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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/07/2000 04/02/2000 2 / 5 1 / 5
Distribuidora

Pânico 3
Scream 3

Dirigido por Wes Craven. Com David Arquette, Courteney Cox Arquette, Neve Campbell, Parker Posey, Patrick Dempsey, Scott Foley, Lance Henriksen, Emily Mortimer, Deon Richmond, Jenny McCarthy, Matt Keeslar, Kelly Rutherford, Patrick Warburton e Liev Schreiber.

É interessante observar as mudanças sofridas pela série Pânico desde o lançamento do primeiro exemplar, em 1996. Genuinamente inteligente e assustador, o filme original fazia referências divertidas ao gênero `terror` ao mesmo tempo em que se encaixava perfeitamente neste mesmo estilo. Já Pânico 3 faz referências mais do que apropriadas a obras como Se7en e A Morte Num Beijo - afinal, é isso que o capítulo final desta trilogia é: um filme policial no estilo `adivinhem-quem-é-o-assassino`, só que com uma diferença básica: a cada vez que o criminoso aparece, um acorde alto surge na trilha sonora para assustar a platéia.

Desta vez, a ação da história foi transferida da cidadezinha de Woodsboro para Los Angeles, onde a terceira parte da franquia A Punhalada (o filme-dentro-do-filme) está sendo gravada. Como de hábito, a seqüência que antecede os créditos mostra o elaborado assassinato de um casal. Infelizmente, a decepção já começa aí: ao contrário da jovial Drew Barrymore ou da assustadiça Jada Pinkett, o roteiro nos reserva a morte de Cotton Weary (Liev Schreiber), um personagem que já não era muito simpático no filme anterior (o que diminui o impacto da cena). Além disso, Wes Craven não consegue recriar a fantástica tensão presente na morte de Barrymore em Pânico.

Logo em seguida, descobrimos que Sidney (Neve Campbell), a heroína da série, se afastou de tudo e de todos e vive solitariamente em uma casa-de-campo protegida por cercas elétricas (que não devem adiantar muito, já que têm apenas um metro de altura). Enquanto isso, a repórter Gale Weathers (Courteney Cox Arquette) começa a investigar a morte de Cotton e, com isso, passa a freqüentar os bastidores da produção de A Punhalada 3, onde reencontra Dewey (David Arquette), que trabalha como consultor técnico do filme. É quando ocorre um novo crime e todos descobrem que o(a) assassino(a) está matando de acordo com a ordem estabelecida pelo roteiro do projeto. O problema é que várias versões foram escritas a fim de manter o final `fora da Internet` (o que, particularmente, julguei uma tirada excelente) e ninguém sabe quem morrerá em seguida. Logo, porém, Ghostface começa a elaborar sua própria versão do roteiro e, em uma cena, a envia por fax para as vítimas em potencial.

Wes Craven já brincou com este tipo de história - muito melhor, diga-se de passagem - em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, que contava com um roteiro bem mais interessante e assustador do que o deste último exemplar da série Pânico (que, ao contrário dos anteriores, não foi escrito por Kevin Williamson). Para se ter uma idéia, a única cena realmente capaz de provocar arrepios em Pânico 3 é aquela em que Sidney sonha com a mãe morta (mas sejamos sinceros: é sempre um mau sinal quando um filme precisa incluir um pesadelo em sua trama para assustar a platéia). Para piorar, as `cenas de morte` são repetitivas e sem originalidade - e, volto a repetir, sempre dependem da trilha sonora para funcionarem como `sustos`.

No entanto, o que mais desaponta neste filme é a maneira com que ele parece se entregar a todos os lugares-comuns satirizados no primeiro exemplar: aqui, os personagens se separam a todo momento sem maiores explicações e Sidney insiste em dar as costas para janelas e portas sempre que está sendo perseguida. Além disso, enquanto Kevin Williamson demonstrava ser um profundo conhecedor dos clichês do gênero, o roteirista Ehren Kruger falha ao tentar captar a essência das trilogias - e, assim, as `regras` citadas por Randy (que volta em um vídeo do tipo `se vocês estão vendo isto é porque morri` - outro terrível clichê) são bobagens que nem sempre se aplicam.

Mas Pânico 3 também possui virtudes: a idéia de ambientar uma das cenas de perseguição em uma sala repleta de figurinos de Ghostface é excelente - ainda que tenha sido mal aproveitada por Craven, que se saiu bem melhor na tensa seqüência em que Sidney é perseguida nos cenários que retratam Woodsboro (uma das melhores do filme). Além disso, as pequenas participações de Roger Corman, Carrie Fisher, Jay e Silent Bob são divertidas - apesar de não acrescentarem nada à história.

Quanto ao final... bem, só posso dizer que é, sem dúvida alguma, o pior da trilogia. O(a) assassino(a) simplesmente não convence e sua (extensa) explicação sobre seus motivos é absurdamente ilógica. Além disso, sua identidade parece ter sido escolhida absolutamente ao acaso, como se todos os nomes tivessem sido jogados dentro de um chapéu e Craven tivesse sorteado um deles. Assim, nem todas as `pistas` distribuídas ao longo da trama são coerentes com a solução da história (exemplo: onde ele(a) conseguiu o telefone de Sidney?). E mais: desta vez, o(a) criminoso(a) conta com um aparelhinho que é capaz de simular a voz de praticamente todos os demais personagens!

Seja como for, Pânico 3 cumpre seu papel: a todo momento saltamos da cadeira (principalmente graças a trilha sonora, o que é frustrante - e por isso insisto neste ponto). No entanto, acho sintomático que o público presente à sessão (lotada) em que eu me encontrava tenha dado gargalhadas ao ver Carrie Fisher, Jay e Silent Bob, mas não tenha demonstrado sinais de reconhecer Roger Corman ou de entender a piada contida no diálogo de Jenny McCarthy, que diz que `cenas de chuveiro já foram feitas em Um Corpo Que Cai`. Minha opinião? Se todas aquelas pessoas no cinema tivessem que responder à pergunta feita pelo vilão de Pânico sobre quem era o assassino do primeiro Sexta-feira 13, creio que a maioria responderia de forma incorreta.

A verdade é que é fácil gostar da série Pânico - mas poucos aprendem a lição ensinada por seu criador, Kevin Williamson: conheça os clássicos do gênero. Não é à toa que Randy, Billy Loomis, Stu e Mickey adoravam filmes como O Exorcista, Poltergeist, Amityville, Halloween, A Hora do Pesadelo e afins: raramente o medo vem numa embalagem `pop`.

2 de Julho de 2000

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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