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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
10/01/1952 10/01/1952 2 / 5 / 5
Distribuidora

O Maior Espetáculo da Terra
The Greatest Show on Earth

Dirigido por Cecil B. DeMille. Com Charlton Heston, Betty Hutton, Cornel Wilde, Gloria Grahame, Dorothy Lamour e James Stewart.

Não há como negar que o Oscar é um prêmio polêmico: distribuído através de votação realizada entre os integrantes do meio cinematográfico, freqüentemente acaba esquecendo grandes artistas e suas obras. Como ignorar que Alfred Hitchcock jamais foi premiado como Melhor Diretor? (Não estou levando em consideração, é claro, os prêmios por `conjunto da obra`, que funcionam obviamente como um pedido de desculpas tardio feito pela Academia). Como aceitar o fato de que Cidadão Kane foi praticamente ignorado simplesmente porque o magnata William Randolph Hearst assim o exigiu? Como compreender os critérios utilizados ao se conceder a distinção de Melhor Ator para Roberto Benigni que, por melhor que seja A Vida É Bela, simplesmente repetiu o mesmo tipo que vem fazendo há mais de uma década?

O motivo que me leva a constatar o óbvio pela enésima vez é simples: ao rever recentemente O Maior Espetáculo da Terra, senti a terrível frustração de lembrar que esta pretensiosa produção de Cecil B. DeMille tomou o Oscar de Melhor Filme do infinitamente superior Matar ou Morrer, além de conseguir a proeza de tirar o inesquecível Cantando na Chuva da competição. Todavia, não há como evitar absurdos como este em eventos que dependem do julgamento humano, sempre sensível ao que ocorre em determinado momento: assim, era previsível que Cecil B. DeMille visse seu filme sair vitorioso da cerimônia, já que naquela noite também estava recebendo o prêmio Irving G. Thalberg (justamente pelo conjunto de sua obra - quatro anos antes de dirigir seu último e mais marcante trabalho, Os Dez Mandamentos).

Assim, é ironicamente triste constatar que este seu mediano esforço foi o primeiro a lhe render o Oscar de Melhor Filme. Estrelado por um elenco de primeiríssima linha, O Maior Espetáculo da Terra gira em torno da incrível determinação necessária para se manter um circo funcionando. Logo de início, descobrimos que os executivos por trás do espetáculo não querem realizar uma longa temporada, já que isso fatalmente geraria prejuízos. Preocupado com seus artistas, que dependem daquele trabalho para viver, o administrador/gerente/diretor Brad Braden (Heston) convence seus patrões a esticarem a temporada ao contratar um verdadeiro `ás do trapézio`, o mulherengo Sebastian (Wilde). Infelizmente para Brad, isso significa tirar a apresentação de sua namorada, Holly (Hutton), da arena central - algo que a magoa terrivelmente (especialmente por lhe provar que Brad só se preocupa com o show). Decidida a recuperar a atenção do público, Holly passa a se arriscar cada vez mais em suas performances e Sebastian, ao mesmo tempo em que tenta conquistá-la, entra na competição e também realiza malabarismos de tirar o fôlego. O suspense criado por este `duelo` representa alguns dos melhores momentos do filme.

Simultaneamente, somos apresentados ao gentil palhaço Buttons (Stewart). Sempre com uma palavra de consolo para oferecer, ele tem a estranha mania de andar constantemente maquiado - mesmo quando o circo não está se apresentando em lugar algum. O segredo que Buttons esconde é outro ponto positivo da trama (e é dele um dos poucos diálogos memoráveis do filme: `Palhaços são pessoas engraçadas`, ele diz para Holly. `Só amam uma vez`).

Infelizmente, O Maior Espetáculo da Terra também gasta um tempo precioso desenvolvendo uma sub-trama completamente dispensável que foi obviamente criada para justificar o impressionante acidente de trem ocorrido no terceiro ato (algo que poderia acontecer sem a necessidade de se colocar a Máfia na história). Além disso, somos obrigados a escutar uma narração pretensiosa e óbvia que, além de não informar nada de novo, acaba tirando o impacto das cenas em que vemos a enorme quantidade de pessoas necessária para se manter o circo funcionando. Para completar, o triângulo amoroso formado por Sebastian-Holly-Brad funciona de maneira inversa: enquanto o roteiro nos pede para torcer por Brad, é Sebastian quem se destaca como a opção mais divertida para o espectador, já que o personagem de Heston afasta qualquer tipo de simpatia com seu tipo durão (característica constante no trabalho do ator).

Sempre adepto de um bom show, Cecil B. DeMille não poupa o espectador de assistir a vários números circenses - alguns dos quais, sejamos honestos, são muito bons. Porém, também somos obrigados a assistir aos números sem graça dos palhaços (que funcionam um pouco melhor ao vivo) e, o que é pior, a um interminável desfile temático protagonizado por personagens da Disney, cavalos e elefantes. Para tornar tudo ainda pior, o diretor não se cansa de mostrar os rostos `maravilhados` do público que assiste ao espetáculo e estas inserções constantes acabam irritando - além de comprometerem o ritmo do filme (nem as pontas de Bing Crosby e Bob Hope as justificam). Como se não bastasse, DeMille ainda acrescenta dois entediantes números musicais, incluindo um terrivelmente dublado por Hutton e Stewart enquanto saltam em uma cama elástica. Seja como for, os figurinos criados por Edith Head e suas colegas são deslumbrantes e - desta vez, sim - deveriam ter sido premiados com o Oscar (perderam para as roupas de época exibidas em Moulin Rouge).

O Maior Espetáculo da Terra nos reserva, ainda, um impressionante desastre ferroviário. Infelizmente, esta `virada` na trama não combina em nada com o que acontecera até então, parecendo pertencer a um outro filme. Além disso, a radical mudança no comportamento de Holly nos minutos finais é apresentada de forma pouco convincente, demonstrando ser uma óbvia tentativa por parte do roteiro de nos fazer aceitar a resolução de um história de amor que, na verdade, jamais conseguiu atrair nossa atenção.

O Cinema está sempre nos ensinando algo: talvez a lição, desta vez, seja a constatação de que nem sempre um filme deve ser cegamente alardeado como `clássico` - mesmo que tenha recebido o prêmio máximo da indústria e contado com a direção de um dos maiores cineastas da História.
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3 de Julho de 2000

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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