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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
08/05/1998 25/12/1997 3 / 5 / 5
Distribuidora

Mera Coincidência
Wag the Dog

Dirigido por Barry Levinson. Com Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Dennis Leary, Willie Nelson, William H. Macy, Woody Harrelson, Kirsten Dunst, Craig T. Nelson.

Mera Coincidência é um filme que se beneficia da época em que foi lançado. Se fosse produzido seis meses antes ou depois dos escândalos sexuais envolvendo o Presidente dos EUA, Bill Clinton, seria solenemente ignorado. O filme só se sustenta em função do paralelo entre a situação criada pelo roteiro e a vivida por Clinton.

No filme, o Presidente dos EUA é envolvido em um escândalo sexual 11 dias antes das eleições (das quais já era considerado o vencedor). Para salvar a situação, o enigmático Sr. Brean (De Niro) é chamado. Para distrair a mídia até o dia das eleições, Brean resolve criar uma `situação de guerra` contra a Albânia, um país sobre o qual nada sabe. `Soa ameaçador.`, é sua justificativa para a escolha. Para simular a `Guerra`, ele convoca um produtor de Hollywood, Samuel Motss (Hoffman), que resolve se empenhar neste que será o trabalho mais ambicioso e árduo de sua carreira.

A direção de Levinson é muito boa: ele move sua câmera como se estivesse filmando um documentário ou - o que é ainda mais interessante - o making of daquela `Guerra`. A imagem parece granulada em alguns momentos, como em uma matéria para a TV, e os vários zooms repentinos em direção aos personagens conferem ainda mais a sensação de que estamos vendo os bastidores daquela produção - o que não deixa de ser verdade. Além disso, Levinson jamais revela o rosto do Presidente dos EUA, criando no espectador uma ansiedade para ver como o sujeito é e, ao mesmo tempo, deixando claro que ele poderia ser qualquer um. Ou seja: ele também faz um marketing com a imagem do Presidente, que é justamente o que seus personagens principais estão fazendo.

As atuações são frenéticas, conferindo aos personagens um ritmo dinâmico. Eles não param de falar, pensar ou agir. Estão tentando contornar obstáculos durante toda a história e, assim, precisam ser rápidos. Hoffman, em especial, faz um tipo quase histérico, que em sua ansiedade por conseguir o que deseja atropela as próprias palavras ou as repete ininterruptamente (ele pensa mais rápido do que consegue falar). Suas motivações não são de ordem política, como poderia se supor. Ele não se importa se o Presidente vai ganhar ou perder as eleições - ele só quer ter sucesso em sua produção. Para ele, aquilo é show business.

No entanto, apesar de muita coisa acontecer na tela, não é isso o que o espectador sente. No início, é interessante ver como os personagens respondem às adversidades que surgem à sua frente. Porém, logo a `brincadeira` acaba cansando e tudo parece ser simples demais - é aí que o filme começa a se perder. Se não há conflito, nem obstáculos, qual é a motivação do espectador? Nenhuma. A história mostra um grupo de pessoas atuando para conseguir alcançar um objetivo e, contudo, nenhuma barreira parece impedi-los. É tudo muito fácil.

A `Guerra` criada por Motss se divide em alguns atos (como a estrutura de um filme). O Ato I de Mera Coincidência funciona razoavelmente bem, assim como o Ato I da `Guerra` simulada no filme. Porém, quando o `Ato II` tem início (tanto no filme quanto na produção de Motss), a história piora, e muito. A entrada de Woody Harrelson (um ótimo ator desperdiçado em um papel ridículo) acaba de condenar o filme. O roteiro poderia ter tornado o `herói de guerra` mais interessante - por exemplo: e se ele realmente passasse a acreditar ser um herói? Ou se, ao contrário, ele se recusasse a representar seu papel? Mas não: o que surge é um mero lunático com o qual o roteiro esperava arrancar algumas risadas. Não conseguiu.

Além disso, é difícil para o espectador brasileiro se identificar com a paranóia norte-americana com relação aos `escândalos sexuais` e o modo como eles afetam uma eleição. A questão cultural dificulta ainda mais que Mera Coincidência seja totalmente apreciado por aqui. E como do ponto de vista `entretenimento` o filme também falha, a coisa se complica.

Wag the Dog foi filmado em apenas 29 dias. Talvez um pouco mais de tempo tivesse sido útil para o amadurecimento deste projeto. Aliás, este título, Wag the Dog, é explicado de uma maneira bem interessante logo no início da narrativa. Pode ser entendido, inclusive, como uma batalha entre os Fatos Reais e os Fatos publicados pela Mídia, que nem sempre representam a mesma coisa (qual é mais envolvente: fato ou ficção?). Uma frase interessante que ilustra o que este filme poderia ter sido é dita pelo personagem de Robert De Niro, em certo momento da história. Ao ver uma falsa notícia (e que ele sabe ser falsa) sendo transmitida pela TV, De Niro a aceita como verdade. Quando lhe questionam o `porquê`, ele apenas responde: `É a verdade. Eu vi na TV.`

Em um filme melhor, teria sido uma bela lição.
``

9 de Maio de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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