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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/02/2002 04/01/2002 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Uma Mente Brilhante
A Beautiful Mind

Dirigido por Ron Howard. Com: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ed Harris, Christopher Plummer, Paul Bettany, Adam Goldberg, Austin Pendleton e Judd Hirsch.

Russell Crowe é um ator extremamente talentoso – para constatar este fato, basta conferir seu trabalho em produções como Los Angeles – Cidade Proibida e O Informante, nas quais interpreta personagens completamente diferentes entre si (e até mesmo os fracos Assassino Virtual e Rápida e Mortal comprovam sua capacidade de `metamorfose`). Infelizmente, apesar de certamente merecer premiações por seu desempenho nos dois primeiros filmes citados neste parágrafo, Crowe acabou se consagrando graças ao fraco Gladiador, onde viveu um personagem que não lhe proporcionou desafio algum (qualquer um dos demais indicados ao Oscar de Melhor Ator naquele ano merecia mais o prêmio – Javier Bardem e Ed Harris, em especial). Ainda mais lamentável é o fato de que sua vitória por Gladiador pode vir a prejudicá-lo este ano, quando realmente merecia o prêmio.

A exemplo do que ocorreu em O Informante, Crowe volta a interpretar, em Uma Mente Brilhante, um personagem real: o matemático John Forbes Nash Jr., que no final da década de 40 desenvolveu uma teoria que viria a revolucionar a Economia nas décadas seguintes, mas que, anos depois, acabou sendo diagnosticado como esquizofrênico em função de suas alucinações persecutórias e delírios de grandeza. Com o fracasso dos tratamentos empregados na época, Nash aposta em um `auto-condicionamento` como forma de combater a doença – e sua luta culmina no recebimento do cobiçado prêmio Nobel em 1994.

Sempre versátil, Crowe consegue compor o personagem através da utilização de tiques nervosos relativamente sutis e de outros detalhes igualmente importantes, como o hábito de inclinar a cabeça para baixo ao conversar com outras pessoas, num misto de timidez e aparente insegurança (digo `aparente` porque, com o desenrolar da trama, Nash se revela um sujeito absolutamente confiante em seu próprio talento, chegando a manifestar sinais de extremo egocentrismo – um indício precoce de sua enfermidade, obviamente). Apesar disso, o matemático jamais é retratado de maneira estereotipada, já que Crowe é bem-sucedido ao abordar outros aspectos de sua complexa personalidade, como sua frustração intelectual ao não conseguir desenvolver uma `idéia original` e, posteriormente, seu comovente embaraço ao ser obrigado a se medicar na frente de um ex-colega.

Enquanto isso, Jennifer Connelly (indubitavelmente uma das mais belas atrizes de Hollywood) não se deixa ofuscar por seu colega de cena e cria uma personagem igualmente forte e comovente, já que sua Alicia Nash é uma mulher determinada a apoiar o marido de todas as formas – mesmo que isso signifique viver em constante estado de tensão (é justamente por esta razão que sua participação torna-se mais efetiva a partir do momento em que a doença do matemático é descoberta).

Inspirado na biografia homônima escrita por Sylvia Nasar, o roteirista Akiva Goldsman acerta ao apostar em um determinado artifício (o qual não vou revelar, já que isso atrapalharia quem ainda não assistiu ao filme) que funciona maravilhosamente bem no sentido de levar o espectador a compreender melhor o terrível universo em que Nash passou a viver em função de sua doença – algo eficaz não apenas do ponto de vista narrativo, mas também dramático. Aliás, esta é uma das grandes surpresas de Uma Mente Brilhante, já que Goldsman é um roteirista reconhecidamente medíocre (ele é o autor de `obras` como Batman & Robin e Perdidos no Espaço) – e que provavelmente retornará à mediocridade após este trabalho. E justiça seja feita: apesar de bem empregada, a tal `reviravolta` presente neste filme não é nada original, já que uma outra produção utilizou, há cerca de dois anos, este mesmo recurso em sua trama – e também com grande sucesso. (Infelizmente, não posso citar o filme, pois isso certamente entregaria o segredo.)

Já Ron Howard, que havia demonstrado ser um diretor com certo talento em filmes como Cortina de Fogo e EdTV (sim, gostei desta produção), realiza um bom trabalho ao pintar um retrato fascinante de John Nash, conseguindo transformar até mesmo a matemática em algo emocionante (sou da área de Ciências Humanas, lembrem-se...). O curioso é que, ao contrário do que fez em Apollo 13, o cineasta não abusa de tomadas complicadas em Uma Mente Brilhante, optando por enquadramentos e movimentos de câmera mais básicos – o que se revela uma boa decisão, já que enfatiza o desenvolvimento dos personagens. A única ressalva que faço com relação ao seu trabalho neste filme é o enfoque exageradamente cômico conferido à inadequação social de seu protagonista, que acaba levando alguns espectadores à noção equivocada de que os problemas psicológicos de Nash são uma excentricidade divertida, e não uma doença grave que merece nosso lamento (e a trilha sonora composta por James Horner é eficiente neste sentido, já que comove sem se tornar açucarada demais).

É uma pena, ainda, que o filme ignore diversos elementos da vida de Nash, como o fato deste ter um filho com outra mulher; ter sido preso durante uma operação policial voltada para a identificação de homossexuais (?; ter se divorciado de Alicia (eles se casaram novamente décadas depois; e ter alegado, em conseqüência de sua doença, ser uma divindade perseguida por alienígenas. Obviamente, Howard (que é também o produtor de Uma Mente Brilhante) solicitou que Akiva Goldsman ocultasse estes fatos com o objetivo de facilitar a identificação do público com seu herói, mas, com isso, perdeu a chance de retratar o matemático de forma ainda mais complexa – e real.

Um pequeno equívoco em um ótimo filme. Mas ainda assim um equívoco.
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18 de Fevereiro de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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