Dirigido por James Mangold. Com: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, John C. McGinley, Jake Busey, John Hawkes, Clea DuVall, William Lee Scott, Rebecca De Mornay, Alfred Molina, Bret Loehr e Pruitt Taylor Vince.
Em O Caso dos Dez Indiozinhos, a escritora britânica Agatha Christie contava a história de dez pessoas que eram convidadas a passar o final de semana em uma mansão localizada em uma ilha deserta e que começavam a ser assassinadas uma a uma. Considerando-se as semelhanças entre esta premissa e a de Identidade, é espantoso constatar a ausência de Christie nos créditos do filme, já que a Dama do Crime merecia, ao menos, uma menção pelo argumento da produção.
Não que o roteirista Michael Cooney tenha plagiado a base do livro (ninguém seria tão descarado a ponto de copiar uma obra tão conhecida; na realidade, Cooney apenas utiliza a idéia da escritora como ponto de partida para uma história que se torna original ao seu próprio modo. Quando Identidade tem início, por exemplo, somos apresentados a um psiquiatra (Molina) que está estudando o caso de um serial killer prestes a ser executado – algo que em nada lembra o romance de Agatha Christie. Determinado a provar que o sujeito é mentalmente incapaz, o médico convoca um Juiz no meio da madrugada a fim de convencê-lo a cancelar a sentença.
Enquanto isso, em outro lugar, uma família viaja por uma estrada no meio da escuridão quando o pneu de seu carro estoura – e, por azar, a esposa do motorista acaba sendo atropelada por uma limusine na qual se encontra uma decadente estrela de cinema (que, por ironia, é interpretada por Rebecca De Mornay). Sem conseguir levar a vítima até um hospital, já que as estradas encontram-se alagadas pela chuva, o chofer da atriz (Cusack) encontra um hotel à beira da estrada, onde todos se hospedam – sendo logo acompanhados por outras cinco pessoas: um policial (Liotta) que transporta um prisioneiro (Busey; um casal recém-casado (Scott e DuVall; e uma prostituta (Peet). E, como você já deve ter imaginado, não irá demorar muito até que os cadáveres comecem a surgir...
Compreendendo com inteligência as regras do gênero no qual está trabalhando, Cooney passa a desenvolver o enredo de forma cuidadosa, revelando, aos poucos, os segredos do passado de cada um dos hóspedes. Além disso, o roteirista aborda a trama de maneira tão equilibrada que acabamos ignorando o disparate da situação e mergulhamos sem reservas no intenso clima de tensão da produção. E o que é mais incrível: sem que percebamos, a história se afasta de suas bases no mundo real e introduz elementos sobrenaturais aos acontecimentos, oscilando entre o suspense psicológico e o horror absoluto.
É claro que, eventualmente, o filme procura apresentar uma explicação surpreendente para o que está ocorrendo, como vem se tornando cada vez mais comum em Hollywood (`culpa` do sucesso de Os Suspeitos e O Sexto Sentido), mas o curioso é que, desta vez, a reviravolta não acontece no fim da projeção, mas sim no início do terceiro ato – e, a partir daí, a história ainda prende o espectador por mais 15 minutos, o que é uma façanha admirável (embora, devo dizer, as conclusões apresentadas sejam totalmente absurdas).
Aproveitando o potencial do bom roteiro, o cineasta James Mangold (Cop Land) confere um clima claustrofóbico ao filme, além de extrair excelentes atuações de todo o elenco – especialmente de John Cusack e Ray Liotta, que estabelecem uma relação dinâmica e repleta de química, conferindo ainda mais energia ao projeto. Como se não bastasse, o diretor ainda cria dois dos atropelamentos mais surpreendentes dos últimos anos, superando até mesmo aquele protagonizado por Brad Pitt no início de Encontro Marcado.
Tenso e inteligente, Identidade possui suas falhas, é verdade (como eu disse, o roteiro torna-se excessivamente absurdo em alguns momentos) – mas Agatha Christie certamente ficaria orgulhosa deste seu `filhote`. É uma pena, portanto, que sua influência não tenha sido oficialmente reconhecida. 

Um grupo de dez pessoas fica preso em um motel durante uma violenta tempestade. As coisas ficam ainda mais complicadas quando os hóspedes começam a ser assassinados, um por um.