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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/11/2006 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora

Fonte da Vida
The Fountain

Dirigido por Darren Aronofsky. Com: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Cliff Curtis, Sean Patrick Thomas, Donna Murphy, Ethan Suplee.

Fonte da Vida, terceiro longa-metragem do cineasta Darren Aronofsky (depois dos ótimos Pi e Réquiem para um Sonho), é uma fábula filosófica que pode ser encarada como filhote contemporâneo de obras como 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, e Solaris, de Andrei Tarkovsky. Tematicamente ambicioso, o filme faz algumas opções narrativas que nem sempre se revelam eficazes, o que o enfraquece um pouco, mas, ainda assim, merece aplausos por sua inteligência e lirismo.

Escrito pelo próprio Aronofsky a partir de argumento concebido ao lado de Ari Handel, o roteiro narra uma história ambientada em três épocas diferentes: o século 16, o presente e o século 26. Em cada um destes períodos, Hugh Jackman interpreta uma figura envolvida, em maior ou menor grau, com as personagens encarnadas por Rachel Weisz: no passado, ele vive um conquistador espanhol designado para encontrar uma árvore que seria uma espécie de fonte da juventude; no presente, é um neurologista que pesquisa desesperadamente uma cura para o câncer antes que a doença leve sua jovem esposa; e, no futuro, ele surge como uma espécie de astronauta zen-budista que percorre o espaço em um globo transparente que também carrega uma antiga árvore.

Dotado de uma estrutura complexa que pode espantar o público a princípio, mas que eventualmente acaba se revelando elegantemente coesa, Fonte da Vida emprega uma cronologia fluida, saltando de uma época a outra com dinamismo através de pequenas costuras visuais: em certo instante, por exemplo, vemos uma fortaleza do século 16, na qual parte da história se transcorre, somente para percebermos (através de um movimento de câmera) que agora estamos vendo somente um quadro que retrata aquela edificação, já que voltamos ao tempo presente. Da mesma maneira, ao longo da projeção há a inclusão de diversos planos similares uns aos outros que, como pequenas rimas, contribuem para tornar a montagem mais amarrada: planos-detalhe percorrendo textos escritos em papéis pautados; quadros que trazem bocas ingerindo alimentos; e, é claro, aqueles que mostram os dedos de Jackman se aproximando carinhosamente dos delicados pêlos da nuca de sua esposa e dos cílios da casca da tal árvore.

Outra imagem recorrente ao longo de Fonte da Vida é da maravilhosa nebulosa que serve como destino para o astronauta, que também surge, de maneira mais ou menos óbvia, em outros pontos da narrativa, como na clarabóia do centro de pesquisa. Aliás, o tom intensamente amarelado desta nebulosa serve quase como assinatura da fotografia concebida por Matthew Libatique, envolvendo em suas cores o museu de História Maia; sendo projetado por abajures e até mesmo tingindo a fonte dos créditos finais. Além disso, Aronofsky também emprega inúmeros círculos como rima temática e visual, numa referência clara ao ciclo de vida e morte que discute em seu roteiro. Assim, temos o plano plongé que mostra a circunferência perfeita formada pelo vestido da Rainha Isabel; a aliança de Tommy; o próprio globo que serve como espaçonave no século 26; e, é claro, o círculo de luz que envolve a escritora Izzy em um de seus momentos mais delicados.

Propondo uma discussão racional sobre a Morte, o filme busca apresentar uma interpretação desta como algo mais do que apenas o fim da Vida, mas também como reinício (daí os círculos) e libertação. Através das várias encarnações de seus personagens, o roteiro apresenta uma visão otimista, filosófica (em vez de fisiológica), da necessidade de aceitarmos nossa finitude como algo natural e até mesmo desejável – e, mesmo que tenhamos dificuldades em abraçar esta tese, não há como não admirar a maneira elegante com que Aronofsky a apresenta, incluindo-se, aí, o maravilhoso plano no qual o astronauta flutua em direção a uma intensa fonte de luz e que representa, ao mesmo tempo, Morte e Vida, já que o quadro é composto de tal maneira a levar o espectador a associá-lo também com a visão que um bebê teria da luz presente no fim do canal do parto.

Em um ano no qual já encarnou (com o carisma habitual) o mutante Wolverine, homenageou Elvis Presley com a voz do pai de Happy Feet e enfrentou Christian Bale no fantástico O Grande Truque, Hugh Jackman oferece outra grande performance em 2006 como os três (ou dois, dependendo da interpretação de cada um) personagens de Fonte da Vida. Demonstrando um alcance dramático invejável, o ator encarna cada um daqueles indivíduos com intensidade absoluta, partindo do estoicismo de Tomás até chegar à serenidade do astronauta Tom, passando pelo sofrimento absurdo do pesquisador Tommy Creo. Enquanto isso, Rachel Weisz, mais limitada pela forma com que suas personagens são retratadas pelo roteiro, é hábil ao emprestar um encanto notável a Isabel e Izzy, levando o espectador a compreender por que estas inspiram Jackman a tantos sacrifícios. (Por outro lado, o livro escrito por Izzy, apesar de salientar o aspecto de fábula da narrativa, fragiliza o filme por ser desnecessário e por confundir o espectador no que diz respeito à “veracidade” dos incidentes passados no século 16.) Finalmente, Ellen Burstyn, protagonista do filme anterior de Aronofsky, desta vez não tem muito espaço em cena para mostrar seu talento, embora se saia muito bem em seus poucos minutos na tela.

Embalado pela maravilhosa trilha de Clint Mansell (cujo trabalho em Réquiem para um Sonho ainda representa um dos pontos altos da última década), Fonte da Vida talvez seja frio e racional demais para provocar um impacto emocional no espectador – o que não impede que este aprecie, de forma igualmente instigante, a proposta intelectual da obra de Aronofsky.

 23 de Novembro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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