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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/07/1999 28/05/1999 4 / 5 / 5
Distribuidora

Um Lugar Chamado Notting Hill
Notting Hill

Dirigido por Roger Michell. Com: Hugh Grant, Julia Roberts, Rhys Ifans, Hugh Bonneville, Emma Chambers, Tim McInnerny, Gina McKee, James Dreyfus e Alec Baldwin.

Há alguns meses, fotos de Julia Roberts apareceram em jornais e revistas de todo o mundo (incluindo o Brasil) por um simples motivo: ela não havia depilado as axilas. A imprensa também deu bastante destaque à sua conturbada relação (e conseqüente rompimento) com Kiefer Sutherland e, é claro, a todos os seus relacionamentos posteriores. A Internet é recheada de fotos que mostram a atriz em cenas eróticas, supostamente tiradas quando ela ainda estava em início de carreira (tais fotos se tratam, na verdade, de montagens). Seu cachê para atuar em Um Lugar Chamado Notting Hill foi 15 milhões de dólares. Julia Roberts é, em suma, Anna Scott, a personagem que interpreta nesta comédia romântica.

Anna é uma atriz famosa que ganha - coincidência ou não - 15 milhões de dólares por filme. Sempre rodeada por indiscretos repórteres, ela viaja até Londres a fim de divulgar seu mais recente filme, a ficção científica Kelly. Certo dia, ela vai até o bairro londrino Notting Hill e entra na livraria do tímido William, um homem que acaba de se divorciar e cujo inquilino é um galês que, aparentemente, vive realizando estranhas performances nas ruas da cidade. Apesar de reconhecer a atriz, William, com a habitual fleuma britânica, comporta-se como se ela fosse uma simples cliente - o que a agrada imensamente. Minutos depois os dois se reencontram na rua quando o rapaz, por acaso, derruba suco de laranja na roupa da estrela e a convence a ir até seu apartamento a fim de se trocar. A partir daí, surge um complicado romance, já que eles vivem em realidades diametralmente opostas - a celebridade e o anonimato.

Clichês, clichês, clichês... Um Lugar Chamado Notting Hill é repleto deles, desde o `fortuito` reencontro entre o casal de protagonistas (quer algo mais batido do que a velha cena na qual o mocinho entorna algum líquido na roupa da mocinha?) até a cena que encerra o filme (que não vou revelar, mas que é um grande chavão do gênero `romance`). Porém, o fato é que eles não incomodam. Na verdade, esta é uma daquelas histórias que todos sabem como irá terminar - o divertido é o trajeto até o desfecho.

O roteiro, escrito por Richard Curtis, recicla vários elementos de seu trabalho mais famoso, Quatro Casamentos e um Funeral. Lá estão os vários (e estranhos) amigos do herói, passando pelo almofadinha mal-resolvido em sua vida amorosa até chegar ao estranho sujeito com quem o personagem de Grant divide o apartamento (e que no outro filme tratava-se de uma garota). E não é só isso: Curtis também parece ter reaproveitado cenas inteiras, como aquela em que todos se espremem no interior de um carro e uma outra na qual William reúne a turma para se aconselhar. Mas esta `falta de originalidade` também não incomoda: mesmo assim, o filme consegue arrancar boas gargalhadas.

Enquanto isso, Hugh Grant, como o inseguro dono de livraria, basicamente repete o trabalho que realizou em Quatro Casamentos e um Funeral. Na verdade, se a ex-esposa de seu personagem fosse interpretada por Andie McDowell (seu par romântico naquele filme), poderíamos estar falando de uma continuação, e não de um filme `original`. Mas sejamos justos: o ator está igualmente divertido aqui e seu jeito tímido é cativante, apesar de tudo. Para completar, entre ele e Julia Roberts há uma grande química, o que é fundamental para o sucesso do filme: o espectador realmente torce para que os dois terminem juntos. Além disso, o desconhecido Rhys Ifans, que interpreta o repulsivo Spike, protagoniza cenas hilárias, sendo o responsável por alguns dos melhores momentos da história.

A direção de Roger Michell, por sua vez, é bastante irregular, tornando-se insuportavelmente lenta e previsível em algumas ocasiões. Um ótimo exemplo reside na cena em que William perde seus óculos antes de ir ao cinema com Anna Scott. No momento em que está saindo, Spike pergunta se ele conseguiu encontrá-los, ao que o rapaz responde: `Mais ou menos`. Logo em seguida, a câmera de Michell desliza pelo interior do cinema por um tempo longo demais, dando tempo suficiente para que o espectador perceba a piada que está por vir. Em contrapartida, há uma outra seqüência maravilhosa na qual Grant anda desconsolado pelas ruas de Notting Hill enquanto vemos o tempo passando: o outono dá lugar ao inverno e este, à primavera e ao verão. O incrível é que Michell consegue realizar isso em praticamente uma única tomada (apenas um corte é visível nesta seqüência).

O fato é que esta comédia romântica cumpre o que promete: o casal principal vive um belo (e difícil) amor enquanto as risadas são estrategicamente distribuídas ao longo da trama. Para um filme cujos defeitos e virtudes encontram-se apenas equilibrados, o resultado final é acima da média.
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26 de Julho de 1999

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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