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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/02/2005 17/12/2004 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Em Busca da Terra do Nunca
Finding Neverland

Dirigido por Marc Forster. Com: Johnny Depp, Kate Winslet, Julie Christie, Radha Mitchell, Dustin Hoffman, Freddie Highmore, Joe Prospero, Nick Roud, Luke Spill, Ian Hart, Eileen Essel, Angus Barnett, Kelly Macdonald.

Peter Pan é um texto absolutamente magnífico. Como toda grande fábula, a história concebida pelo dramaturgo escocês J.M. Barrie cria um mundo imaginativo e fantasioso que, dentro de sua própria lógica, aborda temas universais de indiscutível relevância para seu público – neste caso, a inexorabilidade do tempo (numa das metáforas mais belas da dramaturgia, o crocodilo com um relógio em seu estômago), a tragédia da perda da inocência e a sombra de cinismo que as brutalidades do mundo real projetam sobre todos nós. Portanto, confesso que fiquei bastante ansioso para assistir a este Em Busca da Terra do Nunca, que, assim como o recente Shakespeare Apaixonado (e seu `filhote`, o hilário curta George Lucas in Love), procura retratar o processo criativo de um autor prestes a produzir um clássico.

Escrito por David Magee (a partir da peça de Allan Knee), o filme tem início quando Barrie testemunha o fracasso de sua última montagem teatral, que naufraga já no dia da estréia. Pressionado pelo produtor Charles Frohman (Hoffman, em uma participação curta, mas divertidíssima), o dramaturgo se apressa a escrever um novo texto – e acaba encontrando a inspiração necessária ao conhecer, em um parque, a viúva Sylvia Llewelyn Davies e seus quatro filhos. Conquistado pela vivacidade das crianças, Barrie se torna companhia constante da família Davies, participando ativamente (na verdade, comandando) das brincadeiras dos garotos e se esforçando ao máximo para auxiliar a mãe destes, que se encontra em dificuldades financeiras desde a morte do marido. Ao mesmo tempo, o sujeito lida com o distanciamento cada vez maior da própria esposa, com quem leva uma existência de melancolia e formalidade.

Um dos grandes atrativos do filme reside na forma com que o roteiro abre uma janela para a imaginação de seu protagonista, permitindo que o público compreenda o porquê de Barrie se mostrar tão apático e deslocado em seu dia-a-dia: ao longo dos anos, ele criou em sua mente um mundo ideal de cores e harmonia, completamente livre de problemas – um lugar que ele batizou, com perfeição, de Terra do Nunca – e, ao conhecer os jovens irmãos Davies, Barrie finalmente encontra os companheiros perfeitos para compartilhar esta fantasia. Sim, no mundo científico e corrido em que vivemos hoje em dia, as atitudes do escritor seriam classificadas de maneira impiedosa como `fuga da realidade`, `comportamento anti-social` ou até mesmo `insanidade`. Porém, no início do século 20, mesmo que o pensamento científico já predominasse, havia ainda espaço para uma visão mágica e utópica que hoje – depois de duas grandes guerras, da bomba atômica e das desigualdades cada vez maiores entre países ricos e pobres – se torna impossível.

Aliás, o próprio relacionamento entre J.M. Barrie e as quatro crianças seria inadmissível nos dias atuais – se na época já corriam insinuações de pedofilia (nunca comprovadas, diga-se de passagem), hoje Barrie seria simplesmente estraçalhado pela tal `imprensa marrom` (expressão que, sejamos honestos, agora se aplica à maior parte dos órgãos da mídia). No entanto, Em Busca da Terra do Nunca retrata esta amizade de maneira tão inocente (ainda que mencionando os tais boatos) que jamais questionamos o fato de que, realmente, é no mínimo atípico ver um homem de 43 anos tão envolvido com os filhos de outras pessoas (especialmente se considerarmos que, ao contrário do que o filme mostra, o pai das crianças ainda era vivo na época). Além disso, a aparência sempre juvenil de Johnny Depp contribui para que consideremos natural aquele relacionamento.

Depp, vale dizer, oferece mais uma grande atuação como o criador de Peter Pan. Infinitamente mais contido do que nos recentes (e ótimos) Piratas do Caribe e A Janela Secreta, o ator prova sua versatilidade ao compor o personagem como um homem solitário e introspectivo que só consegue soltar-se na companhia daqueles que, ainda não contaminados pela Sociedade, comportam-se de maneira natural e autêntica, sem auto-censura ou o hábito de julgar seus semelhantes. Determinado a prolongar ao máximo a inocência de seus protegidos, Barrie estimula-os a dar asas à imaginação, preocupando-se especialmente com o jovem Peter (o expressivo garotinho Freddie Highmore), que se tornou precocemente amargo depois da morte do pai.

Infelizmente, apesar de suas várias qualidades, Em Busca da Terra do Nunca também conta com sua parcela de problemas: se por um lado o diretor Marc Forster é hábil ao ilustrar esta rica vida interior de Barrie (gostei particularmente do plano em que a porta do quarto deste abre-se para revelar a Terra do Nunca e da seqüência no navio pirata, com seus efeitos visuais estilizados), por outro entrega-se ao melodrama e ao óbvio ao lidar com o relacionamento entre o protagonista e a mãe dos garotos. Apelando para um dos clichês mais irritantes dos dramas de época, Forster chega a introduzir os problemas de saúde de um personagem através da velha tossezinha, que, nestes filmes, significa invariavelmente uma coisa: tuberculose. É claro que o cineasta merece aplausos por sua habilidade em dirigir um longa tão diferente de seu trabalho anterior (o claustrofóbico A Última Ceia), mas também é inegável que, desta vez, ele tenta forçar a barra para provocar lágrimas no espectador.

Além disso, nem sempre são os problemas que surgem na tela que prejudicam um filme; aqui, por exemplo, algumas das deficiências do projeto dizem respeito ao que não é dito pela história. Embora se concentre na concepção de Peter Pan, por exemplo, o roteiro praticamente ignora a elaboração do texto; quando percebemos, Barrie já finalizou a peça e está em fase de ensaios, o que é, no mínimo, decepcionante. Da mesma forma, a relação do dramaturgo com sua esposa é pobremente desenvolvida, procurando ilustrar, através de pouquíssimos diálogos, a deterioração daquele casamento, soando pouco convincente. Porém, a omissão mais grave de Em Busca da Terra Nunca refere-se à ligação entre Barrie e Sylvia, que é praticamente deixada de lado durante a maior parte do tempo. Ora, devemos supor que em nenhum momento ocorreu ao casal a possibilidade de um romance? Com exceção de uma única referência feita por Sylvia, esta idéia é simplesmente ignorada pelo filme, criando um vácuo emocional no centro daquele relacionamento. Como se não bastasse, J.M. Barrie jamais deixa de ser uma esfinge para o público, já que nunca conseguimos conhecê-lo de fato.

Na vida real, os irmãos Davies viriam a enfrentar várias tragédias, incluindo mortes acidentais, suicídio e – especialmente no caso de Peter – um forte ressentimento com relação à peça que inspiraram. É uma pena que, assim como a existência do pai das crianças, tais acontecimentos sejam ignorados pelo roteiro, que sequer os menciona (o que poderia ter sido feito em um texto final ou em uma ou duas cenas adicionais). Sim, isto certamente mergulharia a conclusão da história em um clima sombrio que mandaria o espectador para fora da sala de exibição com um sentimento de desconforto, o que poderia prejudicar a carreira do filme – mas também representaria uma abordagem bem mais fiel do inesquecível texto de Barrie, que, em meio às brincadeiras e risos, encerrava temas infinitamente mais complexos, tristes e angustiantes.

Em Busca da Terra do Nunca é um bom filme, não há dúvida. Mas, com um pouco mais de coragem, poderia ter sido tão ambicioso quanto o próprio Peter Pan.
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04 de Fevereiro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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