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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/02/1931 14/02/1931 3 / 5 / 5
Distribuidora

Drácula
Dracula

Dirigido por Tod Browning. Com Bela Lugosi, David Manners, Helen Chandler, Dwight Frye, Edward Van Sloan, Herbert Bunston e Frances Dade.

Alguns filmes envelhecem muito bem. Outros, nem tanto. Infelizmente, Dracula se encaixa nesta segunda categoria. Na época em que foi lançado, o filme aterrorizou milhares de espectadores a tal ponto que os cinemas contrataram enfermeiras para que estas ficassem de `plantão` na porta das salas-de-exibição, a fim de atender aqueles que passassem mal durante a projeção. Visto nos dias de hoje, parece incompreensível que isto possa ter acontecido.

O filme tem uma certa atmosfera, sim - isto é inegável. A seqüência inicial, na Transilvânia, é eficiente e o castelo de Drácula, um primor de direção de arte. No entanto, assim que a ação é transferida para Londres, a narrativa começa a perder seus atrativos.

A adaptação do livro de Bram Stoker é boa, apesar de algumas alterações radicais (o Dr. Seward, que no livro é pretendente de Lucy, torna-se, no filme, pai de Mina). No entanto, é claro que para adaptar-se um romance de mais de 400 páginas é necessário que se corte alguns personagens e que se `funda` outros. Para aqueles que não conhecem a clássica história de Stoker (alguém?): Drácula resolve se mudar para Londres, tornando-se vizinho do sanatório do Dr. Seward. Auxiliado pelo perturbado Renfield - que só pensa em comer insetos -, o Conde se interessa pela jovem e bela Mina, a quem decide transformar em uma morta-viva, como ele. Cabe, agora, ao intrépido Dr. Van Helsing deter os malignos planos do vampiro.

Alguns podem dizer que faltam `caninos` e `sangue` a este filme. Eu discordaria. Muitos dos filmes mais assustadores que já vi não mostravam, nunca, a violência e o horror - apenas os sugeriam. É claro que `frustra` um pouco ver um Conde Drácula sem seus terríveis caninos, mas estes não são indispensáveis, desde que tenhamos uma boa atuação do ator que interpreta o vampiro - e Bela Lugosi é um fantástico Drácula. No entanto, a insistência do diretor Tod Browning em fechar os olhos do espectador para todos os atos do Conde também é irritante. Não há um só momento em que o diretor nos permita enxergar, no mínimo, um relance da crueldade do vampiro. E isso, para o espectador dos dias de hoje, compromete o filme.

Em 1931, quando o filme foi lançado, a própria atmosfera que existia em torno da figura de Drácula, o personagem, contribuía para seu sucesso. No entanto, depois de mais de 60 anos de vampiros, lobisomens, múmias e Freddy Kruegers da vida, um filme precisa de um pouco mais do que o mito do personagem para sobreviver. Infelizmente, é o que acontece. O Conde Drácula continua sendo um de meus `vilões` favoritos (e o livro de Stoker, também). Porém, O Vampiro da Noite, de 1957, ainda é minha adaptação favorita desta clássica história.

Bela Lugosi, no papel-título, está ótimo. Seu olhar assassino (sempre envolto em uma misteriosa claridade), suas mãos contorcidas e seu sotaque já fazem parte do imaginário dos amantes do gênero. Infelizmente, a direção de Browning neutraliza, em grande parte, o poder da atuação de Lugosi: as cenas em Londres, por exemplo, mais parecem ter sido realizadas em um palco de teatro do que em um set de filmagem. Este é um dos grandes problemas deste filme: é teatral demais (o que pode ser explicado, em parte, pelo fato do roteiro ter sido adaptado de uma peça de teatro, ao invés de no livro de Bram Stoker). Da forma como ficou, este Drácula não tem nada de ameaçador e, para falar a verdade, ele é bem fácil de ser morto.

Além disso, a ausência de trilha sonora atrapalha ainda mais a criação de um clima `assustador`. Muitos são os que defendem este aspecto de Dracula - a falta de música incidental. Porém, acredito que o filme sairia ganhando se tivesse uma boa trilha.

Outro que se destaca no elenco é Dwight Frye, com sua soberba interpretação do lunático Renfield. Desde seu olhar completamente desvairado até sua postura encurvada e bizarra, Frye cria um dos melhores `Renfields` das telas de cinema. Já a Mina de Helen Chandler é apagada e bem chatinha, só tendo um destaque um pouco maior na cena que se passa na varanda do sanatório.

A prova cabal de que Drácula envelheceu é a versão que foi lançada em vídeo, anos depois. Observem que no final do filme, o dr. Van Helsing diz para Harker e Mina: `Vão na frente. Eu vou logo depois.`. No entanto, o filme termina ali. Por que ele quis ficar para trás? O que acontece depois? A resposta: na versão original, Edward Van Sloan (Van Helsing) se voltava para a platéia e tentava acalmá-la, dizendo que ninguém precisava ter `medo em seus corações`, e assim por diante. Depois, a câmera se aproximava dele e ele dizia: `Porém, uma palavra de aviso: os vampiros existem!`.

Hoje em dia, as palavras de Sloan soariam ridículas e, por isso, foram cortadas. É uma pena que o vampiro absoluto das telas, Bela Lugosi, não tenha estrelado um filme perene como a lenda em que ele se tornou.
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31 de Julho de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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