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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
31/07/2002 20/06/2003 4 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Menno Meyjes

Elenco

John Cusack , Noah Taylor , Leelee Sobieski , Molly Parker , Ulrich Thomsen , David Horovitch , Janet Suzman

Roteiro

Menno Meyjes

Produção

Andras Hamori

Fotografia

Lajos Koltai

Música

Dan Jones

Montagem

Chris Wyatt

Design de Produção

Ben van Os

Figurino

Dien van Straalen

Direção de Arte

Tibor Lázár

Max
Max

Dirigido por Menno Meyjes. Com: John Cusack, Noah Taylor, Leelee Sobieski, Molly Parker, Ulrich Thomsen, David Horovitch e Janet Suzman.

Ele é um jovem soldado que, ao retornar dos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial, luta para sobreviver como artista em Munique, na Alemanha pós-Tratado de Versalhes. Sofrendo com o frio e a pobreza, ele consegue se alimentar enfrentando a fila da sopa e demonstra ser um rapaz inseguro, solitário e tímido, que mal consegue articular o turbilhão de pensamentos que lhe cruzam a mente – isto é; a não ser que o assunto seja Política, quando, então, exibe uma paixão assustadora. Finalmente, ele encontra esperanças de ver sua obra reconhecida quando conhece Max Rothman, dono de uma galeria de arte, que resolve ajudá-lo.

E é então que o rapaz se apresenta:

- Meu nome é Adolf. Adolf Hitler.

Neste momento, um vento cortante atravessa a cena, encontrando reflexo fora da tela e provocando calafrios inevitáveis no espectador. Então aquele é o jovem Hitler – a semente do monstro que provocaria o Holocausto? O homem cujo nome se tornaria sinônimo das mais apavorantes atrocidades já cometidas na história moderna? Como um jovem pintor poderia ter se transformado em um bárbaro, já que a própria arte requer, em maior ou menor grau, sensibilidade por parte daqueles que a praticam?

São estas – entre outras – perguntas que o diretor Menno Meyjes faz em Max, drama que roteirizou e que se propõe a analisar um período na vida de Hitler até então pouco explorado pelo Cinema: o de sua juventude. Para isso, Meyjes cria o personagem Max Rothman (vivido por John Cusack), que funciona como uma espécie de amálgama de todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, poderiam ter resgatado a humanidade ou bondade que o jovem Hitler pudesse ter (além de funcionar como curioso recurso dramático, já que, sendo judeu, personifica tudo aquilo que o Führer viria a atacar no futuro).

De acordo com o cineasta, Hitler era um homem que possuía uma imensa carga de ódio e ressentimentos reprimidos e que talvez pudesse ter sido `salvo` caso os utilizasse de modo construtivo – como em suas pinturas, por exemplo. `Seus quadros não têm que ser bonitos ou perfeitos, mas sim reais. Coloque seus sentimentos na tela`, sugere Max, em certo momento, ao se deparar com os conservadores retratos pintados por seu `protegido` – que, por outro lado, prega: `Eu acho que a Arte deveria refletir apenas valores naturais da Lei Natural`.

Afinal, por que o Hitler retratado por Meyjes encontra tamanha dificuldade em descarregar seus impulsos sobre a tela? Por medo do que poderia descobrir sobre si mesmo? Ou seria em função de uma imensa dificuldade de escapar de seu racionalismo cruel e embarcar na abstração dos sentimentos? Seja como for, Max apresenta a tese de que, infelizmente (para ele e para o mundo), Hitler encontrou uma válvula de escape muito mais fácil na política, onde suas explosões de retórica eram vistas como qualidade, e não defeito. Assim, seus discursos inflamados e preconceituosos seriam um enorme jorro de raiva e desprezo pelos judeus, a quem culpava pela decadência da Alemanha (embora insistisse em negar, no universo do filme, seu anti-semitismo para Max, a quem tenta impressionar).

Interpretado com feroz energia por Noah Taylor, que realmente se parece fisicamente com o ditador, Hitler acaba ganhando contornos mais humanos em Max, embora isso não suavize, de forma alguma, seu legado de horror (no recente documentário austríaco Eu Fui Secretária de Hitler, a antiga assistente do Führer relembra o carinho que este tinha por sua cadela Blondie, mas conclui: `Eu sei que estes detalhes tendem a humanizá-lo, mas não apagam a lembrança do monstro que ele se tornou`).

Desta forma, Menno Meyjes consegue realizar uma proeza: retratar um tempo em que Adolf Hitler ainda não havia se tornado um genocida sem, com isso, criar uma obra polêmica. Aliás, Max consegue até mesmo se tornar inócuo, do ponto de vista ideológico, chegando a tratar o assunto com certa distância irônica (em determinado instante, ao escutar mais um dos discursos de Hitler sobre a pureza da raça ariana, Max explica para suas acompanhantes: `Ele é obcecado por sangue. Eu acho... ou espero... que se trate de uma metáfora`).

Infelizmente, não era – e o próprio Max não parece compreender este fato mesmo quando seu pupilo finalmente encontra a expressão definitiva para sua filosofia de vida. E a tomada final do filme, simbolizando o fim de uma era e o trágico início de outra, é maravilhosamente construída, conseguindo encaixar até mesmo uma sombra gigantesca da suástica.

Para Hitler, o mundo era sua tela; e o horror, seu pincel. E Max retrata este fato com elegante abandono, numa triste constatação da realidade histórica.
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14 de Dezembro de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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