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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/08/2000 30/06/2000 3 / 5 / 5
Distribuidora

Mar em Fúria
The Perfect Storm

Dirigido por Wolfgang Petersen. Com: George Clooney, Mark Wahlberg, John C. Reilly, William Fichtner, Allen Payne, John Hawkes, Diane Lane, Michael Ironside, Karen Allen, Bob Gunton, Christopher McDonald e Mary Elizabeth Mastrantonio.

O que seria de Titanic sem o romance entre os personagens de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet? Qual teria sido o resultado se James Cameron optasse simplesmente por mostrar o naufrágio e nada mais? A resposta é simples: o filme seria apenas sobre água e gritaria. No entanto, como ao longo das duas primeiras horas passamos a conhecer o jovem casal e a temer por ele, a seqüência que se segue à colisão com o iceberg torna-se ainda mais tensa. Além disso, nossa identificação com os dois acaba nos levando para bordo do navio e, assim, passamos a sofrer por todos os seus passageiros. (`Quando eu saí do cinema não era apenas um espectador fascinado. Eu era um sobrevivente do Titanic`, escrevi em minha crítica sobre o filme).

Infelizmente, Wolfgang Petersen (diretor deste Mar em Fúria) não parece pensar desta maneira: apesar de ter a oportunidade de lidar com um elenco pequeno (a maior parte da história se passa a bordo do barco Andrea Gail, que tem apenas cinco tripulantes), o cineasta não se empenha na composição dos personagens que protagonizam a trama - algo que seria fundamental no clímax do filme.

Baseado em uma história real, Mar em Fúria conta a história de cinco pescadores que são surpreendidos por um dos maiores temporais da História e que ocorreu em 1991 em função de uma rara conjunção de fatores meteorológicos. Depois de se afastarem da costa em busca de mais peixes (`Eu sempre encontro os peixes. Sempre!`, afirma o capitão do barco), os cinco homens acabam encontrando a `tempestade perfeita` em seu retorno para casa - a pequena cidade de Gloucester. Agora, eles terão que lutar contra um mar revolto e ondas gigantescas numa tentativa desesperada de sobrevivência.

O roteiro, baseado no livro homônimo de Sebastian Junger, tem início justamente quando o Capitão Billy Tyne (Clooney) e seus companheiros estão retornando de uma longa viagem, sendo recebidos com extrema euforia por parentes, amigos e demais integrantes da indústria pesqueira. Neste momento, Petersen é hábil ao retratar o alívio sentido pelos familiares dos pescadores: aquele é um trabalho perigoso. E ingrato, já que a tripulação sob o comando do Capitão Tyne não conseguiu pescar muita coisa e, com isso, recebeu bem menos do que o esperado pela viagem. Assim, eles logo decidem partir novamente - algo que quase leva a namorada de Bobby Shatford (Wahlberg), um dos tripulantes do Andrea Gail, ao desespero. Um dos momentos mais tristes de Mar em Fúria é justamente aquele em que vemos os cinco homens deixando os seres amados para trás e partindo em busca de seu sustento.

O curioso é que muitos críticos têm reclamado da primeira hora de projeção, considerando-a `lenta`. Particularmente, eu a considero a melhor parte da narrativa, pois é aí que Mar em Fúria mostra-se um filme envolvente e sensível. Infelizmente, isso é completamente alterado a partir do momento em que Wolfgang Petersen se enamora dos efeitos visuais responsáveis pela tempestade-título. Até então, o diretor procurara rechear o dia-a-dia dos pescadores com pequenos incidentes e conflitos, como na cena em que a mão de Murph (Reilly) fica presa em um anzol e o homem acaba caindo no mar, resultando numa das seqüências mais tensas do filme. Porém, a partir do instante em que a tempestade tem início, o cineasta para de se preocupar com os personagens e investe toda a sua atenção nas ondas gigantes.

Para piorar, o roteiro de Bill Wittliff ainda perde um tempo precioso ao introduzir na história um outro barquinho preso na tempestade. Ora, se nossa ligação com os pescadores do Andrea Gail sequer foi solidificada, como Wittliff espera fazer com que nos preocupemos com os três tripulantes da outra embarcação - aos quais sequer fomos `apresentados`? E o curioso é que a entrada prematura destes novos personagens cria um problema insolúvel para o editor Richard Francis-Bruce, que é obrigado a mesclar as cenas que se passam no Andrea Gail (que alternam dias de calmaria e noites de chuva) com aquelas nas quais vemos o barquinho (onde é sempre noite de tempestade). Uma curiosa linha do tempo, sem dúvida.

Por outro lado, a divisão da ação entre dois focos no clímax do filme permite que Peterson aumente a tensão do espectador ao ficar alternando os acontecimentos que se passam no Andrea Gail com aqueles que se passam a bordo do helicóptero de resgate. Porém, devo dizer que o diretor acaba exagerando ao ressaltar demais a valentia do piloto da aeronave: há um momento em que este se atira no mar várias vezes na tentativa de salvar um colega, e o resultado acaba sendo pouco sutil (minha vontade era a de gritar para a tela: `Já entendi que ele é um herói, sr. Diretor!`). Como se não bastasse a obviedade, a trama é recheada com diálogos repletos de clichês: `Estou com um mau pressentimento`, `Esta será minha última viagem`, `Meus planos para o futuro são...`, ou frases do gênero. Isso para não mencionarmos o péssimo monólogo de Mark Wahlberg no fim da narrativa.

Aliás, pouco pode ser dito com relação ao elenco, já que o roteiro jamais permite que conheçamos estes personagens. De modo geral, no entanto, todos estão corretos (à exceção de Diane Lane, que está péssima como a namorada do mais jovem dos pescadores).

Mar em Fúria podia ter sido um filme inesquecível, mas só não se tornou completamente dispensável por narrar uma história dramaticamente real. Durante toda a projeção senti pena daqueles pescadores - não dos que estavam na tela, devo salientar, mas sim daqueles que inspiraram o livro de Junger. Aqueles, sim, merecem nossas palmas e homenagens. O resto é fantasia barata.
``

30 de Agosto de 2000

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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