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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
08/03/2002 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Assassinato em Gosford Park
Gosford Park

Dirigido por Robert Altman. Com: Michael Gambon, Kristin Scott Thomas, Maggie Smith, Charles Dance, Tom Hollander, James Wilby, Claudie Blakley, Jeremy Northam, Bob Balaban, Ryan Phillippe, Alan Bates, Helen Mirren, Emily Watson, Eileen Atkins, Richard E. Grant, Kelly Macdonald, Clive Owen, Stephen Fry e Derek Jacobi.

Apesar de estar sendo divulgado como um filme do gênero `Quem é o culpado?`, Assassinato em Gosford Park não é uma produção essencialmente policial, mas sim uma sutil comédia de costumes que analisa de forma fascinante a relação entre os nobres britânicos e seus criados, na Inglaterra do período situado entre as duas guerras mundiais – uma convivência de `servidão pomposa`, em que os empregados pareciam ter mais orgulho de sua posição social do que seus empregadores.

Escrito por Julian Fellowes a partir de um argumento concebido por Robert Altman e Bob Balaban, Assassinato em Gosford Park conta uma história que se passa ao longo de um fim-de-semana, quando diversos amigos e parentes do milionário Sir William se reúnem em sua mansão de campo para uma caçada. Porém, todos possuem seus motivos particulares para a viagem: a Condessa de Trentham pretende solicitar um aumento em sua mesada; o Comandante Meredith sonha em oficializar uma sociedade; o Honorável Freddie Nesbitt deseja um emprego; e assim por diante. Além disso, Gosford Park (a mansão) abriga, como não poderia deixar de ser, uma infinidade de empregados – que também têm seus próprios objetivos. É quando alguém é assassinado e um investigador é enviado ao local para desvendar o mistério.

É claro que apresentar esta imensa galeria de personagens ao espectador não é tarefa simples e, assim, a primeira metade da projeção é utilizada para estabelecer cuidadosamente a dinâmica entre os convidados, os criados e – o mais importante – entre estes dois grupos. É interessante descobrir, por exemplo, que cada empregado recebe, entre seus companheiros, o sobrenome de seu patrão; e que é o título de nobreza deste que determinará o lugar de seu pajem ou aia à mesa de jantar da criadagem. Além disso, o roteiro logo trata de estabelecer o óbvio: não há segredo de família (por mais escabroso que seja) que escape aos ouvidos dos criados – principalmente se considerarmos a despreocupação com que os esnobes ingleses do filme discutem seus problemas na frente de seus ajudantes, como se estes fossem apenas parte da mobília (algo que a experiente Condessa de Trentham, vivida por Maggie Smith, não hesita em explorar).

Aos poucos, Gosford Park vai introduzindo alguns elementos clássicos do mistério policial britânico, revelando a constante movimentação em todos os cantos da mansão, cujas sombras parecem estar sempre ocultando alguém. Porém, mesmo depois que o tal assassinato é cometido, o filme demonstra se preocupar menos com o crime em si e mais com a reação que este provoca nos hóspedes de Sir William (e, como bons ingleses, eles tratam o problema como um enfadonho inconveniente, e não como uma tragédia). Aliás, até a presença do detetive e de seu ajudante acaba servindo como desculpa para que o roteiro continue a explorar a relação entre as diferentes classes sociais, já que o inspetor vivido por Stephen Fry age com um esnobismo similar ao de seus nobres suspeitos, enquanto seu assistente trabalha com o zelo dos demais criados.

Caso fosse dirigido por um cineasta menos competente, Assassinato em Gosford Park certamente se tornaria uma bagunça insuportável, já que lidar com tantos personagens é obviamente algo complicado. Felizmente, Robert Altman já demonstrou, em obras como Nashville e Short Cuts, seu talento para lidar com grandes elencos – e, assim, o filme flui de maneira sempre interessante. E mais: Altman estabelece o universo aristocrático de sua história com tamanha eficácia que, em certo momento, até mesmo o espectador fica absolutamente chocado ao testemunhar uma gafe cometida por uma criada durante o jantar.

Como se não bastasse a competência do cineasta, esta produção conta, ainda, com um dos melhores elencos já vistos nos últimos anos e que reúne a elite do teatro e do cinema britânicos. Assim, destacar uma ou outra atuação torna-se tarefa quase impossível, embora Maggie Smith mereça receber esta distinção graças ao hilário pedantismo de sua personagem, o que justifica sua indicação ao Oscar. Em contrapartida, não vejo o porquê de Helen Mirren ter recebido a outra indicação como coadjuvante, já que, apesar de correto, seu trabalho aqui não oferece nada de mais com relação ao restante do elenco (particularmente, acredito que Emily Watson, como a ajudante Elsie, ou Claudie Blakley, como a sofrida Mabel Nesbitt, mereciam mais este reconhecimento).

Por incrível que pareça, Assassinato em Gosford Park seria uma produção infinitamente melhor caso não incluísse o crime em sua história. Ingênua e previsível, a trama policial acaba tirando o foco do roteiro, que até o momento do homicídio vinha desenvolvendo com grande competência sua análise bem-humorada dos costumes da época.

Porém, mesmo não sendo uma obra-prima, o filme envolve com eficiência o espectador. É uma pena, portanto, que a história acabe se levando a sério demais e cometa o mesmo erro de seus lordes e barões ao trocar a alegria despreocupada da criadagem pela elegante frieza da aristocracia.
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10 de Março de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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