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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
02/08/2002 30/01/2004 4 / 5 / 5
Distribuidora

As Três Marias
As Três Marias

Dirigido por Aluízio Abranches. Com: Marieta Severo, Júlia Lemmertz, Maria Luísa Mendonça, Luíza Mariani, Tuca Andrada, Enrique Diaz, Fábio Limma, Cassiano Carneiro, Wagner Moura, Lázaro Ramos e Carlos Vereza.

As Três Marias, novo trabalho do cineasta Aluízio Abranches, é um filme que pode ser visto de duas maneiras: uma mais superficial, concentrando-se apenas na trama de vingança; e outra mais detalhada, avaliando os diversos símbolos espalhados ao longo da projeção. No primeiro caso, o público certamente sairá do cinema decepcionado, já que a história é simples e pouco original; em contrapartida, caso se disponha a mergulhar nas alegorias apresentadas pelo cineasta, o espectador descobrirá um filme bem mais interessante e que merece ser discutido após a sessão.

Partindo de um roteiro original escrito por Heitor Dalia e Wilson Freire (que me lembrou bastante do livro Ontem à Noite era Sexta-feira, de Roberto Drummond), As Três Marias tem início quando o patriarca da família Capadócio e seus dois filhos são cruelmente assassinados por membros de uma família rival. Decidida a vingar a morte do marido e dos filhos, a viúva Filomena (Severo) reúne suas três filhas, todas batizadas de Maria, e demonstra seu propósito ao dizer: `Quero o luto, não as lágrimas. (...) Nunca se deve alimentar uma dor sem antes dar de comer ao ódio`. Em seguida, ela ordena que cada uma de suas filhas procure um assassino a fim de encomendar a morte de seus inimigos. Como não poderia deixar de ser, cada um dos três criminosos abordados pelas moças tem personalidade marcante: o primeiro, Zé das Cobras (Diaz), é um sujeito que se recusa a falar com mulheres e vive cercado por cobras venenosas (até mesmo sua roupa é feita do couro do réptil; o segundo, Cabo Tenório (Andrada), é um policial que só age de acordo com a Lei e tem predileção por executar seus trabalhos com facões; e, finalmente, o terceiro é Jesuíno Cruz (Moura), um homem com traços esquizofrênicos que acredita fanaticamente na dualidade do homem (não é à toa que possui uma cicatriz que divide seu rosto ao meio).

O primeiro detalhe facilmente observável em As Três Marias é a insistência de seu diretor em evitar o naturalismo excessivo: seus personagens não conversam como pessoas comuns, mas sim de maneira solene, quase teatral. `Se tens coragem de matar o Azedo, quero que mate o Arcanjo da Morte`, diz uma das garotas, em certo momento. No entanto, em vez de conferir um tom artificial ao filme, a declamação dos diálogos soa como uma escolha perfeita para esta história que, afinal de contas, não esconde sua natureza de verdadeira parábola – algo realçado pela eficiente trilha sonora de André Abujamra e pelo uso grandioso de câmeras lentas em momentos-chave da narração, como na cena em que Filomena recebe a trágica notícia sobre o marido e os filhos.

Além disso, a compreensão dos símbolos existentes no filme é, inquestionavelmente, algo fundamental para a plena apreciação da história: logo no início, por exemplo, Abranches afasta sua câmera de Filomena no instante em que esta é informada da tragédia e revela, nos fundos da casa, um verdadeiro jardim de cactos, numa bela representação da nova vida da personagem após o ocorrido: uma existência árida, sem amor ou sentimentos de esperança. E mais: ao apresentar os três assassinos profissionais para o espectador, o cineasta nos bombardeia com uma série de signos: a aparição de Zé das Cobras é precedida por imagens de escorpiões e crânios ressequidos de animais; Cabo Tenório é introduzido com a aparição de uma cruz que converte-se em faca; e Jesuíno Cruz tem sua crença na dualidade representada por símbolos opostos, como a face de Jesus e um rosto diabólico. Curioso, também, é perceber a estreita ligação entre cada um dos criminosos e um animal: Zé das Cobras e seus répteis; Cabo Tenório e o raivoso cachorro Azedo; e Jesuíno e o `Cavalo do Cão` (seu codinome). Da mesma forma, cada um possui seu instrumento favorito de ataque: veneno, arma branca e arma de fogo, respectivamente – algo que encontra claro reflexo em suas personalidades.

Porém, as figuras alegóricas mais visíveis em As Três Marias estão relacionadas a um intenso sentimento de religiosidade: além da presença constante de igrejas e cruzes, suas protagonistas estão sempre se benzendo e, em determinados momentos, fazendo citações bíblicas. Numa representação clara do olhar de Deus (e, provavelmente, da inevitabilidade do Destino), o filme constantemente coloca seus personagens sob a sombra simbólica do cristianismo, como na cena em que o Cabo Tenório faz um anúncio para os cidadãos de sua vila enquanto a Igreja local aparece ao fundo, gigantesca. Da mesma forma, é interessante observar o confronto entre Jesuíno da Cruz (percebam o nome e sua dupla referência ao catolicismo) e sua vítima, que ocorre justamente em frente a um altar. E o que dizer da bela seqüência em que Maria Rosa encontra o Arcanjo em uma boate banhada por uma luz vermelha (e com azulejos da mesma cor), numa clara alusão ao próprio Inferno?

Como é fácil constatar, As Três Marias possui uma temática infinitamente mais ambiciosa do que poderíamos imaginar a princípio, o que sempre é uma grata surpresa. Isso prova que, em algumas ocasiões, um filme não precisa ter um roteiro complexo para permitir que seus espectadores possam discuti-lo a fundo. Basta, apenas, contar com um diretor talentoso.
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30 de Maio de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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