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Diários de Motocicleta

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Walter Salles. Com: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Susana Lanteri, Mercedes Morán.

Houve um tempo em que usar uma camisa estampada com a inconfundível foto de `Che` Guevara tirada por Alberto Korda em 1960 era algo que tinha significado: o indivíduo em questão poderia estar manifestando desde seu apoio à Revolução Cubana até seu inconformismo com as disparidades sociais existentes em seu próprio país (passando, é claro, por sua declaração de simpatia aos ideais socialistas). Hoje em dia, porém, o rosto barbado de Guevara se transformou, ironicamente, em um mero produto a ser comercializado, e boa parte dos inúmeros jovens que usam itens da `marca Che` não faz a menor idéia de quem foi Ernesto Guevara de la Serna; exibir aquela imagem é simplesmente cool.

Felizmente, é provável que Diários de Motocicleta, mais recente longa de Walter Salles, corrija esta realidade (no mínimo, espero que estas pessoas aprendam o nome de batismo de Che). Baseado nos livros escritos por Guevara e seu amigo Alberto Granado acerca da longa viagem que estes realizaram no início da década de 50, o filme acompanha a trajetória da dupla desde sua partida de Buenos Aires, na Argentina, até a chegada no leprosário situado em San Pablo, na Amazônia peruana. Jovem e prestes a se formar em Medicina, Guevara decide percorrer a América Latina ao lado do amigo bioquímico Granado e conhecer o continente sobre o qual havia apenas lido. Inicialmente equipados com uma moto carinhosamente apelidada de La Poderosa, os dois rapazes enfrentam diversos percalços ao longo da jornada e descobrem um quadro generalizado de miséria e opressão política que seria fundamental na formação ideológica de Che.

Oriundo da classe média alta, Ernesto sofre verdadeiros `choques de realidade` que provocam uma grande transformação em seu modo de enxergar o mundo: a princípio, ele é um jovem como tantos outros, demonstrando ter consciência das desigualdades existentes em seu país, mas sem preocupar-se excessivamente com estas. Assim, suas prioridades iniciais são prosaicas: visitar a namorada em uma cidade próxima e torcer para que ela corresponda aos seus avanços sexuais. Gradualmente, porém, Che e Granado compreendem que as experiências de viagem estão deixando marcas profundas em suas vidas – e, quando encontram um casal obrigado a viajar à procura de emprego, os rapazes mal conseguem esconder o embaraço pela falta de objetivo aparente em sua própria `peregrinação`. Aliás, o roteiro de José Rivera é extremamente hábil ao ilustrar o amadurecimento de Guevara e Granado e o peso cada vez maior que estes parecem carregar nas costas – um feito que nos faz ignorar o caráter episódico da história (um problema praticamente inevitável em road movies).

Interpretando com brilho a dupla de protagonistas, o mexicano Gael García Bernal e o argentino Rodrigo de la Serna (primo em segundo grau do verdadeiro Che) estabelecem uma ótima dinâmica entre Ernesto e Alberto – e a agilidade na troca de diálogos lembra, em certos momentos, a química entre Selton Mello e Matheus Nachtergaele em O Auto da Compadecida. Vivendo Che Guevara pela segunda vez em sua carreira (a primeira foi em uma minissérie produzida para a tevê americana), Bernal empresta uma inconfundível aura de honestidade ao personagem e retrata com talento a mudança experimentada por Che, que, de jovem relativamente ingênuo e com olhar otimista, torna-se um homem sério e amargurado pela triste situação dos humildes sul-americanos. Enquanto isso, de la Serna quase rouba o filme com sua caracterização alegre e cheia de energia, já que Granado é um sujeito vivaz e incrivelmente carismático.

Já experiente em road movies (vide Central do Brasil), o cineasta Walter Salles utiliza as belas locações com a máxima eficiência, transformando a própria América Latina em um personagem do filme (e a fotografia de Eric Gautier é de tirar o fôlego). E o que é ainda melhor: Salles também guia o espectador com segurança através da jornada interior de seus personagens, alterando o tom da narrativa (que se torna menos `leve`) à medida em que os viajantes vão travando contato com a pobreza do continente (e a utilização de figurantes locais acrescenta ainda maior verossimilhança à produção). Além disso, o diretor adota um estilo quase documental ao estudar os abusos cometidos contra a população mais pobre, tendo, como `entrevistador`, o próprio Che Guevara (e a indignação transmitida por Bernal nestas seqüências é digna de aplausos).

Mas, sem dúvida alguma, a seqüência mais eficaz de Diários de Motocicleta é aquela que se passa no leprosário, já que, além de evidenciar ainda mais a humanidade de Guevara e Granado (que compreendem a importância contida em um pequeno gesto de afeto), serve também para ilustrar a crueldade da `chantagem religiosa` imposta pelas freiras que dirigem o lugar, que só fornecem alimentos para aqueles que comparecem às missas dominicais.

E antes que alguém acuse o filme de adotar uma postura `anti-cristã` ou algo no gênero, é importante salientar que a ilha habitada pelas vítimas da hanseníase, apesar de real, serve principalmente como símbolo da segregação determinada pelo poder aquisitivo ou credo de cada um e, neste sentido, o fato é que, infelizmente, a América Latina pode ser vista como uma imensa ilha de leprosos – mas, em vez da enfermidade biológica, somos todos acometidos por males sociais, políticos e econômicos capazes de matar muito mais do que a lepra ou qualquer outra doença conhecida pelo Homem.

Observação 1: O último plano do filme, visto depois dos letreiros que relembram o destino de Che, é inesquecível por trazer a imagem do verdadeiro Alberto Granado – um recurso recentemente utilizado no também excelente Geração Roubada, de Phillip Noyce.

Observação 2: Para saber mais sobre a vida do líder revolucionário, recomendo a leitura do ótimo Ernesto Guevara, Também Conhecido Como Che, escrito por Paco Ignacio Taibo II e lançado no Brasil pela Editora Scritta.

Observação 3 (em 25 de Maio de 2004): Acabo de ler uma outra biografia de Che que nada deixa a dever com relação àquela citada acima. Trata-se de Che Guevara: Uma Biografia, lançada no Brasil pela Editora Objetiva e escrita por Jon Lee Anderson.
``

07 de Maio de 2004

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Em 1952, dois jovens argentinos, Alberto Granado e Ernesto Guevara, decidem se aventurar numa viagem de motocicleta por um continente praticamente desconhecido: a América Latina. A travessia vai mudar, definitivamente, o rumo de suas vidas.

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Avaliações dos Usuários

Suzete Cidreira
Suzete Cidreira 18 de jun. de 2017

A introdução é uma crítica a comercialização da imagem de Che Guevara como um mero produto, destituído de seu significado ideológico e dissociado de seu sentido histórico. Correto. E se fosse hoje, como seria a crítica de Pablo Villaça sobre a imagem de Che Guevara, considerando o avanço da direita e suas ideias conservadoras no mundo? A imagem de Che ainda poderia ser considerada "cool"? Eu penso que não, e que a imagem de Che Guevara é cada vez menos "cool". Por outro lado, quando o crítico quando chama atenção para o fato da maioria desconhecer a história de Che Guevara, inclusive seu nome completo, a crítica é atualíssima. O desconhecimento sobre sua história, assim como a da Revolução cubana, não diminuiu, e o que aumentou foi a sua deturpação. Parece mesmo que há um movimento crescente de desumanização, não só de Che Guevara, mas de qualquer líder revolucionário. E é exatamente por isso que Diários de Motocicleta é um filme necessário. Mas não vou me arriscar na análise do filme porque a crítica de Pablo é perfeita. Ao explicitar a passagem gradativa da leveza ao peso insustentável da consciência, mostra o verdadeiro sentido dessa fase da vida de Ernesto Guevara que, evidentemente, contribuiu para que se transformasse em "Che". Diários de Motocicleta é um dos meus filmes preferidos; é um filme lindo, mais que lindo, eu considero um deslumbre. Num mundo onde o saber foi relativizado e quase aniquilado, nunca se precisou tanto da arte do cinema para resgatar o sentido da História e da humanidade no homem. Nunca se precisou tanto de filmes como Diários de Motocicleta.

Suzete Cidreira
Suzete Cidreira 16 de jun. de 2017

A introdução é uma crítica a comercialização da imagem de Che Guevara como um mero produto, destituído de seu significado ideológico e dissociado de seu sentido histórico. Correto. E se fosse hoje, como seria a crítica de Pablo Villaça sobre a imagem de Che Guevara, considerando o avanço da direita e suas ideias conservadoras no mundo? A imagem de Che ainda poderia ser considerada "cool"? Eu penso que não, e que a imagem de Che Guevara é cada vez menos "cool". Por outro lado, quando o crítico quando chama atenção para o fato da maioria desconhecer a história de Che Guevara, inclusive seu nome completo, a crítica é atualíssima. O desconhecimento sobre sua história, assim como a da Revolução cubana, não diminuiu, e o que aumentou foi a sua deturpação. Parece mesmo que há um movimento crescente de desumanização, não só de Che Guevara, mas de qualquer líder revolucionário. E é exatamente por isso que Diários de Motocicleta é um filme necessário. Mas não vou me arriscar na análise do filme porque a crítica de Pablo é perfeita. Ao explicitar a passagem gradativa da leveza ao peso insustentável da consciência, mostra o verdadeiro sentido dessa fase da vida de Ernesto Guevara que, evidentemente, contribuiu para que se transformasse em "Che". Diários de Motocicleta é um dos meus filmes preferidos; é um filme lindo, um deslumbre. Num mundo onde o saber foi relativizado e quase aniquilado, nunca se precisou tanto da arte do cinema para resgatar o sentido da História e da vida. Nunca se precisou tanto de filmes como Diários de Motocicleta.