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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/05/1998 31/10/1997 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Boogie Nights - Prazer Sem Limites
Boogie Nights

Dirigido por Paul Thomas Anderson. Com : Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, William H. Macy, Heather Graham, Nicole Ari Parker, Don Cheadle, Joanna Gleason, Luis Guzman e Nina Hartley.

Boogie Nights é um filme de Tarantino sem Tarantino. O roteiro usa e abusa dos elementos consagrados pelo diretor de Pulp Fiction: longas cenas filmadas em tomada única; diálogos afiados que não acrescentam muito à narrativa; personagens fortes que se mantém firmes em seus propósitos; uma trilha sonora extremamente bem escolhida; e, finalmente, a utilização da violência como forma de humor.

No entanto, Boogie Nights pode ser tudo, menos uma cópia de Pulp Fiction ou Cães de Aluguel. Não, este filme tem vida própria. A história gira em torno de Eddie (Wahlberg), um rapaz de 17 anos que é convidado pelo grande diretor do cinema pornô Jack Horner (Reynolds) para estrelar os novos filmes deste. A partir daí, a narrativa segue a escalada de Eddie (ele passa a se chamar Dirk Diggler) rumo ao sucesso, seu apogeu e, finalmente, seu declínio em função das drogas e de sua própria personalidade. Ah, um `detalhe` (se é que podemos dizer isso): Diggler tem um pênis de 30cm de comprimento, o que facilita um pouco sua ascensão no meio pornô.

Falar de Boogie Nights é falar em atuações. E estas são perfeitas, a começar pelo próprio Mark Wahlberg, que constrói um Dirk Diggler inicialmente inseguro, deslumbrado com as possibilidades que se abrem a sua frente e que, depois, se torna um sujeito arrogante e viciado em drogas. Burt Reynolds também está fabuloso como Jack Horner e, apesar de não ser um grande fã do ator (e o ser de Robin Williams), vendo este filme não consigo deixar de pensar que Reynolds merecia o Oscar de Ator Coadjuvante que foi para Williams. O mesmo se aplica a Julianne Moore, cuja atuação é a mais complexa de todo o filme: ela é uma mulher extremamente maternal, gentil e sensata e que, no entanto, não pensa duas vezes antes de enfiar o nariz em uma carreira de cocaína ou de trepar (como dizem todos no filme) com Dirk na intenção de lhe demonstrar seu amor de `mãe`.

Mas estou sendo injusto: apesar destas três atuações serem as mais `importantes` da história, o filme não seria nada se não fosse o universo de personagens extremamente interessantes e bem caracterizados que povoam a narrativa. Aqui, nenhum personagem `sabe` que é coadjuvante: todos tem seus próprios problemas e sua própria vida, não vivendo, simplesmente, em função das ações dos protagonistas, como costuma acontecer em 99% dos filmes americanos. Um exemplo claro disso é Little Bill, personagem de William H. Macy, um homem cujo drama é, ao mesmo tempo, divertido e comovente: sua esposa tem a `mania` de sair transando com seus amantes (leia-se: qualquer homem que se oferecer) em qualquer lugar e em qualquer ocasião, como em uma festa, por exemplo, na qual Little Bill também está presente.

Povoado por uma galeria de personagens interessantes, o filme ainda conta uma história envolvente e potencialmente cinematográfica (afinal, não há nada mais dramático do que a velha fórmula `ascensão-glória-declínio`, que aqui ganha novos contornos). Os diálogos são, como já mencionado, afiadíssimos, e Paul Thomas Anderson permite que seus atores se sintam livres para interpretar, sem terem que ficar preocupados com questões técnicas. Para evitar isso, o diretor simplesmente liga sua câmera e grita `ação!`, deixando os atores à vontade: algumas tomadas chegam a ter mais de dois minutos, o que também não é comum em Hollywood, que prega a lei da `montagem histérica`. Aqui, não: nós acompanhamos Reed Rothchild enquanto este prepara uma bebida para Eddie/Dirk; acompanhamos Little Bill enquanto este sai de uma festa, vai até seu carro e volta; e assim por diante. Isso nos torna mais próximos dos personagens, porque é feito com um objetivo e não apenas como exercício de estilo, como o próprio Tarantino fez algumas vezes em Jackie Brown.

Outra coisa interessante é a forma descontraída com que o roteiro, que também é de Thomas Anderson, trata de um assunto `pesado` como sexo pago, drogas e violência. Para constatar isso, basta notar que em nenhum momento a AIDS surge como conseqüência dos `desvarios` dos personagens, o que seria algo normal, se considerarmos que a história aborda o final da década de 70 e início da de 80, período no qual a doença `surgiu` (ou melhor: foi notada). Além disso, as próprias mortes que acontecem no filme são tratadas de uma maneira `leve`, mais com a intenção de justificar um determinado argumento do que de chocar. Um exemplo é a cena na qual uma protegida do Coronel sofre uma overdose, logo no início do filme: o grotesco da situação é mostrado de uma forma tão natural que o ridículo se acentua - e a platéia se surpreende rindo. É mais ou menos o que Tarantino fez na cena em que Mia Wallace sofria uma overdose em Pulp Fiction.

É claro que o roteiro também tem seus pequenos `buracos`. Por exemplo: o que acontece à família de Eddie/Dirk? Afinal, ele passa a morar em um local não muito distante ao lugar onde sua mãe mora e, assim, seus pais devem ter ficado cientes de sua nova profissão. Portanto, por que o filme se esquece deles? Infelizmente, o fato é que a mãe de Eddie nada mais é do que o `estopim` que o roteiro encontrou para fazer com que o rapaz aceitasse trabalhar para Jack Horner.

No entanto, isto é um pecadilho se considerarmos a qualidade do restante do roteiro. Na verdade, estou começando a acreditar que não existe script perfeito (afinal, até Cidadão Kane tem um erro grosseiro, que é o fato de ninguém estar perto de Kane quando este morre. Assim, como é que o mundo poderia ter ficado sabendo que sua última palavra foi `Rosebud`?).

Boogie Nights deveria ter sido mais valorizado pela crítica e público americanos. Aqui no Brasil, a se julgar pelo cinema lotado em que eu estava, o filme vem recebendo o devido valor que merece. Talvez isso aconteça em função da mentalidade mais aberta do brasileiro. Talvez porque o americano seja conservador demais. Talvez porque Boogie Nights é, simplesmente, um filme fabuloso.
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26 de Maio de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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