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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/09/2003 25/04/2003 4 / 5 / 5
Distribuidora

Identidade
Identity

Dirigido por James Mangold. Com: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, John C. McGinley, Jake Busey, John Hawkes, Clea DuVall, William Lee Scott, Rebecca De Mornay, Alfred Molina, Bret Loehr e Pruitt Taylor Vince.

Em O Caso dos Dez Indiozinhos, a escritora britânica Agatha Christie contava a história de dez pessoas que eram convidadas a passar o final de semana em uma mansão localizada em uma ilha deserta e que começavam a ser assassinadas uma a uma. Considerando-se as semelhanças entre esta premissa e a de Identidade, é espantoso constatar a ausência de Christie nos créditos do filme, já que a Dama do Crime merecia, ao menos, uma menção pelo argumento da produção.

Não que o roteirista Michael Cooney tenha plagiado a base do livro (ninguém seria tão descarado a ponto de copiar uma obra tão conhecida; na realidade, Cooney apenas utiliza a idéia da escritora como ponto de partida para uma história que se torna original ao seu próprio modo. Quando Identidade tem início, por exemplo, somos apresentados a um psiquiatra (Molina) que está estudando o caso de um serial killer prestes a ser executado – algo que em nada lembra o romance de Agatha Christie. Determinado a provar que o sujeito é mentalmente incapaz, o médico convoca um Juiz no meio da madrugada a fim de convencê-lo a cancelar a sentença.

Enquanto isso, em outro lugar, uma família viaja por uma estrada no meio da escuridão quando o pneu de seu carro estoura – e, por azar, a esposa do motorista acaba sendo atropelada por uma limusine na qual se encontra uma decadente estrela de cinema (que, por ironia, é interpretada por Rebecca De Mornay). Sem conseguir levar a vítima até um hospital, já que as estradas encontram-se alagadas pela chuva, o chofer da atriz (Cusack) encontra um hotel à beira da estrada, onde todos se hospedam – sendo logo acompanhados por outras cinco pessoas: um policial (Liotta) que transporta um prisioneiro (Busey; um casal recém-casado (Scott e DuVall; e uma prostituta (Peet). E, como você já deve ter imaginado, não irá demorar muito até que os cadáveres comecem a surgir...

Compreendendo com inteligência as regras do gênero no qual está trabalhando, Cooney passa a desenvolver o enredo de forma cuidadosa, revelando, aos poucos, os segredos do passado de cada um dos hóspedes. Além disso, o roteirista aborda a trama de maneira tão equilibrada que acabamos ignorando o disparate da situação e mergulhamos sem reservas no intenso clima de tensão da produção. E o que é mais incrível: sem que percebamos, a história se afasta de suas bases no mundo real e introduz elementos sobrenaturais aos acontecimentos, oscilando entre o suspense psicológico e o horror absoluto.

É claro que, eventualmente, o filme procura apresentar uma explicação surpreendente para o que está ocorrendo, como vem se tornando cada vez mais comum em Hollywood (`culpa` do sucesso de Os Suspeitos e O Sexto Sentido), mas o curioso é que, desta vez, a reviravolta não acontece no fim da projeção, mas sim no início do terceiro ato – e, a partir daí, a história ainda prende o espectador por mais 15 minutos, o que é uma façanha admirável (embora, devo dizer, as conclusões apresentadas sejam totalmente absurdas).

Aproveitando o potencial do bom roteiro, o cineasta James Mangold (Cop Land) confere um clima claustrofóbico ao filme, além de extrair excelentes atuações de todo o elenco – especialmente de John Cusack e Ray Liotta, que estabelecem uma relação dinâmica e repleta de química, conferindo ainda mais energia ao projeto. Como se não bastasse, o diretor ainda cria dois dos atropelamentos mais surpreendentes dos últimos anos, superando até mesmo aquele protagonizado por Brad Pitt no início de Encontro Marcado.

Tenso e inteligente, Identidade possui suas falhas, é verdade (como eu disse, o roteiro torna-se excessivamente absurdo em alguns momentos) – mas Agatha Christie certamente ficaria orgulhosa deste seu `filhote`. É uma pena, portanto, que sua influência não tenha sido oficialmente reconhecida. ``

14 de Junho de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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