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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/12/2003 14/11/2003 5 / 5 3 / 5
Distribuidora

Simplesmente Amor
Love Actually

Dirigido por Richard Curtis. Com: Hugh Grant, Emma Thompson, Alan Rickman, Bill Nighy, Colin Firth, Lúcia Moniz, Liam Neeson, Keira Knightley, Chiwetel Ejiofor, Martine McCutcheon, Laura Linney, Kris Marshall, Heike Makatsch, Rodrigo Santoro, Thomas Sangster, Billy Bob Thornton e Rowan Atkinson.

Simplesmente Amor é aquele tipo de filme em que o mocinho, ao descobrir sua paixão pela mocinha, resolve pedi-la em casamento, saltando a habitual fase de namoro. E o que é mais interessante: em nenhum momento, o espectador duvida do sucesso daquele relacionamento, que já vem com um subentendido `E viveram felizes para sempre`. Aliás, é bom esclarecer que, quando digo isso, não estou fazendo pouco desta produção; ao contrário: atualmente, é cada vez mais difícil assistir a um longa-metragem que explore o melhor da natureza humana, fazendo, com isso, o público sair do cinema com uma genuína sensação de bem-estar.

Escrito pelo britânico Richard Curtis (que estréia na direção depois de roteirizar sucessos como Quatro Casamentos e um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill e O Diário de Bridget Jones), Simplesmente Amor conta com um elenco absolutamente admirável que protagoniza diversas histórias paralelas – todas, obviamente, girando em torno do sentimento citado no título. Enquanto as relações entre os diferentes personagens vão sendo reveladas, Curtis procura ilustrar as diferentes manifestações do amor e suas diferentes fases: assim, ao mesmo tempo em que presenciamos o casamento de Peter (Ejiofor) e Juliet (Knightley), testemunhamos o sofrimento de Daniel (Neeson), cuja esposa acaba de falecer. Da mesma forma, o filme acompanha o jovem Sam (Sangster), que vive seu primeiro amor ao se apaixonar por uma colega de escola, mas também ilustra o relacionamento já um pouco desgastado do casal Harry (Rickman) e Karen (Thompson).

É claro que, ao acompanhar tantos personagens, a narrativa torna-se um pouco irregular, perdendo o ritmo ocasionalmente. Ainda assim, Simplesmente Amor jamais deixa de ser envolvente, já que Curtis, um escritor experiente, é hábil na construção das histórias, que são geralmente recheadas com seu humor tipicamente britânico. De todo modo, creio que o filme se beneficiaria caso duas de suas subtramas tivessem sido excluídas, já que são indubitavelmente as mais fracas do roteiro: a primeira é aquela que envolve Colin (Marshall), um rapaz que decide viajar para os Estados Unidos por julgar que seu sotaque o ajudará a conquistar belas mulheres (a resolução de sua aventura é simplesmente ridícula; e a segunda diz respeito a um casal de stand-ins (profissionais que assumem a posição dos atores durante a preparação de uma tomada, evitando que estes se desgastem desnecessariamente enquanto, por exemplo, o diretor de fotografia acerta a luz). A princípio, é curioso vê-los conversando enquanto simulam casualmente uma cena de sexo, mas a piada logo se desgasta.

Em contrapartida, todas as cenas estreladas por Hugh Grant merecem destaque: encarnando o mesmo tipo inseguro, auto-crítico e levemente desajeitado de seus trabalhos anteriores (muitos deles em parceria com Richard Curtis), o sujeito é um dos poucos atores que, por mais que se repitam, jamais deixam de ser interessantes. E o que é melhor: interpretando o Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha, Grant protagoniza um dos melhores momentos de Simplesmente Amor ao ter a chance de confrontar o Presidente dos Estados Unidos, retratado por Billy Bob Thornton como uma mistura de Bill Clinton e George W. Bush. Evidenciando a coragem de Curtis, que não hesita em criticar a postura passiva do atual Primeiro-Ministro frente a Bush, o discurso feito pelo personagem de Grant é um desabafo contundente que surpreende ainda mais por aparecer em um filme tão leve.

Contando com a participação de Rodrigo Santoro em um pequeno papel (que, mais uma vez, não lhe oferece a oportunidade de mostrar o talento exibido em Bicho de Sete Cabeças), Simplesmente Amor é emocionante e engraçado – uma combinação que alcança seu clímax em uma bela cena protagonizada por Bill Nighy como o `vovô-mau do rock` Billy Mack, que, depois de ser o responsável pelas maiores gargalhadas do filme, revela um lado curiosamente sensível ao conversar com seu empresário. Por outro lado, é interessante constatar que minha história favorita, nesta produção, é também aquela que envolve o menor número de risos, dizendo respeito ao romance entre o inglês Jamie (Firth) e a portuguesa Aurélia (Moniz), que, justamente por não compreenderem a língua um do outro, se sentem livres para dizer tudo o que sentem.

Embalado por uma trilha sonora contagiante (outra marca registrada dos trabalhos de Curtis), este é um filme que ilustra com perfeição as intensas contradições do amor, um `estado de espírito` que consegue, ao mesmo tempo, nos fazer felizes e miseráveis. Não há nada melhor do que estar apaixonado(a) e ser correspondido(a), é claro – mas, mesmo neste caso, há (na maioria das vezes) uma cruel insegurança que insiste em projetar uma sombra em nossos caminhos: até quando irá durar esta felicidade?

Esta é, claro, uma incógnita. Mas, enquanto isso, vá conferir Simplesmente Amor ao lado de seu(sua) companheiro(a), ou até mesmo sozinho(a): eu garanto que, no que diz respeito a este filme, a probabilidade de que você se decepcione é mínima.
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03 de Dezembro de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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