sky... utiliza os efeitos visuais para recriar o passado. Não um passado totalmente factual, mas um que adiciona fantasia a um período que precisava desesperadamente disto: o final da década de 30 e início da de 40, quando a sombra de Hitler já escurecia o mundo.

Aliás, é fácil identificar o ano preciso no qual Capitão Sky se passa, 1939 – basta observar que, em dois instantes, somos informados de que os cinemas locais estão exibindo O Mágico de Oz e O Morro dos Ventos Uivantes. No entanto, aqui não há referência à Segunda Guerra e – mais surpreendente – o zepelim Hindenburg `ancora` no topo do Empire State Building. Escrito pelo próprio Conran, o filme é uma homenagem escancarada às cinesséries tão populares nos anos 30 e 40 e, justamente por isto, possui o mesmo tom de aventura fantasiosa de Os Caçadores da Arca Perdida, mergulhando personagens charmosos (e divertidamente cínicos) em uma trama empolgante e absurda sobre um cientista maluco que pretende destruir o mundo.

Inspirando-se também nas screwball comedies do período, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã resgata um dos tipos clássicos do gênero: o do(a) jornalista capaz de tudo por um furo, aqui interpretada por Gwyneth Paltrow, que – como não poderia deixar de ser - é vista sempre em soft focus. Aliás, visualmente o filme adota o estilo inigualável da época, incluindo os planos inclinados, os `círculos de luz` que destacam frases de bilhetes e telegramas e os contrastes marcantes de sombra e luz típicos do expressionismo alemão e de seu filhote americano, o noir (aqui, o diretor também avança um pouco no tempo, trazendo elementos dos anos 50). Como se pode constatar, o longa faz questão de ser `cinematográfico` ao extremo: nada em sua concepção busca o realismo e, neste sentido, ele se torna uma homenagem não apenas às cinesséries, mas à Sétima Arte de modo geral.

Trabalhando com uma fotografia que aposta em um esquema de cores lavadas (e que recaem constantemente para o sépia), Conran faz uma mistura improvável, introduzindo robôs gigantes voadores em um universo no qual os personagens ainda usavam sobretudos e chapéus de feltro. Porém, como tudo o que surge na tela é gerado em computador, esta combinação não tem aquela natureza falsa de filmes como Mulher-Gato ou Van Helsing, nos quais os elementos digitais contrastavam brutalmente com o restante do cenário – e, desta maneira, a história fantástica de Capitão Sky (que faz referência a uma infinidade de clássicos, de King Kong a Horizonte Perdido) pode ser desenvolvida sem que o espectador se distraia com o surgimento de um ou outro efeito destoante (como os bonecos digitais de Blade 2 e Demolidor).

Mas creio que não estou fazendo justiça ao filme, já que, até agora, concentrei-me basicamente em seus aspectos técnicos (o que, de certa forma, é inevitável). O fato é que, por melhor que seja dos pontos de vista estético e tecnológico, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã não seria tão arrebatador caso falhasse em sua narrativa (algo que, de certo modo, ocorre em Immortel (ad vitam)). Felizmente, além da trama divertida, o longa brilha graças à dinâmica entre o personagem-título (interpretado com bom humor por Jude Law) e a temperamental repórter Polly Perkins (Paltrow): ex-amantes, os dois atravessam a história fazendo um jogo de ciúmes irresistível e trocando farpas no melhor estilo Clark Gable-Claudette Colbert – algo que se torna ainda melhor quando entra em cena a Capitã Franky Cook, com quem o herói também se envolveu no passado (e, para aqueles que acreditam que não gosto de Angelina Jolie, uma novidade: ela está infinitamente mais convincente como a piloto durona desta produção do que jamais conseguiu ser na série Lara Croft).

Fechando o elenco, vem (acreditem ou não) o inesquecível Sir Laurence Olivier, que, morto em 1989, foi `ressuscitado` por Kerry Conran através da magia da computação gráfica, que transformou trechos de alguns de seus filmes dos anos 40 em uma nova e breve performance – tão breve, diga-se de passagem, que fica difícil discutir os méritos da idéia do cineasta (esta é uma discussão que merece um outro artigo, fugindo dos propósitos desta análise).

Capitão Sky e o Mundo de Amanhã não é apenas uma produção elaborada; é um passatempo de primeira, uma jornada de tirar o fôlego que funciona até o momento da inspirada piadinha final. E é, acima de tudo, um filme que merece ser visto mais de uma vez (no cinema!) para que possamos apreciar os detalhes espalhados pelos quatro cantos da tela.
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26 de Setembro de 2004

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Na Nova York de 1939, uma repórter se une a um piloto (e antigo afeto) para impedir que um cientista destrua o mundo com suas máquinas voadoras e robôs gigantes.

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