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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/11/2001 16/11/2001 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Harry Potter e a Pedra Filosofal
Harry Potter and the Philosopher`s Stone

Dirigido por Chris Columbus. Com: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Robbie Coltrane, Maggie Smith, Alan Rickman, Richard Harris, Warwick Davis, Ian Hart, John Hurt, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Zoë Wanamaker, Tom Felton, John Cleese, Richard Bremmer e Julie Walters.

É oficial: Harry Potter e a Pedra Filosofal, o filme, é uma adaptação extremamente fiel do livro homônimo escrito pela britânica J.K. Rowling. É claro que pequenas alterações foram feitas, já que seria impossível levar para as telonas todos os detalhes do universo descrito na versão impressa, mas os principais elementos estão lá. Pelo menos, a maioria destes.

Mas estou me precipitando, já que nem mencionei a trama do filme (embora isso seja praticamente dispensável, considerando-se o sucesso da série): Harry Potter (Radcliffe) é um garoto órfão que vive em um armário situado debaixo das escadas da casa de seus tios, que o tratam extremamente mal. Às vésperas de completar 11 anos, o garoto começa a receber misteriosas cartas, entregues por corujas, informando que ele foi aceito na Escola de Bruxaria de Hogwarts. Surpreso por constatar sua natureza de bruxo, Harry descobre ser famoso naquele universo mágico, já que derrotou, ainda bebê, o temível Lord Voldemort. Enquanto dá início aos seus estudos de magia, o menino (ao lado de seus dois novos amigos, Ron e Hermione) passa a investigar estranhos acontecimentos em Hogwarts, que parecem indicar o retorno de... Você-Sabe-Quem.

Qualquer produção que se inspire em um livro de grande sucesso enfrenta um grave problema: fazer jus ao `filme` que os espectadores já haviam criado em suas próprias mentes. A verdade é que, sempre que estamos lendo algo, acabamos `dirigindo` uma versão da história em nossas cabeças – e é praticamente impossível que uma adaptação real consiga superar o que havíamos concebido de maneira tão detalhada. É por esta razão que, ao longo de Harry Potter e a Pedra Filosofal, fiquei absolutamente surpreso ao ver, materializadas na tela, réplicas fiéis do universo que eu havia `visualizado` ao ler os livros de Rowling. Até mesmo a disposição dos móveis na sala de estar da Grifinória (para citar apenas um exemplo) é similar ao que eu imaginara. Além disso, a escalação do elenco não poderia ser melhor: as crianças encarnam seus personagens com uma imensa naturalidade, como se não sentissem o peso da responsabilidade; e os adultos, por sua vez, mergulham sem reservas nos tipos fantasiosos descritos nos livros (gostei particularmente de Maggie Smith, como a Professora McGonagall, e de Alan Rickman, como Snape. E mal posso esperar para conferir a participação de Julie Walters nos próximos filmes, quando certamente a Sra. Molly Weasley terá maior destaque).

Já o roteiro de Steve Kloves consegue ser simultaneamente bem e mal-sucedido: é vitorioso ao resgatar os principais momentos e personagens do livro, levando-os para o filme sem grandes alterações (só os fanáticos reclamarão, por exemplo, da diferença existente no primeiro encontro entre Harry e seu inimigo Draco Malfoy). Por outro lado, Kloves jamais consegue conferir fluência à narrativa, sem transmitir a impressão de que o incidente `A` leva ao `B` que leva ao `C`, e assim por diante. Na versão cinematográfica, a história assume um tom episódico: as cenas importantes estão lá, mas não parecem estar ligadas umas às outras. Até mesmo as passagens de tempo são abruptas, saltando de estação para estação – jamais sentimos que o ano letivo de Hogwarts está transcorrendo de fato.

Enquanto isso, o diretor Chris Columbus faz um trabalho puramente burocrático, como um ilustrador que prepara as gravuras de um livro sem ter liberdade criativa. Em nenhum momento sentimos o toque pessoal do artista e, assim, a sensação é a de que estamos apenas relendo o livro, sem novas descobertas (ele não precisaria alterar a história para alcançar este efeito de `novidades`). Além disso, o cineasta falha ao não capturar o `espírito`, o tom, do livro de Rowling: a atmosfera de urgência com relação ao possível retorno de Voldemort, por exemplo, é inexistente; e o crescente desprezo dos alunos da Grifinória pelo trio de heróis (responsáveis pela perda de vários pontos) é ignorado. Com isso, Harry jamais enfrenta adversidades realmente preocupantes, e sua eventual vitória acaba soando fácil demais. Para piorar, Draco se transforma apenas em um garoto chato, e não no pequeno demônio que estamos acostumados a odiar (o mesmo vale para a Sonserina; e a antipatia de Snape por Harry (e seus motivos para agir de determinada maneira durante a partida de quadribol) nunca é explicada.

Em contrapartida, a parte técnica de Harry Potter e a Pedra Filosofal é impecável: a direção de arte do filme certamente será indicada ao Oscar, tendo grandes chances de vencer - o mesmo valendo para os efeitos visuais (que, apesar disso, não são perfeitos). Já o veterano John Williams consegue a proeza de criar mais um delicioso tema para um personagem famoso (como já havia feito nas séries Indiana Jones e Star Wars, por exemplo), mas falha na composição da trilha incidental, que nunca evoca o clima de tensão e sombras necessário.

Obviamente, temos que considerar que este é apenas o primeiro exemplar de uma franquia que promete render muitos filmes: nas continuações, é bastante provável que o tom de aventura e emoção domine a trama (mesmo assim, Columbus não é o diretor ideal para comandar o terceiro capítulo da série, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, mais tenso do que os anteriores).

Com relação a esta estréia de Harry Potter no cinema, o sucesso artístico da empreitada é apenas parcial: na superfície, o filme é perfeito e respeita o livro. Em sua `alma`, porém, falha ao não despertar os mesmos sentimentos de euforia, aventura e suspense presentes na obra de J.K. Rowling. Faltou o toque mágico da emoção.
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25 de Novembro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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