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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/09/1992 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
131 minuto(s)

Os Imperdoáveis
Unforgiven

Dirigido por Clint Eastwood. Com: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Thomson e Anthony James.

Clint Eastwood teve bons professores. Entre eles, Sergio Leone e Don Siegel, diretores freqüentes em sua carreira. O resultado de seu aprendizado se vê em Os Imperdoáveis, um de seus melhores desempenhos como ator e diretor.

Já era patente que Eastwood seria um grande diretor. Sua estréia na direção, com Perversa Paixão (Play Misty for Me, 1971), foi um sucesso de crítica. Após ligeiros altos e baixos (mais altos que baixos), Eastwood recebeu sua primeira indicação ao Oscar 21 anos depois, por este Os Imperdoáveis. E levou o prêmio para casa.

Neste filme, ele faz William Munny, um antigo pistoleiro que tenta esquecer seu passado violento. Mas viúvo, pai de dois filhos e sem dinheiro, Will se vê obrigado a aceitar a proposta que recebe do jovem Schofield Kid (Woolvett): matar dois vaqueiros que retalharam o rosto de uma prostituta. O prêmio: 1000 dólares. Mas Will já não se sente mais o mesmo de antigamente, e resolve chamar seu antigo parceiro Ned (Freeman, perfeito mais uma vez. Aliás, quando é que a Academia vai reconhecer seu trabalho e lhe dar um Oscar?). Juntos, estes três homens partem atrás da recompensa prometida pelas prostitutas e, no caminho, acabam se deparando com o violento xerife Little Bill (Hackman).

Os Imperdoáveis não é um faroeste qualquer. Vejamos o `mocinho`, por exemplo: Munny é um homem torturado pelo passado, corroído pelo remorso de seus atos criminosos. Poderia ser, na verdade, um envelhecido `Homem Sem Nome`, personagem que Eastwood interpretou nos filmes de Leone. Munny, um homem que vivia bêbado e arranjando confusão, foi regenerado pelo amor de sua esposa Claudia. Quando esta morre, sua vida perde o sentido. Perdido, sentindo o peso da idade nas costas, ele parte em busca do dinheiro prometido como recompensa, mas a verdade pode ser outra: talvez ele esteja correndo atrás de sua própria destruição. Ou redenção. Ou ambos.

Já o xerife interpretado por Gene Hackman é um homem com idéias simples e objetivos humildes: construir sua casinha com uma varanda onde possa assistir ao pôr-do-sol. Porém, por baixo desta fachada pacata se esconde um homem vaidoso, que busca constantemente a posição de `melhor`. Quando `rouba` o biógrafo de um outro pistoleiro (interpretado magnificamente pelo sempre ótimo Richard Harris), Little Bill vê sua oportunidade de se tornar conhecido, e não a desperdiça. Passa a aproveitar todos os momentos para impressionar o escritor que o acompanha.

Outra peculiaridade do filme está no papel desempenhado pelas mulheres: Eastwood não se restringe a mostrar a típica mulher `de faroestes`: histérica, sempre apática e inexpressiva. Veja, por exemplo, as prostitutas: depois que uma delas é retalhada, elas resolvem procurar vingança a todo o custo. O curioso é que a própria vítima das agressões não se mostra tão ansiosa em se vingar quanto as demais. Parece que suas `colegas` resolvem lidar com o episódio como uma forma de expressar seu descontentamento e frustração com a vida que levam. Outro momento em que o papel da mulher no passado fica patente acontece na cena em que Ned parte com Munny atrás dos vaqueiros e, enquanto os homens se afastam, a câmera focaliza o rosto frustrado e tenso da esposa de Ned, impotente diante da decisão do marido. Um belo momento, sem dúvida.

O roteiro de David Webb Peoples é preciso, não se perdendo em uma infinidade de possíveis clichês. Apesar de inteligentes, os diálogos não resvalam no `pseudo-intelectualismo`, que soaria falso saindo da boca de personagens tão embrutecidos. Em certo momento, por exemplo, o jovem Schofield Kid está desesperado por ter matado alguém pela primeira vez. Ele procura auxílio em Munny, mas este só tem uma coisa a dizer: `Tome um trago, garoto`. Em sua lógica simples e coerente, ele disse a única coisa que se poderia esperar de um personagem destes. Ponto para Webb Peoples.

A fotografia e a reconstituição de época são perfeitas, assim como a direção segura de Eastwood. Porém, o filme escorrega em alguns pontos: quem é a prostituta Delilah, afinal de contas? O que ela quer? Por que não se manifesta? Além disso, é claro que, a uma certa altura do filme, Clint Eastwood volta a ser Clint Eastwood e deixa as agruras do passado de seu personagem para trás.

Mas são deslizes pequenos demais para comprometer a qualidade deste filme que é dedicado aos dois grandes `professores` de Eastwood: Sergio Leone e Don Siegel, que já haviam morrido quando o filme foi feito. Uma bela homenagem de Clint, sem dúvida.
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5 de Novembro de 1997

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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