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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
31/08/2001 19/01/2001 2 / 5 / 5
Distribuidora

O Dom da Premonição
The Gift

Dirigido por Sam Raimi. Com: Cate Blanchett, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Katie Holmes, Greg Kinnear, Hilary Swank, Michael Jeter, Kim Dickens, J.K. Simmons, Chelcie Ross e Rosemary Harris.

Foi graças ao gênero terror que o cineasta Sam Raimi tornou-se conhecido. O ano era 1982 e Evil Dead – A Morte do Demônio, uma produção basicamente `caseira`, surpreendeu a todos graças à sua incrível energia, ao seu surpreendente bom humor e aos inovadores movimentos de câmera criados por seu jovem diretor. Assim, é espantoso que o mesmo Sam Raimi tenha comandado este O Dom da Premonição – um filme previsível tanto em relação à sua trama quanto aos seus aspectos técnicos.

Escrito por Billy Bob Thornton e Tom Epperson, o roteiro conta a história de Annie Wilson, uma viúva que utiliza seus dons psíquicos como forma de sustentar os três filhos. Apesar de ser encarada com desconfiança por alguns habitantes da pequena cidade sulista (leia-se: conservadora e preconceituosa) em que vive, ela conta com uma vasta clientela que não hesita em ouvir suas previsões, feitas sempre através das cartas de um baralho. É quando uma garota desaparece e Annie começa a ter visões que indicam que a moça foi assassinada e atirada em um lago. Mas quem teria cometido o crime? O promotor local, com quem a vítima mantinha um caso? Ou o violento Donnie Barksdale, que insiste em ameaçar a vidente desde que esta aconselhou sua esposa a abandoná-lo – e com quem a vítima também mantinha um caso? Ou, talvez, o mecânico da cidade, um rapaz perturbado por um ódio inexplicável pelo pai? Ou, quem sabe, o noivo da moça?

Como você pode constatar pelas descrições acima, O Dom da Premonição é um destes filmes habitados por uma galeria de tipos marcantes – basta um personagem abrir a boca para que o espectador descubra quem ele é: o valentão local, a garota que transa com todo mundo, o xerife cético e assim por diante (na verdade, este é um fator comum entre praticamente todas as produções cujas tramas se passam em uma `cidadezinha do sul dos Estados Unidos`). Porém, isto não chega a ser um defeito, já que bons filmes já foram construídos a partir destes estereótipos (como Reviravolta, que contou justamente com a participação do ator/roteirista Billy Bob Thornton no papel do perturbado mecânico local). O grande problema de O Dom da Premonição reside, sim, em seu roteiro - que, além de copiar a premissa de filmes como Os Olhos de Laura Mars, A Premonição e Na Hora da Zona Morta, ainda recicla diversas convenções do gênero, como a mocinha que anda de costas e tromba em alguém (o que é sempre acompanhado por um acorde alto na trilha sonora) ou o repentino aparecimento de uma pessoa atrás de uma porta ou – neste caso – da tampa do porta-malas de um carro.

Além disso, o ritmo lento do filme dificulta a manutenção de um clima de tensão apropriado, já que o roteiro não aproveita o calmo desenrolar da trama para desenvolver os personagens ou a história (algo feito com competência em O Exorcista, por exemplo). Para piorar, o segundo ato de O Dom da Premonição desperdiça um tempo precioso em uma longa seqüência de tribunal completamente desnecessária (o resultado do julgamento poderia simplesmente ter sido informado através de um personagem). Como se não bastasse, a resolução da trama é decepcionante – e as duas pequenas reviravoltas finais não são capazes de surpreender realmente o público.

E isto é uma pena, já que o filme conta com boas atuações de todos os integrantes do elenco - até mesmo o habitualmente fraco Keanu Reeves consegue transmitir o ar ameaçador exigido por seu personagem. Giovanni Ribisi, em especial, faz um excelente trabalho como o confuso Buddy Cole (embora o drama do mecânico não se encaixe muito bem no restante da trama, servindo apenas como desculpa para uma das fracas `surpresas` finais). Enquanto isso, Cate Blanchett demonstra mais uma vez ser uma boa atriz e sustenta bem o filme, quase fazendo com que o espectador ignore a fragilidade do roteiro, que não consegue sequer estabelecer a verdadeira natureza dos dons psíquicos de sua protagonista: Annie é cartomante, médium ou paranormal? (Já que ela não precisa das cartas para ter suas `visões`, por que trabalha com baralho? E por que sua segunda visita ao lago renderia resultados diferentes daqueles obtidos na primeira vez? E qual é, afinal de contas, o objetivo da cena em que a moça vê sua avó – a não ser, é claro, o de provocar calafrios nos espectadores mais impressionáveis?).

O fato é que O Dom da Premonição é um grande desapontamento – até mesmo o mediano Revelação, com o qual o filme divide vários elementos importantes (como o cadáver submerso e o espírito na banheira), consegue ofuscá-lo. Falhas do roteiro à parte, é importante observar que Sam Raimi não vem conseguindo manter uma regularidade adequada em seu trabalho (com exceção do ótimo Um Plano Simples, seus últimos filmes deixaram bastante a desejar). Resta torcermos para que seu próximo projeto, O Homem-Aranha, resgate a imaginação do início de sua carreira. Caso contrário, Batman & Robin pode estar prestes a ganhar um companheiro de infortúnio.
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2 de Setembro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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