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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/12/2004 12/11/2004 1 / 5 5 / 5
Distribuidora

Bridget Jones: No Limite da Razão
Bridget Jones: The Edge of Reason

Dirigido por Beeban Kidron. Com: Renée Zellweger, Colin Firth, Hugh Grant, Gemma Jones, Jim Broadbent, Jacinda Barrett, Sally Phillips, Shirley Henderson.

O momento mais engraçado (um dos poucos, aliás) de Bridget Jones: No Limite da Razão é aquele em que os dois pretendentes da personagem-título, o advogado Mark Darcy (Firth) e o boa-vida Daniel Cleaver (Grant) lutam desajeitadamente pela honra da garota. Porém, apesar de provocar o riso, a cena é pouco plausível: é difícil acreditar que dois adultos pudessem se comportar daquela maneira - principalmente naquelas circunstâncias. Na realidade, o único motivo para que esta briga tenha sido incluída no filme (já que não aparece no livro de Helen Fielding) é o sucesso obtido pela cena semelhante que acontecia no longa anterior, de forma muito mais crível. E isto resume os motivos por trás do fracasso desta continuação: o que funcionava naturalmente em O Diário de Bridget Jones, graças ao charme despretensioso do roteiro, agora cedeu lugar ao esquemático, a uma cópia sem vida dos elementos que agradaram ao público da primeira vez.

Infelizmente, os problemas já começam no péssimo livro de Fielding, que deixa muito a desejar com relação ao primeiro `diário` da estabanada Bridget. Sem conseguir criar uma história coesa, a autora limitou-se a criar uma série de situações `engraçadinhas` (e forçadas) para trazer a personagem de volta – e, no processo, eliminou boa parte do apelo de Jones. Se antes a garota era retratada de forma sensível, como uma pessoa real com problemas corriqueiros (e também reais), agora ela se transformou em uma caricatura de si mesma; os traços sutis de sua personalidade tomaram conta de seu comportamento e passaram a defini-la por completo. No original, ela era distraída e ansiosa; agora, é uma autêntica mistura de Inspetor Closeau com Woody Allen, mas sem qualquer sugestão de complexidade.

Em O Diário de Bridget Jones, havia um momento em que a heroína compreendia mal um convite e surgia vestida de coelhinha da Playboy em um evento luxuoso – um engano engraçado, mas certamente compreensível (em circunstâncias similares, muitos poderiam ter feito o mesmo). Aqui, no entanto, Bridget parece provocar seus embaraços: quando alguém lhe instrui virar à direita, ela vira à esquerda; quando Mark a chama para esquiar, ela afirma ser ótima no esporte (`O quão difícil pode ser esquiar?`, ela pensa, provando ser menos sensata do que uma criança de 10 anos de idade; e quando ela é convidada para uma festa de gala, maquia-se dentro de um carro em movimento e sequer confere o resultado em um espelho antes de entrar no salão. Ao que parece, a Bridget de No Limite da Razão gosta de meter-se em confusões, o que, obviamente, tira a graça da situação.

Além disso, a moça maluquinha do primeiro filme transformou-se agora em uma mulher neurótica, patologicamente insegura, aborrecida e irresponsável que, além de um terrível gosto para roupas, ainda se revela incapaz de se comportar em público e não vê problemas em deixar seu apartamento virar um chiqueiro. Como se não bastasse, ela passa a desconfiar da sinceridade do namorado simplesmente por ouvir conselhos de seus insuportáveis amigos e – o golpe de misericórdia na paciência do espectador – magoa-se porque Mark não parece disposto a pedi-la em casamento agora que já estão – atenção! – há dois meses juntos. Em outras palavras: quem, em sã consciência, gostaria de namorar alguém como Bridget Jones?

Em contrapartida, No Limite da Razão ganha vida sempre que Hugh Grant surge em cena. Sim, ele é um canalha, mas o filme sabe disso e não tenta retratá-lo como alguém digno de admiração (ao contrário do que faz com Bridget). Infelizmente, sua participação é pequena demais para salvar o projeto, que também desperdiça os simpáticos e talentosos Colin Firth e Jim Broadbent. Aliás, até a ótima trilha sonora merecia um destino melhor.

Mas os problemas de Bridget Jones 2 não se resumem à caracterização da personagem-título: o roteiro, escrito a quatro mãos, não consegue se livrar de algumas das piores idéias que afundavam o livro de Helen Fielding, incluindo a pavorosa seqüência em que a protagonista vai parar numa prisão tailandesa, acusada de tráfico de drogas. Além de absurdamente implausível, este momento O Expresso da Meia-Noite inclui a pior cena do filme: aquela na qual Jones `conquista` as demais prisioneiras com sua `simpatia` habitual e (acreditem ou não) lidera um número musical ao som de Material Girl.

Substituindo a competente Sharon Maguire (que conferiu ritmo e atmosfera ao filme original), a medíocre Beeban Kidron imprime a narrativa com um tom de artificialidade que ajuda a afastar o público. E se você acha que o zepelim da Goodyear visto em A Partilha representava uma das tentativas mais grosseiras de marketing já vistas no Cinema, espere até ver a forma que Kidron utiliza para divulgar a Coca-Cola em No Limite da Razão. Pior do que isso, só a obrigatória montagem na qual a heroína experimenta várias roupas e, é claro, a total falta de timing cômico da cineasta, que destrói até mesmo piadas que poderiam funcionar muito bem (como a seqüência em que Jones `viaja` depois de tomar um chá de cogumelos). Mas, pensando bem, o que os produtores desta continuação poderiam esperar da diretora responsável pelos desastrosos Trazido pelo Mar, Romance de Outono e Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar?

Desde que O Diário de Bridget Jones foi lançado, já ouvi diversas mulheres jovens afirmando serem `iguais à Bridget` – e isto era compreensível, já que, de fato, as angústias da personagem refletiam as dúvidas e apreensões de toda uma geração de `garotas dos anos 90`, financeiramente independentes mas ainda almejando (como todo adulto) encontrarem o `par ideal`. Desta vez, porém, se você ouvir alguém dizendo que se identificou com Bridget Jones, meu conselho é: rompa a amizade. Você não vai querer perder seu tempo com alguém assim.
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02 de Dezembro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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