Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/01/1999 11/09/1998 3 / 5 / 5
Distribuidora

Cartas na Mesa
Rounders

Dirigido por John Dahl. Com: Matt Damon, Edward Norton, John Malkovich, Martin Landau, John Turturro, Famke Janssen, Michael Rispoli e Gretchen Mol.

Não há quem não admire um trapaceiro. Pelos menos é o que parece, posto que filmes como Golpe de Mestre, Os Imorais e Os Safados sempre encontram um público ávido para devorá-los. Observar os esquemas montados por estes personagens sem escrúpulos é, geralmente, a melhor parte da história, seja ela um drama, um suspense ou uma leve comédia. Nestes filmes, os espertinhos geralmente agem em duplas (Os Safados), trios (Os Imorais) ou até mesmo em bandos (Golpe de Mestre) - o importante é `depenar os patos`.

Cartas na Mesa segue à risca esta fórmula de sucesso: aqui, os trambiqueiros são Mike (Damon) e Worm (Norton), dois jogadores de pôquer especializados em arrancar dinheiro dos pobres desavisados que consideram o jogo apenas uma diversão. A diferença básica entre os dois é que, enquanto o primeiro se recusa a roubar nas cartas, o segundo acredita que isto faz parte do processo. Na verdade, Mike é um estudante de direito que perdeu, há nove meses, todas as suas economias ao enfrentar, nas mesas, o mafioso russo Teddy KGB (Malkovich). Traumatizado pela experiência e temendo perder sua namorada, ele desiste de jogar pôquer - isso até que seu melhor amigo Worm é libertado da prisão e pede seu auxílio para que, juntos, possam arrecadar o dinheiro necessário para que este pague suas dívidas com a máfia. O filme ainda traz John Turturro como um homem extremamente cauteloso que encara o pôquer como profissão e Martin Landau como o professor de Mike.

O roteiro de David Levien e Brian Koppelman é extremamente rico em detalhes quanto ao submundo do jogo profissional. Durante toda a narrativa, o personagem de Damon brinda o espectador com verdadeiras `pérolas` de sabedoria sobre o pôquer - `Se você não for capaz de descobrir quem é o pato da mesa depois de meia hora de jogatina, então é porque você é o pato.` Outro momento brilhante é aquele em que Mike entra em uma sala e, depois de observar o que se passa por alguns minutos, é capaz de dizer exatamente quais cartas cada um dos jogadores tem nas mãos.

No entanto, a narrativa torna-se realmente interessante depois que o personagem de Edward Norton entra em cena. Worm é um sujeito imaturo e egoísta que não gosta de agir cautelosamente: se ele percebe estar diante de um `pato`, não perde tempo com rodeios - simplesmente rouba descaradamente até arrancar todo o dinheiro do sujeito. Isso vai de encontro com a máxima pregada pelo sensato Mike, que diz em certo momento: `Você pode tosquiar uma ovelha várias vezes; mas só pode esfolá-la uma.`. Para Worm, no entanto, encrencar-se faz parte da diversão; e ele não vê problema algum em arrastar seu melhor amigo para o meio de sua guerra particular com seus credores.

Porém, ao invés de explorar mais os golpes aplicados pelos dois amigos em sua busca por 15.000 dólares (em um esquema parecido com o empregado por Paul Newman e Tom Cruise em A Cor do Dinheiro), o roteiro gasta um tempo precioso girando em torno da mesma situação: Worm mete-se em alguma confusão e Mike o salva - somente para vê-lo se encrencando novamente. Além disso, Matt Damon passa grande parte da narrativa escutando sermões de praticamente todos os demais personagens do filme, o que, depois de um tempo, torna-se extremamente cansativo. E mais: os roteiristas ainda quebram mais ainda o ritmo da história para criar um clima romântico (que nada acrescenta) entre os personagens de Damon e Famke Janssen - cuja personagem é totalmente descartável.

John Malkovich, como o mafioso russo, é o grande destaque do filme. É incrível a capacidade que este ator possui de conferir uma verdade inquestionável aos personagens que representa, por mais absurdos que estes sejam. O que nas mãos de outro ator acabaria se tornando uma caricatura torna-se, nas dele, uma figura intensa, significativa. Enquanto isso, Edward Norton prova ser, mais uma vez, um dos melhores intérpretes de sua geração. Apesar da chatice inerente ao personagem, Norton consegue a proeza de torná-lo simpático, quase levando o espectador a identificar-se com ele. Em contrapartida, Matt Damon praticamente repete o trabalho realizado em O Homem Que Fazia Chover, destacando-se somente nos momentos em que seu personagem envolve-se em tensas partidas nas quais fortunas são disputas.

No mais, Cartas na Mesa possui o mérito de não tentar justificar a moral de seus personagens: o ato de jogar é, aqui, uma profissão tão nobre quanto o Direito ou a Medicina, por exemplo. Muitos podem interpretar este fato como uma apologia da jogatina - o filme prefere entendê-lo como `estilo de vida`.
``

22 de Maio de 1999

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!