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Confissões de Uma Mente Perigosa

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por George Clooney. Com: Sam Rockwell, Drew Barrymore, Julia Roberts, George Clooney, Rutger Hauer, Maggie Gyllenhaal, Jerry Weintraub, Michael Ensign e Richard Kind.

`Eu tive uma idéia para um novo game show, recentemente. Ele se chama O Jogo dos Velhos. Você coloca três idosos no palco, cada um segurando uma arma carregada. Eles avaliam suas vidas, quem foram, o que fizeram e o quão perto estiveram de realizar seus sonhos. O vencedor é aquele que não estourar os próprios miolos. Ele ganha uma geladeira`.

Quando o produtor de tevê Chuck Barris diz a fala acima, em certo momento de Confissões de uma Mente Perigosa, temos a clara impressão de que ele provavelmente não apostaria em si mesmo caso participasse do tal Jogo dos Velhos. Com a expressão cansada e obviamente decepcionado com as próprias realizações, Barris não é um homem feliz, apesar de ter se tornado milionário e famoso em vários países depois de ter criado programas como The Gong Show e The Dating Game (que, no Brasil, deram origem ao Show de Calouros e ao Namoro na Tevê). Acusado – justamente - pelos críticos de televisão por ter provocado uma queda brutal na qualidade da programação das emissoras americanas, Barris sentia-se culpado e envergonhado. Bom, pelo menos, é isso o que ele afirma em seu livro autobiográfico, que deu origem ao filme homônimo. Mas não é só isso: além de narrar os episódios mais importantes de sua vida como produtor de tevê, Chuck Barris ainda alega ter trabalhado como assassino profissional para a CIA durante mais de 20 anos, sendo responsável pela morte de 33 pessoas.

Verdade ou mentira? Apesar de Barris ter confirmado esta versão em várias entrevistas, o fato é que ele seria perfeitamente capaz de ter inventado tudo apenas para chamar a atenção da mídia – ou, o que seria uma explicação mais interessante, como forma de tentar justificar a própria existência: `Eu criei programas apelativos, mas também protegi o mundo da ameaça comunista`, ele parece dizer. Seja como for, o livro do produtor acabou sendo adaptado para o Cinema pela pessoa mais apropriada para a tarefa: Charlie Kaufman, o gênio por trás de Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Aliás, não seria difícil imaginar o roteirista inventando a subtrama sobre a CIA, caso esta já não fizesse parte da narrativa de Barris – basta ver o que ele fez com a obra da jornalista Susan Orlean, que, de tratado sobre orquídeas, transformou-se em uma ácida crítica a Hollywood.

Assim, Confissões de uma Mente Perigosa traz várias cenas aparentemente absurdas, mas que acabam fazendo sentido no contexto das alucinações de seu protagonista – como, por exemplo, no momento em que ele se imagina fuzilando uma cantora pouco talentosa e, a partir disso, cria a base do Show de Calouros. E o que dizer do primeiro encontro entre Barris (interpretado por Sam Rockwell) e sua namorada Penny (vivida por Drew Barrymore), que surpreende pela espontaneidade do casal em uma situação tão inusitada?

Por falar em Barrymore, vale dizer que a garota oferece uma bela atuação neste filme: amalucada e quase ninfomaníaca, Penny poderia ter se transformado facilmente em uma caricatura, mas a atriz consegue evitar a armadilha e converte a personagem em uma figura tocante. Por outro lado, Julia Roberts investe justamente no estereótipo de femme fatale, o que também acaba se revelando uma boa escolha, já que isto fornece a Rockwell a motivação ideal para que Barris se envolva cada vez mais no mundo da espionagem (no qual é introduzido pelo agente interpretado por George Clooney, também eficiente). Enquanto isso, Rutger Hauer, que há um bom tempo não era escalado em uma produção de qualidade, aproveita a chance para criar um personagem misterioso que se transforma em assassino para preencher o vazio espiritual provocado pelo fim da Segunda Guerra Mundial (!). Fechando o elenco, vem Sam Rockwell, que assume seu primeiro grande papel depois de ter brilhado em filmes como À Espera de um Milagre, Heróis Fora de Órbita e O Assalto. Conferindo grande energia a Chuck Barris, o ator sustenta o filme com a segurança de um veterano – e é lamentável que ele não tenha sido indicado sequer ao Globo de Ouro, apesar de ter recebido o Urso de Prata no Festival de Berlim.

No entanto, a ótima direção de atores não é a única surpresa oferecida por Confissões de uma Mente Perigosa, que marca a estréia de George Clooney como cineasta: obviamente influenciado por Steven Soderbergh e pelos irmãos Coen, com quem já trabalhou, Clooney cria transições absolutamente sensacionais ao longo do filme, como no momento em que, através de um zoom in e um zoom out, ele consegue, aparentemente em uma única tomada, avançar no tempo para mostrar Rockwell apresentando a idéia do The Dating Game para os diretores de uma emissora. Aliás, outra bela passagem de tempo ocorre na seqüência em que Chuck Barris visita a NBC ao lado de um guia e decide se tornar funcionário da empresa: também em uma única tomada, Clooney ilustra a passagem dos meses de forma elegante e inventiva. É claro que, em alguns momentos, ele acaba exagerando em seus enquadramentos e nas movimentações de câmera - algo perfeitamente compreensível e perdoável em um diretor estreante, já que, aqui, estes `excessos` não comprometem o ritmo da narrativa (por outro lado, talvez o diretor devesse ter sido mais econômico na edição, já que a subtrama envolvendo o relacionamento entre Barris e Penny se estende um pouco mais do que o aconselhável).

Mesmo sem tentar esclarecer se Chuck Barris realmente trabalhou para a CIA (algo de que duvido), Confissões de uma Mente Perigosa procura conferir um toque de verossimilhança à narrativa ao acrescentar, ao longo da projeção, depoimentos de algumas pessoas que conviveram com o produtor durante sua passagem pela tevê – e, ao falar sobre a `vida secreta` do sujeito, alguém diz: `Isso pode ser verdade ou não`. O curioso é que o mesmo se aplica ao próprio depoimento, que poderia perfeitamente ter sido ensaiado previamente.

Como se vê, os universos de Chuck Barris e Charlie Kaufman são complementares. E igualmente fascinantes.
``

2 de Maio de 2003

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

A história quase verídica do apresentador do “Gong Show”, que dizia ser agente especial da CIA.

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Avaliações dos Usuários

Lucas de Morais
Lucas de Morais19 de jan. de 2026
★★★★4/5

todo mundo doido

User
Usuário19 de jan. de 2021

Onde posso ver este filme novamente?

User
Usuário19 de jan. de 2021

Eu queria muito assistir este filme outra vez mas nao encontro em lugar nenhum, alguém pode me ajudar?