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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/01/2001 26/01/2001 3 / 5 / 5
Distribuidora

A Sombra do Vampiro
Shadow of the Vampire

Dirigido por E. Elias Merhige. Com: John Malkovich, Willem Dafoe, Udo Kier, Eddie Izzard, Cary Elwes, Catherine McCormack, Aden Gillett e Ronan Vibert.

Nosferatu traz um dos mais impressionantes vampiros já criados pelo Cinema – e, ao contrário de Drácula (1931), permanece sombrio e envolvente mesmo nos dias de hoje, superando muitas produções do gênero recheadas de efeitos visuais e trilhas sonoras maniqueístas. Autêntico exemplar do Expressionismo Alemão, o filme foi dirigido em 1922 por F.W. Murnau, que mais tarde viria a comandar os clássicos Aurora e A Última Gargalhada (este, obrigatório para qualquer um que ame a 7ª Arte).

Boa parte dos créditos pela qualidade de Nosferatu pertence, sem dúvida, a Murnau, extremamente hábil na composição de seus quadros. Outra parcela deve ser creditada à forte história concebida por Bram Stoker, na qual o filme é inspirado (apesar de tentar esconder – mal – este fato através da mudança de alguns detalhes, como o nome de seus personagens, já que a viúva do escritor não cedeu os direitos de adaptação). Mas a maior responsabilidade pela longevidade deste clássico cabe mesmo a Max Schreck, ator do teatro alemão que personificou o diabólico vampiro com tamanha energia que sua imagem é conhecida até mesmo por quem jamais assistiu ao filme: careca, com orelhas pontudas, longas unhas e dentes incisivos (não caninos) pontiagudos, seu conde Orlok é, de fato, uma criação apavorante. Mas será que ele era realmente um ator talentoso... ou apenas um vampiro autêntico?

É a partir desta pergunta que o roteirista estreante Steven Katz concebeu A Sombra do Vampiro, cuja história se passa nos bastidores de Nosferatu e gira em torno dos esforços feitos por Murnau para que seu filme atinja o maior grau de realismo possível – chegando mesmo a contratar um vampiro real para interpretar o fictício. Para evitar que os membros de sua equipe se apavorem com este fato, porém, o cineasta inventa uma explicação simples: Schreck é, na verdade, um ator perfeccionista que insiste em utilizar sua maquiagem e em se comportar como o personagem ininterruptamente. Infelizmente para o diretor, no entanto, a criatura não consegue conter sua fome por muito tempo e faz várias vítimas enquanto espera chegar o momento em que se alimentará da atriz Greta Schröder, seu verdadeiro objetivo.

Apesar de contar com uma trama que certamente se prestaria à comédia, A Sombra do Vampiro jamais se entrega ao humor óbvio, comportando-se, na maior parte do tempo, como um filme de terror e apenas ocasionalmente levando o público ao riso. Aliás, mesmo nestes momentos, as piadas parecem surgir de maneira quase involuntária, como se o espectador risse em função do próprio nervosismo e não de uma gag específica (um bom exemplo reside na cena em que Schreck é visto pela primeira vez pelo ator que interpreta sua vítima). Outro bom momento é aquele em que o vampiro agarra um morcego, enquanto conversa com o produtor e o roteirista da produção, e arranca sua cabeça com os dentes – algo que, curiosamente, parece terrivelmente engraçado na ocasião (e que culmina em uma das melhores frases do filme: `Schreck, o teatro alemão precisa de você!`). No entanto, logo depois o roteiro retoma a seriedade ao levar a criatura a opinar sobre o romance de Bram Stoker, revelando a triste realidade de sua condição de `condenado`.

Como pode-se deduzir, dirigir um roteiro complexo como o de Katz não é tarefa fácil: se combinar comédia e terror já é algo complicado, a dificuldade torna-se ainda maior quando o humor é excessivamente refinado, e o suspense, sutil em demasia. Infelizmente, Nicolas Cage (que é grande fã do Expressionismo Alemão e produtor deste filme) não escolheu o melhor candidato ao cargo: em vez de optar por alguém como Steven Soderbergh (cujo trabalho em Kafka o qualificaria para a tarefa) ou Tim Burton, ele acabou escolhendo o inexperiente E. Elias Merhig, cujo único longa-metragem, Begotten (inédito no Brasil), foi lançado há dez anos. O resultado é o esperado nestas circunstâncias: A Sombra do Vampiro é um filme curioso, mas insípido. Dirigido com uma lentidão por vezes irritante (algo que já pode ser constatado nos créditos iniciais), raramente utiliza este seu ritmo em benefício da história ou dos personagens.

Mesmo assim, a produção conta com uma performance maravilhosa de Willem Dafoe, que confere fôlego novo a todas as cenas em que aparece (muitos irão considerar sua atuação `exagerada` demais, mas este é o tom perfeito para recriar um ator do cinema mudo – e expressionista). Na verdade, assim como não conseguimos imaginar Max Schreck por trás do rosto do Conde Orlok, também não podemos visualizar Dafoe por trás do Max Schreck visto em Nosferatu, tamanha sua competência.. Já Malkovich cria um Murnau frenético e obcecado por sua obra – aliás, obcecado em excesso: o cineasta visto aqui certamente teria sido internado em um hospício logo após o término das filmagens, e jamais conseguiria o investimento necessário para produzir seus trabalhos seguintes.

Contando, ainda, com ótimas recriações de certas cenas de Nosferatu, A Sombra do Vampiro vale como curiosidade para os cinéfilos e para os fãs desta obra de F.W. Murnau. Por outro lado, duvido muito que agrade ao público em geral, o que não deixa de ser uma pena, já que, no mínimo, serviria como ótimo incentivo para que o clássico de 1922 fosse redescoberto pelas gerações mais jovens.
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15 de Outubro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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