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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/11/2002 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

Doce Lar
Sweet Home Alabama

Dirigido por Andy Tennant. Com: Reese Whiterspoon, Patrick Dempsey, Josh Lucas, Candice Bergen, Fred Ward, Mary Kay Place, Ethan Embry, Rhona Mitra e Melanie Lynskey.

Entre todos os gêneros já explorados pelo Cinema, há alguns que se destacam por sua imutável falta de originalidade – as `comédias românticas`, por exemplo. Neste tipo de produção, o público é sempre apresentado a um casal que, desde o início, está fadado a se reunir em um apaixonado beijo final. Em 99% dos casos, os dois `pombinhos` enfrentam preconceitos, mal-entendidos, desastres e outras artimanhas do destino (leia-se: dos roteiristas), mas acabam vencendo todas as adversidades.

Assim, a única diferença entre uma comédia romântica boa e outra ruim reside em sua `embalagem`, e não em seu conteúdo. Em outras palavras: como o roteiro apresentará a história para o público? Sucessos como Aconteceu Naquela Noite e Harry e Sally – Feitos um para o Outro se destacam, por exemplo, pela personalidade (e aparente incompatibilidade) de seus protagonistas e pelo brilhantismo de seus diálogos. Já filmes como Sintonia de Amor e Quatro Casamentos e um Funeral funcionam (muito bem) graças a artifícios na maneira curiosa com que os casais se envolvem. No geral, porém, a fórmula é sempre a mesma.

Vejamos este recente Doce Lar: escrito de forma incrivelmente burocrática por C. Jay Cox, o filme utiliza dois dos truques mais antigos do manual da comédia romântica: o da `mocinha disputada por dois homens` e o da `mocinha que não percebe seus verdadeiros sentimentos com relação ao mocinho`. Como o espectador já sabe exatamente como tudo irá terminar, é fácil supor que a espera pelo tal `beijo final` tende a ser enfadonha – algo que só poderia ser evitado por um roteiro bem construído. Infelizmente, Cox aposta suas fichas em piadinhas ingênuas que se tornam ainda piores em função do péssimo timing cômico do diretor Andy Tennant (como na cena em que a personagem de Reese Whiterspoon senta em uma cadeira reclinável e grita: `Como saio daqui?`, esquecendo-se do simples conceito de `levantar`).

A atriz, aliás, decepciona no papel da estilista Melanie Carmichael: ao contrário do que fez em Legalmente Loira, quando transformou uma perua fútil em uma figura simpática, Whiterspoon falha grosseiramente ao jamais levar o espectador a se importar com Melanie, que acaba sendo retratada como uma mulher egoísta e dissimulada (suas atitudes no ato final da trama são, no mínimo, desprezíveis, embora o filme finja não perceber isso). Como se não bastasse, ela é obrigada a recitar textos incrivelmente artificiais, como na cena em que explica para um rapaz a quem humilhara publicamente: `Achei que, desviando a atenção de todos para você, ninguém veria através de mim`. Isso para não mencionar a brusca mudança sofrida pela personagem no meio da história, numa tentativa (vã) de torná-la mais agradável.

Outro aspecto frustrante do roteiro é a forma com que a pequena cidade natal de Melanie é apresentada: como sempre acontece em produções ambientadas no interior dos Estados Unidos, Doce Lar insiste na desgastada `lição-de-moral` sobre o valor da honestidade `caipira` contra o `monstruoso cinismo` das cidades grandes. E, é claro, não é surpresa constatar que uma imensa festa acontece na cidadezinha justamente na semana em que a protagonista visita o local (alguém já viu algum filme situado no `interior` em que um evento comemorativo, com direito à música lenta, não seja retratado?).

Mas Doce Lar não é um desastre total: Patrick Dempsey, veterano das comédias românticas da década de 80, cria um pretendente simpático e compreensivo (seguindo o estilo de Bill Pullman em Sintonia de Amor). Já a neozelandesa Melanie Lynskey, mais conhecida por atuar ao lado de Kate Winslet no ótimo Almas Gêmeas, prova possuir um grande alcance ao interpretar uma autêntica nativa do estado do Alabama, com direito a forte sotaque e tudo mais. Por outro lado, a sempre bela Candice Bergen fica presa a um papel ingrato e constrangedoramente ruim.

Responsável direto pelo fracasso `artístico` de Doce Lar, o roteirista C. Jay Cox não consegue sequer aproveitar os pouquíssimos momentos em que escapa da mediocridade. Em certo momento, por exemplo, um personagem diz: `Você pode ter raízes e não perder suas asas` – uma fala inspirada e eficaz. Infelizmente, Cox não pára por aí e emenda uma resposta ridiculamente piegas: `Talvez eu só possa voar no inverno`.

Nesse instante, fui eu quem teve vontade de voar – para fora do cinema.
``

2 de Dezembro de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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