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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
12/03/2004 12/12/2003 2 / 5 5 / 5
Distribuidora

Direção

Nancy Meyers

Elenco

Diane Keaton , Jack Nicholson , Keanu Reeves , Amanda Peet , Jon Favreau , Rachel Ticotin , Frances McDormand

Roteiro

Nancy Meyers

Produção

Bruce A. Block

Fotografia

Michael Ballhaus

Música

Hans Zimmer

Montagem

Joe Hutshing

Design de Produção

Jon Hutman

Figurino

Suzanne McCabe

Direção de Arte

John Warnke

Alguém Tem Que Ceder
Something`s Gotta Give

Dirigido por Nancy Meyers. Com: Jack Nicholson, Diane Keaton, Amanda Peet, Keanu Reeves, Jon Favreau, Rachel Ticotin e Frances McDormand.

A maior parte do público que freqüenta cinema com regularidade, nos Estados Unidos, é composta por jovens do sexo masculino. Portanto, é compreensível que, ao longo dos últimos 20 anos, os executivos de Hollywood tenham dedicado cada vez menos atenção aos projetos que, teoricamente, menos interessariam a este grupo; e se há um gênero que certamente não atrai os adolescentes é o `romance` – especialmente um que seja protagonizado por atores que tenham mais de 55 anos de idade. Infelizmente, esta decisão acaba prejudicando não apenas os três `quadrantes` restantes de público (jovens do sexo feminino e, particularmente, adultos do sexo masculino e adultos do sexo feminino), como também os atores veteranos, que passam a receber cada vez menos propostas de trabalho.

Assim, é reanimador assistir a um filme como Alguém Tem que Ceder, que aborda justamente o relacionamento entre duas pessoas de meia-idade: a escritora Erica Barry (Keaton) e o produtor musical Harry Sanborn (Nicholson). Harry, na verdade, considera-se um especialista em mulheres jovens, já que `vem saindo com elas há 40 anos` – e sua última conquista é a filha de Erica, Marin (Peet), com quem ele vai passar o fim-de-semana no litoral. No entanto, depois que sofre um infarto, ele é obrigado a passar alguns dias na casa ao lado da mãe de sua namorada, e logo os dois desenvolvem um inesperado interesse um pelo outro.

Apesar de forçar uma situação pouco verossímil a fim de unir os dois personagens, o roteiro escrito por Nancy Meyers consegue divertir o espectador ao satirizar alguns aspectos de um relacionamento entre duas pessoas mais velhas: Harry, por exemplo, é obrigado a medir a pressão antes do sexo, e Keaton não se preocupa com métodos anticoncepcionais por estar na menopausa (aparentemente, ela não se importa com doenças sexualmente transmissíveis). Com isso, Meyers comete exatamente o mesmo erro que eu já havia apontado em minha análise sobre seu trabalho anterior, Do Que as Mulheres Gostam, que, embora condenasse o chauvinismo de seu protagonista, acabava revelando-se igualmente machista: em Alguém Tem que Ceder, a cineasta tenta ilustrar que a paixão pode ocorrer em qualquer idade, mas não se furta de ridicularizar seus personagens.

Ainda assim, o filme arranca boas risadas graças à ótima química entre Diane Keaton e Jack Nicholson, que parecem estar se divertindo imensamente um com o outro. Nicholson, em particular, brinca com sua própria imagem de playboy de meia-idade e utiliza todos os seus tiques habituais, como as sobrancelhas arqueadas, o sorriso irônico e o jeitão de quem não liga a mínima para o que os demais estão pensando. Incapaz de compreender porque sua postura diante do sexo feminino é tão criticada, Harry mostra-se verdadeiramente confuso frente às carências de Erica – uma combinação de preocupação e descaso que Nicholson ilustra com maestria.

Mas a grande estrela de Alguém Tem que Ceder é mesmo Keaton, que participa pela quarta vez de um projeto roteirizado por Meyers: ainda mantendo a maior parte da beleza dos tempos de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e O Poderoso Chefão, a atriz explora os sentimentos contraditórios de Erica e consegue fazer rir até mesmo ao chorar convulsivamente. Já Frances McDormand é completamente desperdiçada pelo roteiro, o que é uma pena, já que, em suas poucas participações, estabelece uma ótima dinâmica em cena com Diane Keaton. Fechando o elenco, vem Keanu Reeves, cujo personagem é utilizado por Nancy Meyers como simples complicação para conferir maior conflito à trama, e que é descartado de uma forma irritante depois que cumpre sua função.

Aliás, Alguém Tem que Ceder só funciona realmente até cerca de metade da projeção: depois que Erica e Harry se envolvem, o filme abandona qualquer tentativa de fazer comédia e investe no romance água-com-açúcar (outro equívoco também observado em Do Que as Mulheres Gostam). Sem conseguir manter o ritmo, a produção soa mais longa do que deveria, cansando o espectador, que ainda é obrigado a testemunhar uma conclusão absolutamente imbecil para a história – o que chega a insultar.

Eu disse, anteriormente, que é reanimador assistir a um filme como Alguém Tem que Ceder. Infelizmente, isso não quer dizer que o longa é bom, pois não é. Mas esperemos que seu sucesso nas bilheterias abra as portas para novos projetos protagonizados por atores veteranos. Quem sabe o filme não se redime desta maneira?
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6 de Janeiro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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