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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/09/2003 18/07/2003 2 / 5 3 / 5
Distribuidora

Bad Boys 2
Bad Boys II

Dirigido por Michael Bay. Com: Will Smith, Martin Lawrence, Gabrielle Union, Jordi Mollà, Peter Stormare, Theresa Randle, Michael Shannon e Joe Pantoliano.

Bad Boys 2 não é apenas uma comédia policial excessivamente longa e nada engraçada; é, também, um filme que deixa evidente a terrível falta de caráter, humanidade e bom senso de seus realizadores. Glorificando a violência de forma assustadora, o diretor Michael Bay praticamente obriga o espectador a admirar a beleza estética de uma tomada em que vemos, em câmera lenta, uma bala atravessar o braço de uma pessoa e, em seguida, perfurar o pescoço de outra.

Não me compreendam mal: nada tenho contra a utilização da violência como recurso dramático ou cômico (como é possível comprovar em minhas análises sobre Irreversível ou Premonição 2). Tampouco acredito que a violência no Cinema possa trazer conseqüências para a vida real (se alguém é influenciável ou louco o bastante para se deixar levar por um filme, acabará `explodindo` mais cedo ou mais tarde, independentemente do que estiver assistindo). Meu problema com Bad Boys 2 diz respeito à completa falta de sensibilidade demonstrada por Bay, pelo produtor Jerry Bruckheimer e pelos demais envolvidos na produção. Basta dizer que, em certo momento, o longa chega ao ponto de explorar a sexualidade de um cadáver ao levar o herói vivido por Martin Lawrence a se esconder em uma maca na qual se encontra o corpo nu de uma mulher jovem e siliconada. E se os responsáveis pelo filme não se deram conta de que poderiam ser acusados até mesmo de necrofilia, então é porque perderam, de fato, noção da realidade.

Já Michael Bay demonstra, mais uma vez, ser dono de um forte senso estético: seus enquadramentos são elegantes e a fotografia de Amir Mokri é belíssima. Infelizmente, o cineasta também comprova ser incapaz de contar uma história ou de desenvolver seus personagens – e sua insistência em cortes assustadoramente rápidos só pioram as coisas (não é à toa que, desta vez, ele trabalhou com nada menos do que três editores!). Por outro lado, as seqüências de ação são, em sua maioria, intensas e cheias de energia: as batidas de carro são espetaculares, as explosões são grandiosas e os dublês merecem todos os prêmios da categoria (aliás, chega a surpreender que ninguém tenha morrido durante as filmagens). É uma pena, portanto, que estas seqüências façam parte de um roteiro idiota e repleto de diálogos imbecis.

Concebida por três roteiristas, a história de Bad Boys 2 possui mais furos do que a lataria do carro de seus heróis: logo no início, por exemplo, Marcus (Martin Lawrence) e Mike (Will Smith) invadem uma reunião da Ku Klux Klan e se metem em apuros quando o rádio que usariam para dar o sinal de invasão para seus companheiros não funciona. Ora, então por que eles simplesmente não dão um tiro para cima? Mas creio que estou sendo exigente demais com um roteiro que sequer presta atenção em suas próprias cenas: em certo instante, para citar outro exemplo, o chefe de polícia interpretado por Joe Pantoliano diz que, felizmente, `nenhum policial` havia morrido em uma perseguição que acabara de acontecer – sendo que no mínimo uma viatura pode ser vista explodindo durante a seqüência! Para piorar, os roteiristas ainda tentam incluir uma mensagem política rasteira e fora de propósito ao citarem que o vilão da história, um cubano, `apóia o regime de Fidel Castro`. E já que citei o tal vilão, vale dizer que ele possui uma filha pequena, a quem ama loucamente. Porém, se você acha que a criança foi incluída na trama para conferir dimensão dramática ao bandido, esqueça: por incrível que pareça, ela só aparece para que o filme possa fazer piada com seu excesso de peso.

Aliás, quando uso o termo `piada`, é no contexto sem graça da palavra, já que Bad Boys 2, apesar de se esforçar ao máximo para provocar o riso do espectador, falha miseravelmente, já que suas gags soam de maneira forçada e artificial. E se no filme original o relacionamento explosivo entre os dois heróis conferia certo charme à produção, desta vez eles parecem brigar apenas com o propósito de parecerem engraçados – mas, em vez disso, se tornam apenas chatos (o único integrante do elenco que consegue ser consistentemente divertido é Joe Pantoliano). No entanto, Mike e Marcus não falham apenas como comediantes: como policiais, eles também são um desastre total, seqüestrando presidiários e instalando grampos ilegais. Em outras palavras: mesmo que consigam colher provas incriminadoras contra o vilão, estas não servirão para nada, já que não serão aceitas em juízo. (Ora, a quem estou tentando enganar? Em quantos filmes do gênero os vilões acabam presos?)

Além disso, para os padrões morais de Michael Bay e seus amigos, este comportamento dos heróis deve ser saudado com entusiasmo – afinal, eles não foram capazes de julgar que uma cena envolvendo cadáveres sendo decapitados no trânsito poderia ser engraçada? E se você ainda não se convenceu de que Bad Boys 2 é um filme assustadoramente desumano, preste bastante atenção na perseguição final e responda: se há roupas penduradas do lado de fora daqueles barracos, é porque alguém deve morar naquele local, não é mesmo? Agora imagine quantas pessoas (mesmo que fictícias) tiveram que morrer para que os produtores pudessem criar aquela seqüência e diga se Bay, Bruckheimer & cia. não deveriam ser obrigados a fazer um curso de Moral e Cívica...

Observação: em certo momento da projeção, os heróis tentam tomar o carro de um civil para que possam dar continuidade a uma perseguição, mas o sujeito acaba se livrando da exigência em função das péssimas condições de seu carro. Este `personagem` é vivido pelo cineasta Michael Bay. Vamos torcer para que ele se empolgue com a carreira de ator e abandone a direção...
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21 de Setembro de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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