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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/07/2001 06/04/2001 4 / 5 / 5
Distribuidora

Profissão de Risco
Blow

Dirigido por Ted Demme. Com: Johnny Depp, Penélope Cruz, Jordi Mollà, Rachel Griffiths, Paul Reubens, Franka Potente, Cliff Curtis, Ethan Suplee e Ray Liotta.

Qualquer diretor que resolva transformar um traficante de drogas em herói de um filme dramático enfrentará um grande problema: como fazer com que o espectador se identifique com o personagem sem parecer estar fazendo apologia às drogas? A saída encontrada por Ted Demme em seu Profissão de Risco não foi das mais brilhantes: em certo momento, um personagem aparece dizendo que `nada daquilo valeu a pena`. No entanto, o tal indivíduo só faz esta afirmação em função de seu próprio fracasso - o que acaba passando a idéia de que o tráfico teria valido a pena caso ele não tivesse sido preso. Com isso, o resultado alcançado por Demme é ambíguo: o filme realmente nos leva a simpatizar com seu protagonista, mas, no processo, somos obrigados a ignorar a gravidade dos atos que este comete.

Inspirado em uma história real, o roteiro gira em torno de George Jung, o homem que, na década de 70, `levou a cocaína para os Estados Unidos`. Interpretado por Johnny Depp, Jung é retratado como um sujeito simpático que tornou-se traficante por puro comodismo: usuário compulsivo de maconha, ele resolve vender a droga como forma de poder sustentar o próprio vício: `Se vendermos o carregamento, faturamos uns cem dólares. Se não vendermos, fumamos tudo`, seu melhor amigo lhe propõe. Para seu próprio espanto, porém, Jung logo torna-se um grande distribuidor da erva, o que eventualmente o leva à cadeia - onde ele acaba mergulhando ainda mais no crime: `Entrei na prisão com bacharelado em maconha e saí com doutorado em cocaína`, ele explica. Já livre, o sujeito passa a traficar droga produzida pelo cartel de Pablo Escobar e é obrigado a enfrentar um mundo de violência e traições.

Da forma como é retratado pelo filme, Jung jamais parece agir de má-fé, como se o seu maior pecado fosse, simplesmente, sua natureza inconseqüente. Aliás, Ted Demme chega mesmo a evitar mostrar o personagem cheirando cocaína, com o claro propósito de não afastá-lo do espectador - embora todos os demais personagens do filme constantemente o façam e, mais tarde, descubramos que o próprio Jung chegara a bater recordes de consumo da droga. Além disso, o filme retrata os traficantes como uma espécie de `grande família`, onde até mesmo o fornecedor mexicano de maconha faz questão de comparecer a um enterro nos EUA como demonstração de solidariedade. Aliás, até a fotografia de Ellen Kuras ajuda a passar esta idéia, já que o cotidiano de Jung é visto sempre de forma clara e bem iluminada (excetuando-se, é claro, a escura seqüência que se passa na prisão). Como se não bastasse, até o próprio Pablo Escobar parece agir de forma honrada - mesmo quando é `obrigado` a matar um informante.

Em um elenco repleto de atuações estereotipadas (até mesmo as competentes Rachel Griffiths e Penélope Cruz exageram na dose), o destaque fica por conta de Ray Liotta - o que é uma grande surpresa, já que este ator é conhecido por suas interpretações carregadas. Como pai do personagem de Johnny Depp, no entanto, Liotta se sai admiravelmente bem, despertando a simpatia do espectador graças à sua insistência em compreender as escolhas feitas pelo filho. Depp, por sua vez, cria o que poderíamos chamar de `traficante boa-praça`, em nada lembrando a frieza e crueldade de criminosos como Scarface ou Al Capone, entre outros criminosos célebres do cinema (e da vida real, obviamente). Na verdade, Profissão de Risco vai mais além e tenta levar o espectador a sentir pena de Jung, como se este não tivesse provocado a própria decadência (sua esposa acaba sendo retratada como a responsável por isso).

Em certo momento do filme, cheguei a me flagrar torcendo para que Jung conseguisse traficar cocaína para os Estados Unidos, esquecendo-me, momentaneamente, das pessoas que seriam vitimadas por seu uso, capaz de provocar morte e sofrimento. Assim, não posso negar que Profissão de Risco é bem-sucedido: seu protagonista desperta simpatia. Isso é motivo de orgulho? Duvido muito.

No final das contas, prefiro pensar que este filme gira em torno de um pai que sofre ao ver o filho mergulhando em uma realidade de vícios e crimes, mas que decide `aceitá-lo` em função de seu amor incondicional. Só assim poderei admitir ter gostado muito de Profissão de Risco sem ter que me sentir culpado.

Observação acrescentada em Julho de 2003: `Escrevi a análise acima em 2001. Em Janeiro de 2002, o diretor Ted Demme faleceu em função de uma overdose de cocaína. Assim, isso não deixa de ser uma triste constatação do fato de que, de uma forma ou de outra, a visão de Demme com relação às drogas era realmente comprometida - o que, como apontei, reflete-se no filme.
``

24 de Maio de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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