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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/09/2004 30/04/2004 2 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Nick Hamm

Elenco

Robert De Niro , Greg Kinnear , Rebecca Romijn , Cameron Bright

Roteiro

Mark Bomback

Produção

Mark Bomback

Fotografia

Kramer Morgenthau

Música

Brian Tyler

Montagem

Niven Howie , Steve Mirkovich

Design de Produção

Doug Kraner

Figurino

Suzanne McCabe

Direção de Arte

Arvinder Grewal

O Enviado
Godsend

Dirigido por Nick Hamm. Com: Greg Kinnear, Rebecca Romijn-Stamos, Robert De Niro, Cameron Bright.

De acordo com um dos nada menos do que sete produtores executivos deste projeto, o diretor Nick Hamm filmou quase uma dezena de finais diferentes para o longa, demorando imensamente para optar por um deles. Isto não me espanta: afinal, como ele poderia escolher um desfecho se não conseguiu sequer determinar a qual gênero o filme pertenceria? Ao longo de O Enviado, o espectador tem a impressão de estar assistindo, alternadamente, a uma ficção científica, um policial, um suspense, um terror, um drama familiar e, para quem não tem muita paciência para absurdos, um besteirol. No final das contas, tenho a impressão de que este último se sobressai, embora os responsáveis pela produção provavelmente discordem disto.

Escrito por Mark Bomback (que sobrenome sugestivo, não?), O Enviado frustra ainda mais por desperdiçar um primeiro ato genuinamente interessante: felizes no casamento, o professor de Biologia Paul Duncan (Kinnear) e a fotógrafa Jessie (Romijn-Stamos) têm um filho de 8 anos, Adam. Quando o garoto morre em um acidente, a vida do casal parece destruída, até que um antigo conhecido de Jessie, o geneticista Richard Wells (De Niro) surge em cena com uma proposta inacreditável: implantar um clone de Adam no útero da moça. É claro que, como o procedimento é ilegal, os enlutados pais terão que se mudar da cidade e cortar relações com todos os amigos e parentes, que dificilmente compreenderiam como uma criança idêntica àquela morta pode ter sido gerada. Dispostos a tudo para `recuperar` o filho, Paul e Jessie aceitam a oferta do Dr. Wells – e tudo parece correr bem até que o `novo` Adam completa 9 anos de idade e começa a agir de maneira estranha e assustadora.

Os primeiros quinze minutos de projeção, que ilustram o bom relacionamento da família Duncan e incluem a bizarra proposta do médico, são os melhores do filme: o encontro entre o geneticista e seus `clientes`, em particular, impressiona pela boa condução dos diálogos, que deixam claras a relutância inicial de Paul, a esperança de Jessie e a confiança que o Dr. Wells deposita em seus conhecimentos. Infelizmente, este é o último momento em que os personagens demonstram inteligência em suas conversas, já que, em vez de investir em discussões relevantes ao tema proposto (um clone teria alma, por exemplo?), o roteiro descamba para o lugar-comum, chegando ao ponto de forçar a presença nada natural de um mistério do tipo `Quem é o culpado?`.

E se a trama torna-se óbvia (batizar a criança clonada de `Adam` é um clichê dos piores), a direção de Nick Hamm tampouco parece ajudar: depois de demonstrar uma terrível falta de habilidade no igualmente fraco O Buraco, o cineasta britânico transforma O Enviado em um amontoado de referências medíocres a filmes como A Profecia (só faltou tatuar `666` na cabeça do menino), a começar pela maneira batida com que filma o rosto do jovem ator Cameron Bright, apelando para sombras e olhares de baixo para cima. Além disso, a direção de arte ignora o fato de que os Duncan não são ricos e lhes fornece uma mansão vitoriana no melhor estilo `filme de terror`, com direito a escadas em caracol e tudo mais.

Mais uma vez atravessando uma produção no piloto automático, Robert De Niro não possui um momento memorável sequer em O Enviado, afastando-se cada vez mais daquele ator brilhante e surpreendente com o qual estamos acostumados (sua última composição de personagem memorável foi em Jackie Brown, há longos 7 anos). Outra que pouco faz é Rebecca Romijn-Stamos, que limita-se a chorar e a gritar de susto, dependendo das exigências do roteiro, enquanto o garotinho Cameron Bright fica no básico, apostando em expressões ameaçadoras e só. Desta forma, o único que se destaca de alguma maneira é o sempre subestimado Greg Kinnear, que não apenas transmite bem as dúvidas morais de seu personagem como ainda retrata com talento sua dor e preocupação ao constatar as mudanças em Adam. É uma pena, portanto, que o filme decida transformá-lo em uma espécie implausível de detetive a partir da metade da trama (e é ridículo vê-lo descobrindo um desenho de criança que, acreditem ou não, permaneceu dez anos pregado em uma parede de um prédio abandonado).

O fato, porém, é que elenco nenhum no mundo conseguiria salvar O Enviado, que aperta o botão de auto-destruição ao incluir uma explicação ofensivamente estúpida sobre o comportamento violento de Adam – e, se a tal revelação não irritar o mais tolerante dos espectadores, a resolução da história (eu disse `resolução`?) certamente o fará.

No final das contas, O Enviado acaba se tornando uma versão ruim e `científica` (com enormes aspas) do superior Cemitério Maldito – o que já é o bastante para que você tenha uma idéia da dimensão do desastre.
``

19 de Junho de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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