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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/06/1998 12/09/1997 3 / 5 / 5
Distribuidora

O Fim da Violência
The End of Violence

Dirigido por Wim Wenders. Com : Bill Pullman, Traci Lind, Andie MacDowell, Gabriel Byrne, Rosalind Chao, K. Todd Freeman, Marisol Padilla Sánchez, Loren Dean.

Mike Max (Pullman) é um poderoso produtor de Hollywood. Sua especialidade são os filmes de ação, de violência. Um sujeito egoísta, Max não presta a mínima atenção a sua esposa, Paige. Para comunicar ao marido que irá deixá-lo, a mulher é obrigada a telefonar para ele (enquanto ele está em casa!). É então que a vida do produtor é radicalmente alterada quando ele é seqüestrado por dois homens que pretendem matá-lo. Por que alguém quer matá-lo? Como ele escapa? O que ele deve fazer?

Enquanto isso, Ray Bering (Byrne) desenvolve um trabalho intrigante: ele passa seus dias em frente a várias telas de televisão, que mostram imagens captadas por câmeras espalhadas por toda a cidade. Através de uma das telas, ele vê o momento em que Max está para ser executado, porém perde o sinal da transmissão no momento crucial. Quem é Bering? Para quem ele trabalha? Qual é, exatamente, seu trabalho?

Temos, ainda, Cat - uma dublê que, depois de se ferir durante a produção do mais novo filme de Max, ganha um papel importante em seu próximo filme. A garota acaba se envolvendo com o policial que investiga o desaparecimento do produtor. Por que o policial é tão persistente? Qual é o papel de Cat em toda a trama?

Mas não podemos nos esquecer da esposa de Mike, Paige. Depois do desaparecimento do marido, ela resolve assumir os negócios dele. Há, ainda, o cantor Six, que insiste em ter uma de suas músicas utilizadas em um dos filmes de ação de Max. Qual é o papel dos dois na trama? Por que Paige parece tão indiferente? Por que ela insiste em assumir os negócios? Qual é sua relação com o advogado Brian? E com Six?

Este é o grande problema de O Fim da Violência: temos histórias demais envolvendo personagens demais, levando-nos a perguntas demais. A trama principal (por que Max foi seqüestrado e qual a relação de Ray com o seqüestro, se é que há alguma) se perde em um emaranhado de cenas que, rigorosamente, nada acrescentam ao filme.

Wim Wenders é um diretor talentoso, que insiste sempre em estabelecer uma espécie de `ponto-de-vista`. Aqui, Wenders declara guerra à violência estilizada de Hollywood e à influência que esta tem sobre o mundo `real`. Uma crítica corrosiva da produção cinematográfica americana e da predominância, nesta, da forma sobre o conteúdo. É interessante, por exemplo, a cena na qual Zoltan, um diretor europeu que `migrou` para os EUA, diz: `Eu deveria ter continuado a fazer filmes na Europa.`

No entanto, Wenders também perde muito tempo com histórias paralelas que acabam por tornar o filme lento e cansativo. As cenas no `clube` de poesia, por exemplo, poderiam ter sido perfeitamente cortadas, assim como toda a `sub-trama` sobre o envolvimento de Cat e Doc.

A grande virtude do filme, em contrapartida, é a forma com que o roteiro vai revelando os fatos ao espectador, que precisa usar o cérebro para fazer a conexão entre os dados. Este é um daqueles filmes que exigem atenção, tão raros hoje em dia (infelizmente). Wenders não mastiga a história para a platéia, o que torna o jogo muito mais interessante. Em certo momento, por exemplo, o personagem de Byrne diz: `Eu estava certo. Eu estava certo desde o princípio.`. No entanto, naquele ponto o espectador ainda não tem condições de saber sobre o quê o sujeito estava certo e o porquê disso parecer ser tão ruim para ele.

Gabriel Byrne tem, mais uma vez, uma grande atuação. Já está passando da hora de Hollywood explorar mais o potencial de Byrne, pois ele já provou ser um intérprete poderoso em várias ocasiões. Aqui, seu personagem é um homem misterioso, angustiado, que parece viver sempre em estado de tensão. Seu amor pelo pai e o cuidado que tem para com este é curiosamente contrastante com seu jeito sisudo e mal-humorado. Em contrapartida, Bill Pullman demonstra, como sempre, que faltou a todas as aulas de interpretação da faculdade. Canastrão como sempre, ele se limita a franzir o cenho e a arquear a cabeça, enquanto diz seus diálogos com uma voz baixa e rouca. Já Andie MacDowell e Traci Lind (que eu não via desde A Hora do Espanto II) não têm muita oportunidade para desenvolver suas personagens, perfeitamente dispensáveis à trama.

A parte técnica de O Fim da Violência é correta, mas só. O destaque fica para a envolvente música de Ry Cooder, cujas batidas dão o ritmo adequado a várias seqüências.

No geral, a impressão que fica é a de que Wim Wenders conta um pouco da história, pára e fica nos mostrando alguma coisa pela qual se interessou. Depois ele volta ao roteiro, revela um pouco mais da trama e pára novamente, para transmitir uma mensagem particular. O resultado final é um filme que, apesar de interessante, acaba cansando e nos fazendo perder o interesse pelo que há de importante na história.
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21 de Junho de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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