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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/06/2000 01/01/1970 3 / 5 3 / 5
Distribuidora

Missão: Impossível 2
Mission: Impossible 2

Dirigido por John Woo. Com Tom Cruise, Ving Rhames, Thandie Newton, Dougray Scott, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Rade Serbedzija e Anthony Hopkins.

Desde sua estréia nos Estados Unidos, Missão: Impossível 2 tem sido muito comparado a Interlúdio, clássico do suspense dirigido por Hitchcock em 1946. A lembrança é plenamente justificável: em ambos os filmes, um espião é obrigado por seu superior a enviar a mulher amada para os braços do inimigo a fim de utilizá-la como fonte de informações sobre as atividades deste. Em Interlúdio, o vilão era um nazista que armazenava urânio para construir uma bomba atômica; em M:I 2, trata-se de um antigo espião que pretende se tornar milionário ao espalhar um vírus letal e negociar sua cura.

No entanto, as `coincidências` param por aí, já que o tom adotado por estes filmes é radicalmente diferente: enquanto Hitchcock criou uma trama repleta de cenas incrivelmente tensas (como aquela em Ingrid Bergman percebe estar sendo envenenada), John Woo utiliza a história como uma mera desculpa para brindar o espectador com seqüências de ação absolutamente eletrizantes. Na verdade, ambos os diretores são Mestres incomparáveis em seus respectivos estilos: se Hitchcock utilizava seus movimentos de câmera para ressaltar detalhes que prenderiam seu público à cadeira (como o longo zoom para mostrar uma chave na mão de Bergman), Woo coreografa as perseguições e tiroteios de Missão: Impossível 2 com precisão e técnica invejáveis.

E se a premissa é idêntica, o mesmo não pode ser dito a respeito do caráter dos heróis: em Interlúdio, Cary Grant não se conformava com o fato de Ingrid Bergman ter aceito a missão de se envolver com o inimigo, tornando-se amargo e até mesmo cruel; já em Missão: Impossível 2, Tom Cruise hesita a princípio, mas logo decide partir para a ação sem ficar pensando muito no assunto. Assim, acusar o veterano roteirista Robert Towne de ter plagiado o filme de Hitchcock é compreensível, mas, de certa forma, injusto, já que a trama é o que menos importa aqui (esta afirmação é tão verdadeira que o próprio John Woo confirmou, durante entrevistas, que todas as cenas de ação deste seu último trabalho foram criadas antes do roteiro ser escrito. Assim, Towne foi obrigado a criar uma história que se ajustasse às situações explosivas imaginadas pelo diretor - algo que fica evidente durante o filme).

Além disso, para evitar que esta continuação enfrentasse as mesmas críticas que cercaram o filme original, que tinha uma trama confusa e repleta de buracos, o roteiro procura se manter sempre ao alcance da compreensão do espectador, levando seus personagens a explicar o que está acontecendo a cada dez minutos. E há alguns momentos em que eles chegam mesmo a dizer frases como `Não é tão difícil de entender` ou `Muito simples, não?` - como se o próprio Robert Towne estivesse procurando se certificar de ter alcançado seu objetivo. O resultado inevitável é que Missão: Impossível 2 acaba se tornando um pouco lento em seu segundo ato - o que é uma pena, já que os quinze minutos iniciais e os quarenta e cinco finais são, para usar um clichê mais do que apropriado, `dinamite pura`.

A seqüência que precede os créditos, como na série 007, é intensa e vai direto ao ponto sem perder tempo com explicações desnecessárias: conhecemos o vilão, percebemos como este é cruel e logo somos levados a reencontrar Ethan Hunt, herói do filme original, enquanto este escala uma montanha sem o auxílio de equipamentos (e sem dublês, já que Cruise fez questão de realizar as arriscadas manobras apenas com o auxílio de um cabo - que foi apagado durante a pós-produção, obviamente). Se o filme conseguisse manter este ritmo durante um tempo maior, o resultado seria impressionante. Infelizmente, salvo raras exceções, John Woo opta por esconder suas armas até o ato final, quando Hunt invade o quartel-general do inimigo para recuperar o terrível vírus Quimera (cujo poder de destruição parece ter sido retirado de Epidemia). A partir daí, a ação é ininterrupta e vemos o diretor em sua melhor forma, utilizando todos os recursos que o fizeram famoso: câmeras lentas abundantes; manobras radicais (e absurdas) realizadas sobre motos e carros; armas que parecem ter vida própria ao saltarem de um lado para outro; lutas repletas de acrobacias que desafiam a lei da gravidade; e, é claro, pombos. Tudo perfeitamente sincronizado com a contagiante música-tema criada por Lalo Schifrin, que desta vez recebeu um novo tratamento de Hans Zimmer (é impossível sair do cinema sem assobiá-la!), e maravilhosamente fotografado por Jeffrey L. Kimball, que aproveita ao máximo as belezas naturais da Austrália e de sua capital.

Outro recurso utilizado com fartura em Missão: Impossível 2 compreende a utilização de máscaras que fazem com que os espiões assumam a identidade de seus inimigos com perfeição: o herói se passa por bandido, o bandido se passa por herói e assim por diante. Isso acontece com tamanha freqüência que chega um momento em que o espectador começa a se questionar se está assistindo a um filme de ação ou a uma nova versão de Os Invasores de Corpos. Seja como for, a brincadeira é interessante e, como raramente surpreende, nos dá o `gostinho` de pensar `Eu sabia que não era ele!`. Além disso, é curioso ver John Woo se divertindo com as trocas de identidade (algo comum em seus filmes e levado ao extremo no ótimo A Outra Face).

O fato é que a série Missão: Impossível veio para ficar - e não me espantarei se ela se tornar tão duradoura quanto aquela protagonizada por James Bond. Além de poder contar com diretores diferentes a cada novo exemplar (ao contrário de franquias como O Exterminador do Futuro e Indiana Jones, que estão diretamente associadas ao seus criadores), esta série não precisará sequer ficar presa ao seu protagonista, já que diferentes equipes podem ser montadas em histórias futuras - desde que sempre lideradas por um astro, é claro. Desta forma, Tom Cruise não precisará mais pendurar-se a centenas de metros do chão, podendo se recostar confortavelmente em sua cadeira de produtor e colher os frutos de sua obra enquanto assobia o tema de outra missão bem sucedida.
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22 de Junho de 2000

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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