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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/07/2005 25/02/2005 1 / 5 / 5
Distribuidora

Amaldiçoados
Cursed

Dirigido por Wes Craven. Com: Christina Ricci, Jesse Eisenberg, Joshua Jackson, Shannon Elizabeth, Mya, Kristina Anapau, Milo Ventimiglia, Judy Greer, Michael Rosenbaum.

O grande charme de Pânico (o original, não as continuações) residia na forma irreverente com que o roteiro reconhecia e satirizava os principais clichês do gênero terror, no qual o próprio filme se encaixava. Paradoxalmente, ao reconhecer as convenções, o longa ganhava liberdade para segui-las: assim, em um momento um personagem citava a burrice das mocinhas do Cinema (que, quando ameaçadas por um assassino cruel, sobem as escadas de casa em vez de fugirem pela porta da frente), mas, minutos depois, a própria heroína do filme fazia o mesmo. Dirigido por Wes Craven e escrito por Kevin Williamson, Pânico significou um verdadeiro renascimento do gênero graças à inteligência do roteiro e à tensão criada pela eficiente direção.

Nada disso se aplica a Amaldiçoados. Sim, ele foi dirigido por Craven e escrito por Williamsom, mas encontra-se do outro lado do espectro: subestima a inteligência do espectador do início ao fim e apela para todo tipo de clichê de direção para tentar provocar sustos ocasionais. Quando a história tem início, por exemplo, duas jovens consultam uma cartomante absurdamente caricatural que, de forma igualmente cartunesca, anuncia: `Vejo sangue. Cuidado com a Lua! Ele se alimenta sob a luz da Lua!`. É uma cena tão ruim que, confesso, acreditei se tratar de mais uma das brincadeiras auto-referenciais tão comuns em Pânico e que aquilo se revelaria como, sei lá, um filme-dentro-do-filme - o que já seria idiota, mas não tanto quanto descobrir que era uma cena `real`. Infelizmente, era. Isto é, se entendermos `real` como sinônimo de `exemplo inequívoco da decadência total de um roteirista que, em algum momento do passado, revelou traços de talento e inteligência`.

A partir daquele instante, Amaldiçoados mergulha na mais do que batida história de jovens inocentes que, depois de mordidos por um lobisomem, percebem estar se transformando gradualmente em criaturas semelhantes. E, mais uma vez, Williamson não nos poupa das convenções: o cachorro dos irmãos vividos por Christina Ricci e Jesse Eisenberg passa a rosnar para os donos, percebendo a nova natureza da dupla; o personagem de Eisenberg logo afirma estar `se sentindo melhor do que nunca`; o prato favorito dos jovens passa a ser carne crua; e, é claro, eles descobrem que, caso queiram voltar ao normal, terão que matar o ser que os feriu. Quem é ele? Digo apenas que a surpresa que tive quando descobri que Bruce Wayne e Batman eram a mesma pessoa foi infinitamente maior do que a revelação da identidade do lobisomem em Amaldiçoados.

Procurando sempre sedimentar sua imagem como roteirista `pop`, Kevin Williamson até tenta inserir referências a histórias em quadrinhos e ao clássico protagonizado por Lon Chaney, mas estas citações jamais preenchem um papel narrativo verdadeiro, soando apenas como aquilo que são: brincadeiras vazias feitas por um escritor sem idéias. Da mesma forma, por que desenvolver a personalidade dos protagonistas se é mais fácil dizer que são órfãos recentes e esperar que, a partir daí, o espectador os considere `tridimensionais`? E por que forçar os neurônios para criar tramas originais se o velho clichê do `jovem herói apaixonado pela namorada do atleta` sempre funciona para prender a atenção do público mais inexperiente, que está vendo aquilo pela primeira ou segunda vez? E já que estamos falando do assunto, o que fazer quando o roteiro (por absoluta falta de substância) fica curto a ponto de render um filme com pouco mais de uma hora de duração – algo que certamente irritaria o público? Simples: utilize o recurso empregado por todo roteirista desesperado com a própria falta de imaginação: crie seqüências de sonho, que sempre garantem um susto (artificial) a mais e aumentam a duração da projeção.

Mas se o trabalho de Kevin Williamson é ofensivamente ruim, decepção maior é a direção preguiçosa do experiente Wes Craven. E quando digo `preguiçosa`, uso a palavra em seu termo literal: em certo instante, um personagem encontra outro no meio de uma festa e diz `Posso conversar em particular com você?` – e, sem se dar ao trabalho de mudar de cenário, Craven exibe os atores dando dois passos para o lado e retomando a conversa, como se agora estivessem completamente sozinhos no mundo. E o que dizer da `seqüência do estacionamento`, na qual o cineasta apela para os velhíssimos planos subjetivos que indicam a presença de `algo` observando a mocinha por trás dos carros? O diretor não consegue sequer encontrar uma maneira levemente interessante de utilizar o labirinto de espelhos que serve de palco para o terceiro ato, o que é revelador. (Ah, sim: e a tradicional `cena da transformação` é decepcionante como todo o restante do filme, já que os efeitos visuais são apenas adequados, não conseguindo superar nem mesmo aqueles vistos em Um Lobisomem Americano em Londres, produzidos há nada menos do que 24 anos.)

Representado `mais do mesmo`, Amaldiçoados é um daqueles longas que parecem já terem sido feitos umas duzentas vezes. (De certa maneira, foram.) Sem acrescentar absolutamente nada de novo ao gênero, apela para a trilha sonora (igualmente genérica) quando quer simular um susto (ênfase no `simular`) e traz a talentosa Christina Ricci completamente inexpressiva, como se estivesse sob efeito de drogas pesadas.

Talvez isto explique por que ela topou participar desta produção.
``

16 de Junho de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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