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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/12/2004 10/11/2004 5 / 5 4 / 5
Distribuidora

O Expresso Polar
The Polar Express

Dirigido por Robert Zemeckis. Com: Tom Hanks, Nona Gaye, Eddie Deezen, Peter Scolari, Michael Jeter, Charles Fleischer, Leslie Harter Zemeckis, Steven Tyler, Daryl Sabara, Jimmy Bennett.

Se há um tipo de crítico que desprezo é aquele que escreve seus textos com o objetivo principal de ser citado nos cartazes de divulgação lançados pelas distribuidoras. São `profissionais` que adoram incluir, em seus artigos, clichês como `O melhor (qualquer coisa) do ano!`, `Uma montanha-russa de emoções!` ou `Simplesmente imperdível!`. Assim, foi com imensa frustração que, ao refletir sobre a maneira ideal de começar este artigo, eu só conseguia pensar em descrições como `Um clássico instantâneo` e `Diversão para toda a família`. Às vezes, é impossível fugir do lugar-comum.

Seguindo a tradição de fantasias como A Fantástica Fábrica de Chocolates, A Princesa Prometida e O Mágico de Oz, este novo filme de Robert Zemeckis conta uma historinha simples, mas repleta de imaginação: quando o pequeno herói da narrativa (seu nome jamais é revelado) deixa de demonstrar interesse em tirar fotos com o Papai Noel e de escrever para o bom velhinho, acaba ganhando uma passagem no Expresso Polar, uma locomotiva que, na véspera do Natal, leva várias crianças `descrentes` para o Pólo Norte a fim de dar-lhes a oportunidade de testemunhar em primeira mão a magia desta data. Ao longo da viagem, o garoto faz fortes amizades, vive diversas aventuras e conhece criaturas fantásticas e misteriosas.

Inspirado no livro ilustrado de Chris Van Allsburg (responsável também pela premissa de Jumanji, outra história repleta de fantasia), O Expresso Polar já tem lugar garantido na História do Cinema em função de sua técnica ambiciosa: sempre disposto a empregar recursos inovadores em seus filmes, Zemeckis concluiu (acertadamente) que a única maneira de fazer jus às gravuras de Van Allsburg seria com o auxílio da computação gráfica, recriando todo aquele universo através da animação digital. Porém, ao contrário de produções como Os Incríveis, Shrek 2 e O Espanta Tubarões, o cineasta queria que seu elenco não apenas emprestasse a voz aos personagens, mas também criasse todos os gestos destes. Para isto, aperfeiçoou a técnica de `captura de movimento` (mais famosa por dar vida a Gollum na trilogia O Senhor dos Anéis), através da qual a performance dos atores foi transportada para o ambiente virtual.

Assim, quando vemos o Condutor (um dos seis papéis vividos por Tom Hanks), ele não apenas fala com a voz do ator, mas também exibe todos os seus maneirismos inconfundíveis. E mais: graças à técnica, intérpretes adultos como Hanks, Nona Gaye e Peter Scolari puderam viver tipos radicalmente diferentes de suas aparências reais, como crianças, marionetes e, é claro, o próprio Papai Noel. E, mesmo que as criações digitais de O Expresso Polar não sejam perfeitas (os olhos `vazios`, sem foco, continuam a ser um problema), é inevitável reconhecer que a captura de movimentos, neste contexto, representa um avanço assustador: em certos momentos, confesso que fiquei na dúvida se estava assistindo a um ator de carne-e-osso ou a uma criatura formada por zeros e uns, tamanha a perfeição dos gestos e ações alcançada pelos técnicos (observe, por exemplo, o instante em que o Herói tenta criar coragem para embarcar no trem ou aquele em que o Condutor tira o relógio do bolso para consultá-lo).

Além disso, as expressões faciais dos personagens (também criadas a partir do trabalho dos atores) e a textura da pele destes são absolutamente impecáveis, refletindo o perfeccionismo habitual de Zemeckis. Enquanto isso, Tom Hanks comprova seu imenso carisma ao conseguir transferir para seu alter-ego (ou eu deveria dizer `alter-egos`?) o mesmo tom de camaradagem presente na maior parte de seus trabalhos – e seu talento é evidenciado pelas diferentes formas com que seus vários personagens se expressam fisicamente ao longo do filme, da rigidez disciplinada do Condutor à insegurança infantil do Herói, passando pela postura desleixada do Vagabundo que mora sobre o trem.

Mas as virtudes de O Expresso Polar vão além: concebendo novos cenários a partir das imagens do livro de Van Allsburg, os diretores de arte criam um universo não apenas belíssimo, mas grandioso – e é apenas justo torcer para que sejam indicados ao Oscar nesta categoria (embora a Academia tenha um claro preconceito contra os conceitos aplicados apenas em animações, como se considerasse mais válidos apenas aqueles designs construídos no `mundo real`). E o melhor é que, como os ambientes são virtuais, Robert Zemeckis conta com total liberdade para mover sua `câmera` – e quem acompanha sua carreira sabe que ele é um virtuoso neste aspecto. Assim, as seqüências de ação vistas ao longo da projeção tornam-se ainda mais admiráveis em função dos planos surpreendentes planejados pelo cineasta, como aquele em que vemos o Herói através das páginas de um livro e outro no qual mergulhamos sob a superfície do chão para vê-lo apanhando um objeto (numa trucagem parecida com a que o diretor já realizara em Revelação). Mas a seqüência que merece destaque é mesmo aquela que acompanha, sem cortes, a jornada de uma passagem de trem por vários quilômetros. (Lembra-se da pena vista em Forrest Gump, outra parceria entre Zemeckis e Hanks? Pois aquilo não é nada se comparado ao que vemos desta vez.).

Envolvendo o espectador na jornada de seus protagonistas, O Expresso Polar tem imenso potencial para se tornar um daqueles clássicos obrigatórios nas festas de fim de ano, já que, além de uma emocionante aventura (que encantará as crianças), é bem-sucedido ao levar o público adulto a reviver aquela sensação gostosa da magia do Natal, quando ainda acreditávamos na existência de seres cujo único objetivo era o de nos fazer sorrir.

E sorrir é algo que você certamente fará – e muito - ao assistir a este filme.
``

23 de Novembro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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