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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/10/2003 30/05/2003 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Uma Saída de Mestre
The Italian Job

Dirigido por F. Gary Gray. Com: Mark Wahlberg, Charlize Theron, Seth Green, Edward Norton, Jason Statham, Mos Def, Gawtti e Donald Sutherland.

Nos últimos dois anos, Mark Wahlberg protagonizou nada menos do que três refilmagens; e, embora as duas primeiras (O Planeta dos Macacos e O Segredo de Charlie) sejam obviamente inferiores aos originais (O Planeta dos Macacos, de 1968, e Charada, de 1963), sua última tentativa, este Uma Saída de Mestre, não deixa nada a dever a Um Golpe à Italiana, estrelado por Michael Caine em 1969. Aliás, a bem da verdade, os dois filmes sequer se parecem: enquanto Um Golpe à Italiana apostava em um clima cômico e no charme repleto de cinismo de Caine, esta nova versão leva sua história a sério e traz Wahlberg como um sujeito extremamente racional e nada irreverente.

Outro detalhe importante: se o tal `golpe na Itália` que originou os títulos em inglês de ambos os filmes só ocorria quase no fim de Um Golpe à Italiana, agora ele acontece logo no primeiro ato da história – e o `trabalho` não ocorre mais em Turim, mas sim na belíssima Veneza (que, ao contrário do que foi visto em A Liga Extraordinária, é corretamente aproveitada desta vez). No entanto, em Uma Saída de Mestre, o grupo liderado por Charlie Croker (Wahlberg) é traído por um de seus membros (vivido por Edward Norton), que acaba assassinando o mentor do herói, o veterano arrombador de cofres John Bridger (Sutherland), e ficando com os 35 milhões de dólares em barras de ouro que foram roubados (no original, eram 4 milhões de dólares – observem o efeito da inflação!). Determinados a vingarem a morte de Bridger (recuperando, no processo, o ouro), os demais integrantes da gangue preparam um elaborado esquema que conta até mesmo com a presença de Stella Bridger (Theron), que, como o pai, também arromba cofres – mas para a polícia.

Mesmo que não invista escancaradamente na comédia, Uma Saída de Mestre possui seus momentos de bom humor – principalmente ao lidar com os interessantes criminosos que trabalham para Charlie, que possuem personalidades distintas e sempre curiosas (na versão de 69, apenas o anti-herói interpretado por Caine se destacava, já que sua gangue contava com mais de uma dúzia de elementos). Apresentando para o espectador fatos marcantes no passado de cada um dos bandidos (em flahbacks curtos, mas hilários), o ótimo roteiro escrito pelo casal Wayne e Donna Powers justifica os apelidos de seus personagens: Rob Bonitão (Statham), Ouvido Esquerdo (Mos Def) e Napster (vivido por Seth Green, que tem alguns dos melhores diálogos e cuja explicação para seu apelido é genial – mas você terá que assistir ao filme para conhecê-la).

Enquanto isso, Mark Wahlberg mais uma vez oferece uma performance contida, mas paradoxalmente intensa, conferindo um forte ar de decência a Charlie Croker – algo importantíssimo, já que o redime junto ao espectador, que acaba ignorando sua `linha de trabalho` por perceber que o rapaz é um sujeito bacana. Além disso, Wahlberg é um daqueles atores que conseguem se mostrar sempre vulneráveis, o que nos leva a questionar o destino de seus personagens (ao contrário do que ocorre, por exemplo, com Vin Diesel, que parece indestrutível). E mais: encontrando um antagonista à altura no vilão de Edward Norton (que aparece com um bigodinho bem canalha), Charlie é obrigado a utilizar toda a sua experiência para tentar enganar um inimigo capaz de antecipar todos os seus movimentos, o que confere uma ótima dinâmica à narrativa – afinal, não há nada mais fascinante do que ver dois indivíduos igualmente inteligentes se enfrentando.

Outro aspecto brilhante de Uma Saída de Mestre é a forma com que o roteiro ilustra a preparação dos `heróis` para o golpe – principalmente quando eles são surpreendidos por complicações que exigem soluções improvisadas (em certo momento, eles têm que descobrir qual, entre três carros-blindados, está transportando o ouro – e a saída encontrada é simples, mas genial). Mantendo o suspense através de um clima crescente de tensão, o diretor F. Gary Gray (auxiliado por seus dois editores) se recupera depois do fraco O Vingador – também lançado em 2003 – e surpreende o espectador a todo momento graças à ação bem coreografada e ao ótimo uso de suas locações (especialmente Veneza).

Como eu já disse no começo, Uma Saída de Mestre faz jus ao original – principalmente por não limitar-se a copiá-lo. É claro que seria impossível criar um desfecho tão irônico e inesquecível quanto o de Um Golpe à Italiana (não há como esquecer de Caine dizendo `Segurem-se, rapazes. Tive uma idéia genial!`). Ainda assim, a conclusão desta refilmagem é apropriada e mais do que satisfatória. De todo modo, é melhor que Mark Wahlberg passe a se concentrar em projetos mais originais. 3 para 1 não é uma estatística favorável.
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26 de Setembro de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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