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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/12/2000 14/04/2000 4 / 5 5 / 5
Distribuidora

Psicopata Americano
American Psycho

Dirigido por Mary Harron. Com: Christian Bale, Willem Dafoe, Chloë Sevigny, Cara Seymour, Samantha Mathis, Jared Leto, Matt Ross e Reese Witherspoon.

Muitas pessoas têm associado a temática de Psicopata Americano à mentalidade individualista que caracterizou a sociedade norte-americana nos anos 80. Talvez seja mais confortável pensar desta maneira; no entanto, a verdade é bem diferente: este filme (e seu perturbado protagonista) poderia perfeitamente ter sua ação situada nos dias de hoje - e poderia se passar não apenas nos EUA, mas em praticamente qualquer outro país.

A (triste) verdade é que vivemos em um mundo cada vez mais dominado pelo conceito do `eu` - e que, por ser assim, é propício para o cultivo de todos os vícios narcisistas imagináveis. A idéia de competição jamais foi tão praticada como nos dias de hoje, e a própria Internet contribuiu para isso - nada mais natural em uma realidade na qual fortunas são feitas e perdidas da noite para o dia. Assim, é compreensível que os personagens principais desta nova economia (ou seja, qualquer pessoa entre 15 e 70 anos de idade) muitas vezes se encontrem `perdidos`, sem referência. Aliás, há uma cena em Psicopata Americano que ilustra isso com perfeição: sentados em uma imponente sala-de-reunião, vários jovens executivos (os chamados yuppies) comparam seus cartões-de-visita com absoluta arrogância (a metáfora fálica é óbvia).

Em um mundo onde o poder chega antes da maturidade, são detalhes superficiais como este que contam - assim como saber quem possui o carro mais caro; o apartamento melhor localizado; e por aí afora. Com o decorrer do tempo, estas pessoas atingem uma total ilusão de grandeza e onipotência. Como disse Tom Wolfe em seu excepcional livro A Fogueira das Vaidades, eles são `Mestres do Universo`. Mas não se iluda: pessoas assim não são encontradas somente nas diretorias das grandes corporações; exemplos mais próximos podem ser facilmente citados: de imediato, lembro-me dos quatro rapazes de Brasília que atearam fogo em um mendigo, numa demonstração de total desprezo pelos meros `mortais`.

E assim chegamos a Patrick Bateman, o protagonista de Psicopata Americano (interpretado de maneira brilhante por Christian Bale): habituado a ser um destes `Mestres do Universo`, o bem-sucedido (financeiramente) rapaz possui um traço de caráter que o torna ainda mais temível: sede de reconhecimento. Para Bateman, de nada vale ser `dono do mundo` se as outras pessoas não sabem disso: ele quer ser apreciado, admirado (não é à toa que ele adora quando alguém lhe pergunta sua profissão). Seu apartamento, curiosamente desprovido de decorações rebuscadas ou objetos pessoais (como fotos de família), é um claro reflexo de sua falta de personalidade: o sujeito brilha com luz artificial, e sua aparência bem-tratada não encontra ressonância em seu caráter.

E é aí que o filme nos surpreende (atenção: o restante deste texto revelará detalhes sobre a trama de Psicopata Americano): ao descobrirmos que toda a história foi narrada a partir do ponto-de-vista do personagem, descortinamos uma realidade bem mais plausível (e patética) do que os `banhos de sangue` que Bateman promove ao ser confrontado por seus adversários. Na verdade, o rapaz não passa de um sujeito inseguro que projeta todas as suas fantasias de sucesso em um mundo imaginário no qual é o Senhor Supremo. Se na `vida real` ele apaga-se (não é à toa que várias pessoas o confundem com um colega), em seu universo particular ele é capaz de realizar atos extremos. Sua covardia, no entanto, permanece latente e acaba materializando-se em seus confrontos com o detetive (possivelmente imaginário) vivido por Willem Dafoe: este é, durante um certo tempo, seu último limite moral; a lembrança de que há regras que devem ser respeitadas.

Do ponto de vista narrativo, a diretora Mary Harron desempenha admiravelmente bem seu papel, criando um encadeamento lógico que, analisado em retrospecto, expõe a linha de raciocínio de Bateman (os méritos também cabem ao roteiro, co-escrito por Harron e Guinevere Turner): em certo momento, o rapaz assiste a um filme pornográfico (envolvendo lésbicas) e, pouco depois, se imagina torturando prostitutas (durante um ménage à trois; mais tarde, uma exibição de O Massacre da Serra Elétrica é seguida por um acontecimento semelhante em suas ilusões. Além disso, ao conferir tons farsescos a certas cenas, Harron salienta o ridículo do personagem ao mesmo tempo em que torna a experiência menos grotesca para os espectadores mais sensíveis (a cena do `estrangulamento` no banheiro me vem à mente).

Bateman é, portanto, o tipo de serial killer com quem o público de hoje talvez tenha maiores chances de se identificar: seus crimes são ilusórios e atuam como válvulas-de-escape para suas frustrações. Quem nunca imaginou estar se vingando de um desafeto? É claro que as fantasias de Bateman atingem um grau extremo (eu, particularmente, jamais me imaginei aplicando um golpe de machadinha em alguém), mas isso é outra história, já que este personagem obviamente possui graves distúrbios de personalidade (o que torna tudo real para ele). O fato é que todos possuímos (e precisamos de) uma espécie de `demônio interior` que sublime nossas maiores ansiedades - o que me faz lembrar de uma frase que alguém me disse com relação a Clube da Luta: `Dentro de cada Edward Norton pacífico e sociável há um Brad Pitt rebelde e destrutivo querendo emergir`.

E é esta complexidade que nos torna humanos.
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20 de Fevereiro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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