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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/11/2000 25/02/2000 2 / 5 / 5
Distribuidora

Jogo Duro
Reindeer Games

Dirigido por John Frankenheimer. Com: Ben Affleck, Gary Sinise, Charlize Theron, Dennis Farina, Danny Trejo, James Frain, Clarence Williams III e Donal Logue.

Se não fosse protagonizado por Ben Affleck, Charlize Theron e Gary Sinise, Jogo Duro certamente pareceria ser um filme produzido diretamente para a televisão. Além de contar com um roteiro batido e repleto de clichês, esta produção ainda traz uma direção pouco inspirada do veterano John Frankenheimer, que, depois do competente Ronin, parecia estar se recuperando do péssimo A Ilha do Dr. Moreau.

Neste filme, Affleck interpreta Rudy Duncan, um sujeito que cumpre pena de seis anos de prisão por furto de automóveis. Depois de receber a liberdade condicional, ele se envolve com Ashley, uma bela garota que costumava se corresponder com seu antigo colega de cela, morto em uma briga de presos. O problema é que para conquistar a moça, Rudy acaba se passando por Nick, o amigo falecido - e tudo se complica quando o irmão de Ashley resolve obrigá-lo a participar de um arriscado assalto a um cassino em que o verdadeiro Nick trabalhou. Sem poder fugir ou procurar a polícia, o rapaz terá que enfrentar a violência da quadrilha que o seqüestrou ao mesmo tempo em que tenta salvar a namorada.

Jogo Duro foi escrito por Ehren Kruger, um roteirista que adora rechear suas tramas com reviravoltas inesperadas e personagens ambíguos. No entanto, se isso funcionou maravilhosamente bem em O Suspeito da Rua Arlington (e, em menor escala, em Pânico 3), desta vez, Kruger exagerou: as revelações feitas ao longo da trama de Jogo Duro são tantas que, em vários momentos, o filme é `interrompido` para que seus personagens possam explicar o que está acontecendo. Apesar da primeira destas surpresas ser relativamente interessante, as restantes soam inverossímeis e, no final, acabam não se encaixando totalmente (uma segunda visita ao filme certamente revelará diversos `furos` no roteiro). Para piorar, o roteirista não conseguiu encontrar uma maneira original de desenvolver a história, optando por utilizar o velho (e irritante) clichê do `bandido-que-explica-todo-o-seu-plano-ao-mocinho-antes-de-matá-lo`. Como isso acontece várias vezes ao longo do filme, o resultado é ainda mais constrangedor.

Como se não bastasse, os personagens de Jogo Duro se dividem em dois tipos: os unidimensionais (como o caricato vilão de Gary Sinise, que chega até mesmo a manter os olhos arregalados para criar um tipo ameaçador) e os incoerentes (que desenvolvem um comportamento praticamente `esquizofrênico` ao longo da trama, mudando de atitude o tempo todo). Nesta última categoria, encaixa-se justamente o mocinho interpretado por Affleck, que alterna momentos de coragem e irreverência com outros de covardia e pânico, sem conexão aparente entre estas mudanças. Há uma cena, por exemplo, em que Rudy é torturado por Gabriel (Sinise), que atira diversos dardos em sua direção. No entanto, depois de demonstrar um enorme medo do sujeito (algo compreensível), o rapaz parece esquecer o sentimento já na cena seguinte, quando faz diversas piadinhas às custas do vilão (e na frente deste).

A verdade é que o roteiro de Kruger e a interpretação de Affleck parecem estar sempre em conflito com relação à personalidade do protagonista: logo no começo, o roteirista chega ao ponto de mostrar Rudy aconselhando outro presidiário a ignorar a presença de uma barata na gelatina: `É só proteína`, diz o rapaz (uma atitude que se encaixaria melhor em filmes como Papillon ou Rebeldia Indomável do que em Jogo Duro, já que, em nenhum momento, fui convencido de que o personagem de Affleck realmente comeria baratas sem maiores problemas). O fato é que Kruger quer nos mostrar a figura de um jovem durão e irreverente, enquanto Affleck procura criar um tipo comum, mais humano. O resultado, como não poderia deixar de ser, é um dos mais fracos desempenhos do ator.

E mais: o roteiro ainda se dá ao luxo de tentar ser engraçado, criando situações em que os capangas de Gabriel aparecem como sujeitos desajeitados e cheios de opiniões esdrúxulas. `Desde que vocês começaram a freqüentar a escola noturna, vivo com dores-de-cabeça`, diz Sinise, em certo momento. De imediato, posso citar dois problemas neste tipo de abordagem: além de grande parte das piadas não ter graça alguma, elas são feitas por personagens cruéis que, obviamente, não contam com a simpatia do espectador. E seria ainda pior se estas piadas funcionassem, já que poderiam despertar um interesse pelos bandidos - o que complicaria ainda mais o desenvolvimento da trama.

Mas o equívoco na compreensão do material não foi cometido apenas pelo diretor John Frankenheimer. Por incrível que pareça, até mesmo o formidável Alan Silvestri desliza em sua trilha sonora, criando temas leves para cenas tensas, como nos momentos que antecedem a primeira visita de Rudy ao cassino que será roubado: ao invés de ficarmos ansiosos, antecipando o que vai acontecer, somos levados a relaxar, como se tudo estivesse bem - o que, evidentemente, compromete o suspense.

Ora, o que estou dizendo? De qualquer forma, Jogo Duro não conseguiria criar um clima de suspense mesmo que a trilha fosse composta pelo próprio Bernard Herrmann: afinal de contas, a narração (completamente dispensável, por sinal) de Ben Affleck já é o bastante para que o espectador saiba como o filme irá acabar. Esta é, sem dúvida, a falha derradeira de um projeto repleto de equívocos.
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26 de Novembro de 2000

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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